
Na última década e meia, o mercado editorial brasileiro descobriu que Deus é o caminho… das vendas. Em um filão editorial como a autoajuda, conhecida pela capacidade de se subdividir com facilidade em outros nichos, Deus já pode ser apontado como um dos mais rentáveis, como se pode inferir da onipresença em qualquer livraria de Café com Deus Pai, livro escrito por um pastor chamado Júnior Rostirola, um nome que não consigo escrever sem ter de suprimir a tentação de alguma brincadeira inapropriada de quinta série. O livro com “mensagens motivacionais” expressas em um tom cordial e coloquial como uma “conversa na hora do café” já gerou uns seis volumes e algumas variantes como Café com Deus Pai Teens e Café com Deus Pai Kids (me pergunto se crianças deveriam tomar tanto café, mesmo acompanhadas do Altíssimo em pessoa).
Consta também que a série já ultrapassou a marca de 10 milhões de cópias vendidas. Foi, além disso, traduzida para sete idiomas, entre eles inglês, espanhol, francês, italiano e alemão. E ainda ganhou esta semana mesmo o 1º lugar na categoria Não Ficção, Autores Nacionais do Prêmio PublishNews, e esteve também entre os destaques da categoria Não Ficção Trade – pelos nomes das categorias, vocês já sacaram que o Prêmio PublishNews, concedido pelo principal portal de notícias e informações sobre o mercado editorial e a indústria do livro no Brasil, é um reconhecimento de mercado mais do que de valor literário.
A questão é que esse blockbuster literário de números consideráveis não está sozinho. Para quem vem acompanhando o mercado editorial profissionalmente há tempos, como eu, ele parece uma culminância de um filão que deu as caras aqui no Brasil já ali pelo fim da primeira década deste século. É fácil encontrar desde aquele período dezenas de livros de autoajuda que apostam na figura religiosa de Deus como a chave da felicidade, como já o foram antes nesse nicho específico de mercado o pensamento positivo, as técnicas de programação da neurolinguística e o próprio estudo da filosofia, moda em voga nos anos 2000 que parece ter descambado para paragens mais sinistras com o movimento redpill e assemelhados evocando a filosofia estoica como inspiração para suas groselhas confusas. Ainda que o cristão de boa-fé argumente que para ele Deus sempre foi a salvação, agora ele também parece ser a chave para o sucesso nos negócios, na vida, nos relacionamentos. Como uma grife ou um símbolo de status.
Filão interminável
Deus não foi parar nas prateleiras (e nas cafeterias) só agora. A editora Sextante, a mesma de O Código da Vinci, mantém desde os anos 2000 uma linha editorial dedicada às obras de autoajuda, pela qual lançou uma leva de publicações tais como Deus Cura a Dor e Jesus, o Maior Psicólogo que já Existiu, de Mark Baker (imagino onde anda o Conselho de Psicologia numa hora dessas); A Semente de Deus, de César Romão e Jesus, o Maior Líder que já Existiu, de Laurie Beth Jones. O filão chegou a gerar até disputas de passe. A série Conversando com Deus, de Neale Donald Walsch, que era destaque do catálogo da Sextante, passou para a Agir Equilíbrio/Agir Negócios, selo exclusivamente voltado para a literatura da autoajuda espiritual e financeira lançados pela Agir, do Grupo Ediouro, e hoje pode ser encontrado nas livrarias em edição da BestSeller, antiga editora independente que hoje é um selo do conglomerado Record.
Outras obras lançadas por outras editoras apresentam Deus como a chave e o caminho para qualquer coisa, em títulos que provocam de estranheza a riso, como E Deus Criou a Empresa Familiar (Integrare), Como os Pinguins Me Ajudaram a Encontrar Deus (Thomas Nelson Brasil) e A Lista de Tarefas de Deus (Via Lettera). O próprio Café com Deus Pai deu origem a uma série de outras obras dessa categoria “devocional” que tentam pegar uma casquinha da fórmula do sucesso usando no título a expressão “Deus Pai” popularizada pelo livro. Temos Conversa com Deus Pai, de Amanda Veras (Principis), Caminhando com Deus Pai, de Magno Paganelli (Acaz) e até o reenvelopamento de um livro de um ministro do século XIX, Charles Spurgeon, como Vencendo a Ansiedade com Deus Pai. Não vou me dar o trabalho de ler esse livro, a vida é curta e eu ainda não li todos os que o Balzac já tinha escrito quando tinha a minha idade, mas suspeito que essa seja uma nova edição de algum livro anterior de Spurgeon, como Devotions for Dealing With Anxiety, agora republicada com esse “Deus Pai” maroto no título.
Deus já foi tema da moda até mesmo em obras de ficção best-seller que pegavam carona na fórmula de O Código Da Vinci, como A Fórmula de Deus, do português José Rodrigues Santos (Record), O Mapa do Criador, do espanhol Emílio Calderón (Companhia das Letras), e o mais bem-sucedido comercialmente dos três: A Cabana, de William P. Young (Sextante), todos tornando o mistério da existência ou não de Deus elemento fundamental de uma trama de suspense costurada com a habilidade da túnica de um mendigo.
Não que livros sobre Deus não tenham sido constantes na história humana: boa parte dos melhores esforços do pensamento humano foi dedicada à interrogação sobre ele. O que é peculiar é essa tentativa de mesclar à sua figura os elementos característicos da literatura de autoajuda. Embora Deus e Cristo sejam as variantes mais presentes – o que até seria de se esperar em um país declaradamente cristão como o Brasil -, não faltam obras que, em vez do pensamento positivo, apresentam como o grande segredo da vida palavras e ensinamentos de uma figura que representa sabedoria e/ou poderes superiores – Confúcio ou Buda também entram na mistura, cujos antecedentes podem ser encontrados já nas obras do guru indiano Deepak Chopra, nos anos 1990. É como se marcassem um encontro nas gôndolas de livrarias e supermercados e nas telas da Amazon duas gerações de confortos para tempos de crise e insegurança: a fé, antiga como o homem, e a autoajuda, produto acabado da sociedade capitalista moderna. Ambos com a mesma função: suprir a natural necessidade do ser humano de ter algo em que acreditar.
Desafios e a autoajuda
A autoajuda é um produto do capitalismo – e, em sua origem, traz em si as forças fundamentais do sistema, conforme preconizado por Max Weber: a ética protestante do trabalho e o impulso humano de melhorar de vida. Não é à toa, portanto, que esse tipo de literatura tenha ganhado força no maior país capitalista do mundo, os Estados Unidos. Os principais percursores já apontados para o gênero, como Autoconfiança, de Ralph Waldo Emerson, no século XIX, ou a biografia de Benjamin Franklin, no século XVIII, surgiram nos Estados Unidos, bem como as duas obras que definiram o gênero, nos anos 1930: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, e Pense e Enriqueça, de Napoleon Hill, ambas publicadas, não por acaso, na década de pobreza e dificuldades que se seguiu ao desastre financeiro da bolsa de Nova York, em 1929.
A autoajuda, portanto, sempre se apresentou como resposta aos desafios de seu tempo, usando as ferramentas à disposição. Numa época em que o capitalismo estava em dificuldades, após 1929, com desemprego recorde e filas de miseráveis, a ideia era ensinar a chave de se “vender” melhor do que qualquer outro. Nos anos 1950, começam a pulular cursos e livros voltados para o sucesso profissional, o que influenciaria positivamente a vida pessoal. É nessa época que surge um dos precursores da atual literatura de autoajuda religiosa que hoje é presença desde a livraria até o supermercado, do aeroporto à revistaria da rodoviárias. Escrito por um pastor metodista em 1952, O Poder do Pensamento Positivo, de Norman Vincent Peale, usava as escrituras sagradas como mote para a apresentação de uma receita de recompensa à fé de quem trabalhava em busca da prosperidade – algo arraigado até hoje na cultura americana.
Nos anos 1980, 1990, a autoajuda se apropriou das descobertas mais recentes sobre a arquitetura do cérebro para criar sua variação “neurolinguística” e vender a ideia de que era possível programar a mente e a vida em busca do sucesso – como nas obras do brasileiro Lair Ribeiro e do (acredite) norte-americano, apesar do nome, Jose Silva. A moda atual do famigerado “coach quântico” é um entendimento equivocado de conhecimentos da física quântica, o principal deles o fato de que observar uma função de onda causa seu colapso, forçando uma partícula que estava em múltiplos estados prováveis a assumir um estado único e definido – e a partir daí, obras como a salada delirante de O Segredo passaram a tentar convencer os incautos de que o pensamento molda o universo. Boa sorte com isso.
Padrão
A literatura de autoajuda é escrita dentro de um padrão bem definido, apesar das subdivisões temáticas que comporta (livros sobre sucesso no emprego, relacionamento interpessoal e por aí vai). O texto é simples, sem dubiedades, os conselhos são edificantes, a postura é sempre positiva, alto-astral e de alguma forma oferece consolo ao leitor, a esperança bastante ingênua de que há um roteiro de passos, atitudes, disposições mentais que, se executados, trarão o sucesso, a felicidade, a ausência de dor e a sabedoria como resultado quase matemático. Com essa estrutura, é óbvio que, apesar de dialogar com a ciência e a mentalidade de seu tempo, toda literatura de autoajuda oferece uma visão simplificadora de seu tema – mesmo se esse tema for Deus.
O Deus apresentado nesses livros, amparado em trechos criteriosamente selecionados, seria irreconhecível se comparado com o Deus bíblico, que, em especial no Velho Testamento, é também uma divindade irascível e destruidora: “O grande motivo de orgulho do monoteísmo é que a realidade definitiva vive em sua casa e em nenhum outro lugar. A tristeza do monoteísmo é que tudo tenha de ser acomodado nessa casa única (…). Na antiga Mesopotâmia havia dois deuses, um deus criador e um deus destruidor, que lutavam um contra o outro. No antigo Israel, ao contrário, só havia um deus, que tanto criava como destruía“, escreve o acadêmico Jack Miles no estudo Deus: uma Biografia.
A autoajuda religiosa recente, por comodidade, varre um desses aspectos, o destruidor, para centrar foco no ensino de como se conectar com a outra faceta da divindade, a de amor e bondade a que se pode ter acesso a qualquer hora. A crença nesse Deus de sentido prático, que responde imediatamente às necessidades de quem tem objetivos claros — defendida em muitos desses livros — é eco de uma necessidade humana de acreditar no poder do pensamento — algo que Freud já havia analisado em um ensaio clássico de 1922, Totem e Tabu, considerado por ele próprio um de seus melhores trabalhos. O fenômeno do “pensamento mágico”, dissecado por ele como característica da mentalidade da infância e dos povos “primitivos”, nasce de uma necessidade de afastar ideias que amedrontam, como a da finitude, e cria a noção de que o pensamento teria o poder para obter aquilo que se deseja.
É a tentativa de enfrentar o que há de assustador no humano, algo para o que a própria ideia de Deus sempre foi por si só um consolo.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.

