
Aconteceu em um supermercado. Não foi possível fotografar, como (não) se verá; que valham, portanto, as minhas palavras. O texto, afinal, é sobre o amor a elas. Eu chegava pontualmente para fazer as compras semanais, quando, no subsolo, deparei-me com a cena. Dois policiais fortemente armados vigiavam um terceiro homem que parecia consertar o caixa automático.
Na mesma hora me veio um haicai: “o dinheiro do banqueiro/ é mais importante/ do que o transeunte”. Meio pobrinho, mas nasceu. Talvez seja assim a poesia: palavras tão ágeis que se tornam mais fortes do que o próprio pensamento. Mais próximas do sentimento, enfim. É que eu tinha pensado, sem me dar conta, no cenário de um ladrão vindo dar o bote na grana. Não sei se seria assim, mas devo ter pensado que, no mínimo, botariam em risco quem por ali passasse. Pensei nos velhos que não teriam agilidade para se deitar. Eu a teria em tempo hábil? Daí o haicai.
Mas as palavras dele ainda não bastavam e decidi bater uma foto para que a imagem ajudasse. Ingenuamente, achei que poderia ser discreto, diante de policiais treinados para captar mínimos movimentos suspeitos e acontecimentos, enquanto eu só treino nas palavras. Resultado: os dois me abordaram, perguntando a razão daquela foto. Eles não sabiam o que era um haicai, e não houve dispersão. Por um momento, eu era um criminoso, e até uma conhecida que passou por ali, bem na hora, deve ter desconfiado de mim. Ela não parou.
Na hora, lembrei-me de um episódio parecido, quando morei em Paris, no século passado. Sempre que eu ganhava um dinheirinho brasileiro, ia na galeria Claridge, na Champs-Élysées, onde tinha o melhor câmbio. À minha frente, daquela vez, tinha uma mulher com um cachorrinho no colo, que se esticou na minha direção até que houve a maldita coincidência de alguns fatos. Eu fiz carinho na cabeça do bicho, o caixa foi buscar o dinheiro que faltava, ela não viu, contou quanto já tinha e concluiu que eu a havia roubado. Nos trinta segundos que levaram para o homem lhe entregar a quantia restante, eu me tornei um ladrão.
Prometi que nunca mais daria este mole, mas a compulsão para repetir é sempre forte nos humanos, e ali estava eu, de novo, no olho do furacão da desconfiança. O gerente, devidamente chamado, reconheceu-me e, embora não fosse um entusiasta do haicai, confiou na minha versão, e fui liberado. Da história ficou essa convicção que contei para o Rilke. Sim, Rilke, sou um poeta, porque nada nem ninguém pode abafar a minha construção de um poema.
Não tenho o tamanho de um Brecht, que foi chamado para se explicar em um parlamento americano desconfiado de que ele era comunista. Pouco importa, sou também um poeta, desobediente de palavra e injustiça. E, como ainda achasse que o haicai estava ruim, não sosseguei enquanto a cena não me entregasse um poema melhorzinho:
O poeta
tal qual o fotógrafo
anda até onde for preciso
para surpreender a imagem verdadeira.
A imagem
verdadeira
está à beira
do abismo.
O poeta maior,
ao chegar ao abismo,
é o que dá mais um passo
e salta
com o
último pássaro.