
Depois de alguns meses compilando novos textos, seguem mais exemplares de meus aforismos peculiares que não levam a lugar nenhum, nem ao humor nem à reflexão, e por isso os apelidei carinhosamente de “Bolaforismos”. Já usei esse formato em outras duas crônicas aqui mesmo na Sler (leia AQUI e AQUI) e sempre acho válido lembrar que esses epigramas de segunda linha, esses chutes perdidos no grande jogo do pensamento breve, nasceram como uma homenagem ao Millôr Fernandes. Espero que se divirtam na leitura (porque eu me diverti escrevendo):
Ø Com a ascensão do mercado das Inteligências Artificiais, temos cada vez mais gente achando que constrói o futuro quando, na verdade, está programando a Skynet.
Ø Tanta gente preocupada com o apocalipse zumbi, quando provavelmente o que virá em no máximo 20 anos será o Apocalipse zumbíblia.
Ø A popularização da linguagem Buzzfeed nas manchetes do jornalismo digital gerou uma onda de títulos como “Por que tal coisa é assim” ou “Por que tal coisa acontece”. Na qualidade de jornalista jurássico, eu me importaria menos com esse formato se a rapaziada não vivesse escrevendo os porquês errado…
Ø Com tudo que anda rolando em termos de política no Brasil, está caindo de madura a criação de um novo e definitivo partido político, o NOSFODEMOS.
Ø Aliás, temos REDE, SOLIDARIEDADE, LIVRES, PODEMOS, MISSÃO… Penso que a política eleitoral no Brasil foi pra vala no momento em que deixou de entender o que é uma SIGLA.
Ø Aliás ainda. Caiu esses dias na minha TL um vídeo de um debate antigo da Band, em 2016, em que o então candidato a prefeito Cara Melo (AQUI) largou a frase “Política é construção“, e de repente tudo em sua administração nos últimos dois mandatos pareceu fazer mais sentido…
Ø Uma ideia: um movimento musical com canções de dor de cotovelo para os que não acreditam no amor: o Lupicinismo.
Ø Algumas declarações de alguns “candidatos cristãos” me fazem pensar que são pessoas na religião certa, mas no século errado.
Ø Duas semanas em Porto Alegre: chuva, frio, sol, ventos de 90 quilômetros por hora… Se Kafka fosse porto-alegrense, não teria escrito o conto Diante da Lei, e sim Diante da Máquina de Lavar.
Ø Grandes cenas brasileiras. Pais que põem filho num colégio que custa o PIB de um país de terceiro mundo para que a criança tenha “a melhor educação” e aí apanham a cria todos os dias em fila dupla no meio da rua, perdendo a oportunidade de dar um exemplinho que é de graça…
Ø O Brasil é o país do teatro. Quando não é o do absurdo, é o de Brecht.
Ø A internet é o espaço em que a turma defende o conhecimento livre e sem direito autoral, e depois trava uma guerra pela autoria de um meme.
Ø Aliás, a internet não apenas banalizou o ódio, como está tornando até mesmo a Schadenfreude cansativa.
Ø HAIKAI DO JORNAL IMPRESSO: Manual de redação / Papa pode ser Leão / Mas o Tolstói, não…
Ø Provérbios para o século 21: “É mais fácil um Marcelo Camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um José Rico entrar no reino dos céus.”
Ø Ser um cara de meia-idade tentando digitar mensagens no telefone celular é uma experiência contraditória: tu te sente um troglodita e usa os polegares opositores ao mesmo tempo.
Ø Leituras apaixonadas de adolescência às vezes parecem com pessoas que namoramos na adolescência: o reencontro é constrangedor para ambas as partes.
Ø O paradoxo da religiosidade é que o fanático é alguém profundamente egoísta que se considera impulsionado por sentimentos altruístas. O egoísmo está em impor uma visão pessoal que não aceita a dissidência (a “heresia”), e o altruísmo está em querer salvar almas com isso.
Ø Eu me envergonharia de descrever uma música como “um perfeito romance”, mas tá cheio de picareta chamando narrativas ligeiras de “perfeita canção pop”.
Ø Pode soar meio niilista, mas o verdadeiro libertário (no sentido amplo da palavra, e não no desses arrombados ancaps que sequestraram a palavra hoje) sabe que, para manter-se fiel ao que defende, terá de ser derrotado. Porque seu ideário de liberdade deve incluir a liberdade do outro de discordar dele, inclusive nas questões mais simples. E que qualquer projeto possível a partir da ampla liberdade nunca será executado.