
Aviso às leitoras e leitores. A psicanalista aqui saiu de férias e essas notas são o sumo de alguns bons devaneios.
I – Aula de ciências, trabalho em grupo. Sabe-se lá por quê, nos deixavam manipular o fogo aos 9, 10 anos. Brincar com fogo sempre foi uma tentação. E, sim, às vezes gera xixi na cama. Até Freud não ignorou essa sabedoria popular.
Em casa tínhamos algumas panelas de vidro que a minha avó não tinha se adaptado, porque queimavam a comida. Levei uma. Esquentamos a água, e ela ferveu e condensou na tampa. A tampa fazia as vezes de nuvem. Cheios de emoção e expectativa, passamos gelo e fizemos chover. Que emoção!
II – Dizem as bruxas – que las hay, las hay – que o lugar mais poderoso da casa é a cozinha, porque lá estão os quatro elementos. Acredito que as boas bruxas e chefs equilibram bem os elementos. Apesar de que lo bueno se cocina a fuego lento, no meu caso, quando cozinho, confesso que, às vezes, abuso do elemento fogo. Há momentos em que a tentação do fogo se apodera de mim e certas comidas saem com a deliciosa crostinha. As nutricionistas não gostam muito, mas, nitritos e carcinógenos a parte, eu desfruto muito um gratinado.
III – Como é sabido, o fogo é um elemento muito associado aos sentimentos. Não fiz nunca o levantamento histórico dessa associação, mas observo que, dos quatro elementos, o fogo é aquele que, uma vez descoberto, precisou ser controlado. Controlá-lo fez toda a diferença para a humanidade. E uma pretensão humana é poder controlar os sentimentos.
Nunca pude, mas a gente vai aprendendo a ler. Há um momento em que a vida fica mais prática se soubermos diferenciar paixonite de paixão. A análise ajuda, mas também o calor, pelo menos para mim. O calor sempre me ajudou a ler meus sentimentos. O que vem agora é empírico e pessoal. Oba!
Para mim, as paixonites sempre geraram pensamentos mais obsessivos e repetitivos, sem muita comoção corporal. É mais como uma encanação mesmo. Nada a ver com a paixão que, além de me dar um certo ar aéreo para o mental – traduzindo: o ficar abobada em vez de obsessiva –, traz ondas de calor. Incômodas ondas de calor, como uma insistente timidez. Dá para controlar? Não dá, mas dá para se conhecer.
IV – Os místicos falam que o fogo transmuta. Seria a paixão verdadeira também uma verdadeira transmutação?