
Há conversas que ficam anos na memória, não porque alguém disse uma frase marcante, mas porque mudam a maneira como vemos as coisas. No começo deste século, eu trabalhava no Centro de Pesquisas da Petrobras, onde passei a maior parte da minha vida profissional. Já aceitava que o planeta estava aquecendo e que despejar gases de efeito estufa na atmosfera não parecia uma boa ideia. Mas ainda carregava uma dúvida — fruto mais da minha ignorância sobre o assunto do que de uma investigação séria: até que ponto nós éramos responsáveis por aquilo?
Ao conversar sobre isso com um colega que desenvolvia projetos com cientistas do clima e dos oceanos no Brasil e no exterior, ouvi dele, sem hesitação: “Os culpados somos nós”. A segurança dele primeiro me incomodou: como eu podia ser tão ignorante sobre um assunto tão sério? Depois, me obrigou a estudar. Nos anos seguintes, encontrei muito mais do que opiniões pessoais. Havia dados de temperatura da atmosfera, dos oceanos e das regiões polares; física da radiação solar; registros paleoclimáticos; satélites e modelos matemáticos testados contra o mundo real. Linhas de investigação diferentes chegando à mesma conclusão.
Hoje, o IPCC afirma que há evidências inequívocas de que as atividades humanas aquecem a atmosfera, o oceano e a superfície continental. A atualização mais recente dos indicadores globais estima que, em 2025, o aquecimento provocado pela influência humana chegou a 1,37°C acima da média de 1850–1900. Não se trata de uma hipótese disputando espaço, em igualdade de condições com explicações alternativas frágeis, como supostos ciclos solares capazes de nos salvar ou uma corrente oceânica que resolveria o problema daqui a vinte anos, como ainda sugerem alguns estudos pouco convincentes.
O que a ciência sabe
A ciência não é infalível. Evidentemente, ela não é. Mas é o melhor método que inventamos para errar menos em nossas previsões sobre o mundo natural: confronta explicações com observações, mede suas falhas e corrige seus próprios modelos. Em sistemas complexos, como o clima, as previsões ainda têm limites significativos. É bem mais fácil garantir que um eclipse do sol vai ocorrer em outubro de 2126 do que prever a quantidade exata de chuva que cairá numa rua de Petrópolis na próxima terça-feira.
Mas há uma diferença importante entre não prever todos os detalhes com exatidão e não compreender a direção do processo. Modelos climáticos trabalham com cenários de emissões, não com profecias. Dependem, por exemplo, da quantidade de carvão, petróleo e gás que governos, empresas e consumidores decidirem queimar. Se as emissões previstas não acontecem, a trajetória simulada também muda.
Quando pesquisadores compararam 17 projeções climáticas publicadas entre 1970 e 2007 com o que de fato ocorreu, verificaram que a maioria era compatível com as observações, sobretudo quando se levava em conta a diferença entre os gases que se imaginava que seriam emitidos e os que realmente foram. Isso, porém, não transforma os modelos em máquinas perfeitas.
Os modelos climáticos e meteorológicos ainda têm dificuldades consideráveis para prever chuvas regionais e muitos extremos locais. Isso é conhecido e aparece nas faixas de incerteza. Nada disso autoriza, porém, a conclusão apressada de que não sabemos coisa alguma. A mesma ciência explica por que o gelo recua, o oceano acumula calor e a atmosfera retém mais umidade e energia. Entre 2016 e 2025, a taxa de aquecimento induzido pelos humanos foi estimada em 0,27°C por década, a mais alta do registro instrumental.
Ainda assim, vale a pena fazermos um exercício mental. E se, contra todas essas evidências, algum mecanismo desconhecido começasse a resfriar o planeta nas próximas décadas? E se a redução de emissões se revelasse menos necessária para o clima do que hoje pensamos? O que, exatamente, teríamos perdido por ter agido?
Limpando o ar e as águas
Teríamos queimado menos carvão, óleo e gás. Isso, por si só, já significaria uma enorme mudança na vida de milhões de pessoas. A queima de combustíveis fósseis não produz apenas dióxido de carbono. Ela também emite material particulado, óxidos de nitrogênio e outros poluentes que agravam doenças respiratórias e cardiovasculares. A Organização Mundial da Saúde lembra que reduzir gases de efeito estufa e limpar o ar são duas faces da mesma política.
Cidades menos dependentes de automóveis a combustão, eletricidade mais limpa, edifícios eficientes e menos queima de resíduos reduziriam a poluição que se instala nos pulmões antes mesmo de virar estatística. Não seria preciso esperar pelos benefícios climáticos de longo prazo para perceber a diferença. Ela apareceria nas escolas, nas emergências hospitalares e nos dias em que crianças e idosos poderiam sair de casa sem carregar no corpo a sujeira produzida por uma chaminé distante.
A transição também nos obrigaria a encarar a indústria do descartável. Não basta trocar todo plástico por uma embalagem vegetal, biodegradável e supostamente inocente: algumas alternativas consomem muita terra, água ou energia. O caminho é eliminar usos desnecessários, redesenhar produtos, ampliar o reuso e só então reciclar aquilo que não puder ser evitado. Hoje, apenas 9% dos resíduos plásticos são reciclados mecanicamente.
Isso vale também para os PFAs e outros dos chamados químicos eternos. Eles não são simplesmente “produtos do petróleo”, mas uma grande família de compostos fluorados, usados em revestimentos, espumas, tecidos e inúmeros processos industriais. Sua persistência no ambiente torna a substituição de usos não essenciais uma medida de prudência. Mesmo que o termômetro global não subisse como o esperado, haveria alguma perda em reduzir substâncias nocivas que permanecem por décadas no solo, na água e nos organismos?
O que mais ganharíamos
Para reduzir emissões, seria preciso também interromper o desmatamento e a degradação dos solos. Isso não significa voltar a uma agricultura sem técnica e sem escala, mas usar melhor a terra já aberta, recuperar áreas degradadas, conter erosão e desperdício de nutrientes e diversificar as áreas produtivas. O IPCC inclui manejo sustentável, conservação da umidade, restauração de ecossistemas e agrofloresta entre as respostas capazes de reduzir riscos e melhorar a produção.
No oceano, os ganhos seriam igualmente concretos. Ao absorver CO2 da atmosfera, a água do mar muda sua química: o pH diminui e há menos íons carbonato disponíveis para corais e outros organismos construírem seus esqueletos e conchas. Mares mais quentes também favorecem o branqueamento dos recifes. Menos emissões não resolveriam tudo, mas reduziriam uma pressão que hoje se soma à pesca predatória, aos plásticos, aos sedimentos e ao esgoto.
As chamadas zonas mortas mostram por que não há solução única. Elas surgem quando fertilizantes e esgoto levam nutrientes em excesso aos rios e às áreas costeiras. As algas proliferam, morrem, e sua decomposição consome o oxigênio da água. Formam-se, assim, regiões onde peixes desaparecem e muitos outros organismos não sobrevivem. Reduzir o uso inadequado de fertilizantes e tratar o esgoto não dependem de uma previsão climática perfeita. Dependem de decisão pública, fiscalização e responsabilização pelo que acontece depois que despejamos algo em um rio.
Uma premissa razoável
O princípio da precaução — segundo o qual a falta de certeza científica absoluta não justifica adiar medidas diante de riscos graves ou irreversíveis — às vezes soa como uma abstração jurídica. Mas, no fundo, é uma atitude sensata. De um lado, há a possibilidade remota de que a ciência do clima esteja deixando passar algum mecanismo capaz de anular décadas de aquecimento. Do outro, há evidências acumuladas, medições que se reforçam mutuamente e danos que já atingem cidades, lavouras, florestas e oceanos.
Se a ciência estiver certa — e tudo indica que está —, continuar adiando a redução de emissões aumenta riscos que não serão facilmente desfeitos. Se ela estivesse errada, ainda assim teríamos deixado um ar menos poluído, menos lixo plástico, menos químicos persistentes, solos mais vivos e mares menos pressionados.
Se, no pior dos cenários, tivermos agido por excesso de cautela, o resultado será um planeta menos poluído, mais saudável e menos vulnerável.
Não terá valido a pena?