
As eleições recentes no Brasil e nos Estados Unidos trouxeram algum alento para quem se preocupa com a degradação ambiental. Mas não podemos esquecer que, por enquanto, isso ainda não se traduziu numa mudança de rumo. Aqui, o governo continua defendendo a expansão da exploração de petróleo, enquanto as queimadas atingem diferentes regiões do país. Nos Estados Unidos, o resultado das eleições para o Congresso não encerra os dois anos que ainda restam de um governo empenhado em enfraquecer políticas climáticas e favorecer os combustíveis fósseis. É nesse contexto que os mapas do caminho apresentados recentemente pela presidência da COP30, em vez de animarem, mostram o tamanho da barreira que ainda temos que vencer. Uma eleição pode abrir possibilidades, mas transformar essas possibilidades em efetiva proteção para as pessoas e para o meio ambiente exige muito mais.
Quem perdeu a casa numa enchente ou para um incêndio florestal provavelmente espera algo mais concreto do que mais um protocolo de boas intenções. No dia 3 de novembro, em Brasília, os dirigentes da COP30 apresentaram dois “mapas do caminho”: um para afastar os sistemas energéticos dos combustíveis fósseis; outro para interromper e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030. Publicados às vésperas da COP31, que será realizada na Turquia, os documentos são oferecidos aos países e às próximas presidências das conferências do clima.
Há trabalho sério nesses textos. Eles discutem financiamento, eletrificação, proteção das florestas e as dificuldades dos países que dependem da renda do petróleo em fazer ou mesmo lidar com a transição energética. Não seria correto dizer que sejam vazios. O problema é outro: quem terá que fazer o quê, e o que acontecerá se não o fizerem?
A própria presidência brasileira esclarece que são contribuições voluntárias, não prescritivas e não negociadas. Ou seja, o roteiro energético não cria novos compromissos nem estabelece metas ou calendários obrigatórios para cada país. Apresentar um caminho é importante, mas segui-lo continua dependendo de decisões que os governos podem adiar.
Cada um no seu tempo
O mapa do caminho energético propõe indicadores para que os países avaliem sua dependência dos combustíveis fósseis e sua capacidade de mudar. Sugere etapas até 2033, que combinam planejamento, eficiência, eletrificação e ajustes na oferta de energia. Mas cada governo decide em que ritmo e por qual caminho pretende avançar, e o documento não cria penalidades próprias pelo descumprimento.
É necessário levar em conta as diferenças entre os países. Um país rico, com acesso a crédito barato, não enfrenta as mesmas dificuldades que outro endividado, cuja população ainda carece de acesso a eletricidade e transporte. Além disso, uma transição que deixe trabalhadores sem emprego e sem alternativas também pode fracassar. Isso tudo precisa ser considerado, mas não deveria servir para adiar indefinidamente o momento de agir. Executar a transição energética aos poucos, mesmo que leve mais tempo, ainda significa que o objetivo, em algum momento, será alcançado.
Antes de prosseguir, vale esclarecer um ponto. O Acordo de Paris não é inteiramente voluntário. Os países têm obrigações de apresentar e atualizar metas nacionais, adotar medidas para persegui-las e prestar contas, o que tem sido feito. Isso, porém, é diferente de uma obrigação internacional de alcançar cada percentual anunciado, com punição automática para quem não conseguir. Seu comitê de cumprimento é expressamente não punitivo: pode examinar falhas e recomendar providências, mas não impor penalidades.
Não devemos desprezar o valor da transparência e da pressão política. As leis nacionais também podem permitir cobranças e responsabilização. Ocorre que existe uma distância entre anunciar uma meta e reduzir efetivamente as emissões. Novos documentos, por si só, não resolvem esse problema.
Já ouvimos isso antes
Em 2009, os países desenvolvidos prometeram mobilizar US$ 100 bilhões anuais para a ação climática nos países em desenvolvimento até 2020. Pela contabilidade da OCDE, chegaram a US$ 83,3 bilhões naquele ano. A meta só foi superada em 2022, com US$ 115,9 bilhões, dois anos depois do prazo.
É bom que o dinheiro tenha chegado. Mas, para uma comunidade que precisa proteger seu abastecimento de água, a seca continua enquanto o financiamento atrasa. Também é importante esclarecer que esse total inclui diferentes instrumentos, como empréstimos e financiamentos de projetos desenvolvidos por empresas dos próprios países desenvolvidos, não apenas doações.
Com as florestas, a situação é semelhante. Em Glasgow, em 2021, os governos renovaram a promessa de deter e reverter a perda florestal até 2030. A avaliação independente publicada em outubro de 2026 registrou uma melhora: o desmatamento global caiu 15% em 2025. Ainda assim, mais de 7 milhões de hectares foram perdidos, e a perda ficou 70% acima da trajetória necessária para alcançar o objetivo.
O prazo ainda não terminou, portanto não seria correto declarar que a meta fracassou. Mas também não podemos tomar uma redução anual como garantia de que ela será cumprida. A avaliação associa os ganhos à fiscalização e às condições econômicas, ao mesmo tempo que alerta para sua fragilidade quando ainda permanecem muitos incentivos que favorecem a derrubada.
A promessa e o poço
Uma das contradições mais evidentes aparece nos planos de exploração de petróleo. O Production Gap Report 2025, que examina os planos de vinte grandes produtores, indica que os governos projetam produzir, em 2030, mais do dobro dos combustíveis fósseis compatíveis com limitar o aquecimento a 1,5°C. Não estamos falando de uma produção futura inevitável. Mas esses planos mostram como a intenção de vender petróleo, gás e carvão continua muito mais concreta do que a intenção de abandoná-los.
O Brasil ajuda a entender essa contradição. A estimativa do INPE aponta uma redução de 41,8% no desmatamento da Amazônia entre agosto de 2025 e julho de 2026, para 3.335 km², o menor valor da série histórica. É um resultado que merece ser reconhecido, mas que não resolve o problema das queimadas. Entre janeiro e 23 de outubro de 2026, os focos de fogo no bioma Amazônia aumentaram 66% em relação ao mesmo período de 2025, embora o total nacional tenha apresentado uma pequena redução. Derrubar menos floresta não impede que o fogo continue degradando o que permanece em pé.
Ao mesmo tempo, o governo abraçou a expansão da exploração de petróleo como estratégica para o país, inclusive na região da Foz do Amazonas. O próprio ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, reconheceu, na apresentação dos mapas do caminho, que não há perspectiva de abandonar os combustíveis fósseis no curto prazo, embora tenha lamentado essa situação. A necessidade de manter o abastecimento durante a transição é real. Mas ela não explica, por si só, a decisão de ampliar a exploração. Trata-se de uma opção econômica.
Isso mostra os limites de mais um convite à cooperação. As promessas climáticas disputam espaço com arrecadação, contratos, empregos e interesses empresariais. Enquanto esses incentivos não mudarem, um governo pode defender a transição durante a conferência e continuar expandindo a exploração e produção de combustíveis fósseis quando volta para casa.
O diagnóstico do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, publicado em 21 de outubro, mostra a gravidade da situação. Mesmo que todas as metas nacionais sejam cumpridas e esforços semelhantes continuem, o aquecimento ficaria em torno de 2,6°C neste século. Com as políticas atuais, o cenário é de cerca de 2,8°C. Esses números não descrevem um futuro inevitável, mas as consequências estimadas das escolhas que estamos fazendo.
O mesmo relatório reconhece que o uso de energias renováveis cresceu rapidamente e que políticas aplicadas em diferentes países reduziram emissões. Portanto, seria errado dizer que todo o esforço foi inútil. O problema é que os resultados ainda são insuficientes. Mesmo que as emissões se estabilizem, como aparece em alguns cenários, elas permanecerão em um nível elevado, em vez de cair no ritmo necessário.
Quem paga pelo atraso
No Brasil, as consequências dessa diferença fazem parte da vida cotidiana. Secas e inundações prejudicam lavouras, abastecimento, transporte e produção de energia. O Banco Mundial estimou perdas médias de R$ 13 bilhões anuais com esses eventos no país. Isso não significa que todo prejuízo seja causado exclusivamente pelo aquecimento global. Mas mostra que já convivemos com vulnerabilidades que o aumento dos riscos climáticos pode agravar.
Para que um mapa tenha utilidade, suas propostas precisam ser incorporadas ao orçamento, às regras de investimento e à fiscalização. É necessário definir responsáveis, metas que possam ser verificadas e recursos efetivamente desembolsados. Onde couberem obrigações legais, deve haver consequências pelo descumprimento. E é preciso oferecer financiamento e proteção social para que os países e trabalhadores com menos recursos também possam mudar.
Os roteiros da COP30 podem ajudar nesse esforço, mas não substituem essas decisões. Se servirem para renovar promessas enquanto o uso de combustíveis fósseis continua avançando e a proteção das populações vulneráveis continua sendo adiada, teremos mais um mapa cuidadosamente elaborado para uma viagem que ninguém se obriga a fazer. O que parece apenas um atraso diplomático acaba causando perdas humanas e materiais, pagas, em geral, por pessoas que não participaram das decisões.