
Eu ia começar este texto dizendo que “na semana passada ocorreram dois fatos…”, mas é triste constatar que esses episódios aos quais iria me reportar ocorrem cotidianamente, diariamente, a todo instante. Seria reducionista começar este texto me limitando apenas a dois episódios. O antissemitismo está normalizado, muito em especial na absurda naturalidade com que alguns perversos e irresponsáveis defendem a erradicação de Israel, algo inaceitável, uma aberração histórica e moral. Já era estrutural; agora é desgraçadamente encorajado, incentivado. É bonito, rende tapinhas nas costas, de aceitação. E não adianta mostrar que os caras brigam com a realidade. Quando uma moldura está posta, fica fácil preencher o seu interior, porque os aplausos vêm, mesmo que seja a uma obra falsa. Mas vamos aos fatos a que me refiro da semana passada.
Num grupo que infelizmente tive de abandonar (para alívio de alguns poucos ali, porque o judeu que não é “bom companheiro” incomoda, e certamente eu — sim, eu! — que acabei sendo criticado por “intolerância” ou “interditar” o “debate”), uma pessoa falou com a maior normalidade que a ditadura argentina foi obra dos militares, EUA e “elite judaica” (!!!) e que isso é mostrado no filme “A história oficial” (?!). Devo reforçar: tem pessoas nesse grupo que adoro e admiro e me doeu o afastamento, mas não dá! Eu vi três vezes esse filme oscarizado. Referências a judeus? Sim. De leve. Mas pelo lado completamente oposto. A atriz Chela Ruiz interpreta a personagem Sara, que busca a neta desaparecida. E é exatamente isso que ocorria amiúde. Uma enormidade dos mortos e desaparecidos (percentual bem maior que o da comunidade judaica argentina) era de judeus. Havia várias madres e abuelas judias. As instituições judaicas buscaram negociar a libertação de presos políticos com os repressores. A ditadura argentina era francamente antissemita. Alguns apoiaram o regime? Claro, ainda mais que a Guerra Fria jogou Israel no colo dos EUA. Mas isso não foi exclusividade da “elite judaica”. Toda a elite argentina aderiu entusiasticamente à ditadura militar. Sentiam-se livres do caos que foi a presidência de Isabelita, sendo monitorada pelo López Rega numa permanente carnificina, mesmo entre os peronistas, sem falar na crise econômica provocada pelo Rodrigazo. Logo, a frase daquela pessoa é falsa, leviana e irresponsável. Como conheço bem a história argentina, contestei na hora e me retirei, explicando o meu profundo desconforto. Era o que me restava fazer, se sou um cara honesto consigo mesmo, que respeita a própria identidade. Manter-se presente em um ambiente onde esse tipo de comentário é aceito seria uma atitude pusilânime.
Pois então. O doloroso fato relatado acima é um dos dois a que me referi lá no início. No outro, um grande jornalista e antigo amigo expôs nas redes as posições de Carlos Lacerda, personagem que ele biografou, sobre a independência (refundação) de Israel, o lar ancestral do povo mais perseguido da história humana ao lado dos africanos (não tenho a menor dúvida de que o Holocausto e a escravização africana foram, disparado, as maiores tragédias da Humanidade). Lacerda mudou de opinião durante a vida (e é disso que trata o post, bem interessante, aliás), mas consta que, lá nos anos 1940, ele era contra a existência de Israel. Ok. Se dizia isso, não há o que contestar. Mas, ora, Lacerda alegava que isso ocorreria com o dinheiro dos EUA. E os comentários que li no post foram repugnantes. O detalhe é que é todo o contrário. O maior apoiador da independência de Israel para a solução justa de dois Estados, representando os dois povos originários (judeus e árabes), foi a União Soviética (URSS). Foi a URSS o primeiro país a reconhecer o Estado judeu! Quando os vizinhos árabes resolveram atacá-lo no dia seguinte por não aceitar a existência de uma pedra no caminho do panarabismo pregado pelo Nasser, Israel ainda era desmilitarizado, e as armas para enfrentar os agressores árabes foram fornecidas pela Tchecoslováquia, do bloco socialista. Depois, a Guerra Fria empurrou Israel para o lado americano; o bloco socialista ficou ao lado dos árabes e seu petróleo. Mas há aqui um erro de origem. Acabei não contestando porque cansei de explicar o óbvio e implorar por lucidez. E que fique claro: o meu maior problema não é com o colega e amigo, mas com alguns ignorantes (ignorância é o alimento de preconceito) que comentaram o post dele. Preferi escrever aqui, por necessidade.
…
Faço e peço: reajam! Não aceitem! Contestem!
Foi isso que ensinou o sábio Hilel.
Foi também o que recomendou Sartre, falando explícita e diretamente conosco.
Entre o ser e o nada, seja.
Escrevi um texto semanas atrás mostrando como não basta ser anti-antissemita. O correto é se solidarizar com a vítima e ajudá-la a combater o preconceito. Para outras minorias, isso é um truísmo incontestável. Para os judeus, não. Os judeus são a Geni do Chico Buarque. É só pedrada. E o que é o “bom judeu” que dá título a este texto? O “bom judeu” equivale ao “negro bom”. É uma designação irônica para o integrante submisso de uma minoria vítima de preconceito, uma pessoa obediente, que aceita essa condição sem questionamentos e, por isso, é bem aceita entre quem deprecia o grupo humano do qual faz parte. Esse comportamento subserviente, pusilanimemente pacífico e cordial, leva à normalização e à invisibilidade. E fica a dica: os judeus que agiam assim na Europa nazista foram para as câmaras de gás como os outros.
*Diga a um negro que ele está “interditando” o “debate” caso seja vítima de manifestação claramente racista (como se o crime de racismo fosse ideologia). O mundo viria abaixo, com razão. Pra judeus, tá normalizado, tá valendo. Comigo, não! Não sou um “bom judeu”.
PS: depois da classificação argentina pra final da Copa, comecei a ouvir tristes figuras da aldeia criticando o Messi por um suposto (muito suposto) conservadorismo, só porque teve interlocução com governantes eleitos legitimamente e, claro, por aparentemente ser amigo de Israel (tem fotos dele de kipá no Muro das Lamentações, por exemplo). Essas mesmas tristes figuras da aldeia acham normalíssimo um jogador se mostrar simpático aos aiatolás e seus proxies obscurantistas e verdadeiramente expansionistas (o que é o “califado” ou o panarabismo?). Nessas horas, diante de distorções tão flagrantes e absurdas, eu penso muito em algo que não me sai na cabeça: nós, judeus, não somos mainstream e levamos porrada com tanta naturalidade por sermos uma minoria numérica, poucos votos etc. É o custo de não termos uma cultura e uma fé proselitistas. Se tem uma coisa que judeu não é, é expansionista, e essa me parece que é justamente a nossa danação. O proselitismo é vetado no judaísmo. Vetado! Se Israel ocupa territórios, não é por “colonialismo” ou “expansionismo”. É em razão das guerras, das agressões, das ameaças existenciais. Se dependesse de Israel, já haveria 2 Estados pra 2 povos há décadas. Na verdade, desde 1948. Perdão pela expressão, mas cagam pra nós, somos anexos, periféricos, dizem as maiores asneiras impunemente. Mas aí eu volto ao tema desta coluna. Nós que temos consciência, altivez e personalidade e as pessoas que nos estendem a mão precisamos reagir, não podemos ser o “bom judeu”.
Shabat shalom!