—Tem certeza de que a religião triunfará?
Sim. Não somente triunfará sobre a psicanálise, também o fará sobre um montão de outras coisas. Nem sequer se pode imaginar quão poderosa é a religião. (…) Interpretará o Apocalipse de São João, coisa que muitos já tentaram, e achará uma correspondência de tudo com tudo.
Lacan, em uma entrevista coletiva em Roma, em 1974[1].
Acabo de assistir ao documentário de Petra Costa, Apocalipse nos trópicos. Nem preciso dizer que é imperdível. Ali temos uma grande atuação de Silas Malafaia. Vemos um pastor que não somente manipula as ovelhas, como também é hábil no comando dos lobos. Sou irônica, não em relação aos lobos, mas ao fato de ser uma atuação artística. Quem me dera… Enfim, Petra e sua equipe penetram nos bastidores de Brasília – como já haviam feito no predecessor Democracia em Vertigem – em busca dos elos que ancoraram o Brasil em uma enorme evangelização dos poderes executivo e legislativo.
O cada vez mais cobiçado voto evangélico vai determinar, em 2026, por exemplo, os rumos de um Senado que, por sua vez, decidirá pela permanência de uma das últimas pontas de laicidade do Estado Brasileiro, a saber, o judiciário. Hoje, é o judiciário o responsável, em grande parte, pela manutenção da ordem institucional estabelecida constitucionalmente, apesar da tentativa de golpe de estado que sofremos em 2023. Nesse sentido, o filme antecipa uma leitura urgente e descortina alguns erros que a esquerda cometeu e comete ao desprezar o chamado mundo evangélico.
Sempre gostei de pensar que o fato de o Estado ser laico servia, inclusive, para o respeito às liberdades religiosas individuais. Parece que, ao menos em parte, me enganei. O Estado brasileiro, na vertente popular, socialista e democrata, ao abandonar a Teologia da Libertação católica, abriu um vasto espaço para o acirramento do fundamentalismo religioso neopentecostal. Mantenho a ideia da laicidade, mas creio que confundimos isso com a ausência de diálogo.
Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, de 1921, Freud dirá que “No fundo, toda religião é uma religião de amor para seus fiéis e, em contrapartida, cruel e intolerante para aqueles que não a reconhecem.” (p. 2581)[2]. Atualmente, se bem já não posso concordar com essa generalização do mestre vienense, admito que, para grande parte da religião cristã – sobretudo a evangélica – cabe como uma luva. Basta observar o nível crescente da intolerância religiosa em relação às outras religiões, especialmente às de matriz africana; o que nos coloca em um cenário ainda mais complexo de racismo religioso.
Freud, ainda no texto referido, fez extensas análises comparativas entre a igreja e o exército, na medida em que suas forças libidinais têm em comum a criação de uma mente grupal centrada na manutenção de um líder: um Cristo, um general, um mito, uma ideia que, secundariamente – mas não menos importante – confere união a uma coletividade e oferta um sentimento de pertença. Essa segunda parte é, ao meu ver, a mais importante e aquela que a esquerda não entendeu. No psiquismo, não basta ter um pai ou uma mãe. Eles realmente só têm serventia se forem capazes de organizar o usufruto – o gozo – entre os irmãos. Quando um intelectual e seus saberes pouco inclusivos sobem o morro, em geral, eles falam com a autoridade de quem sabe o que é melhor para o outro, sem acolher verdadeiramente o que vem desse outro como algo valioso, como um saber. Isso a igreja evangélica sabe fazer muito bem: acolhimento e escuta, em primeiro lugar, dando crédito e valor à situação enfrentada. Afinal, em grande parte, é da desgraça que se alimentam, evidentemente, com as respostas binárias e padronizadas de sempre sobre o bem e o mal. Contudo, até mesmo por isso, são fáceis e acessíveis.
E, se uma vida vai mal e o Estado é ausente, tudo o que o sujeito não quer é a auto responsabilização. Então, os evangelistas não culpam, à diferença da católica, que espera por confissão e arrependimento. Culpam logo o diabo e, bastando aceitar Jesus e andar com a turma, tudo se resolve. Não é maravilhoso? É sim, pelo menos, até a hora em que a culpabilização pelo pouco dízimo vem, mas aí o sujeito já está quase que irreversivelmente imerso.
A religião é um dos motivos pelos quais a psicanálise não triunfará, disse Lacan, ainda que possa resistir. Pelo menos enquanto for um sintoma do nosso tempo. De qualquer forma, espero que nós, progressistas, independentemente da área que for, deixemos de ser obtusos em relação à religião. Essa tem sido a nossa obstinação, o nosso prazer mórbido e contraproducente.
A religião é um fato de estrutura, de linguagem, com o qual é preciso lidar para estar perto de pessoas e não apenas uma ilusão irritante à qual só conviria esquivar. O rechaço e a esquiva das religiosidades, em geral – mas em especial das evangélicas –, só estão vulnerabilizando nossas possibilidades de habitar o comum, por menor que seja.
[1] Lacan, Jacques. El triunfo de la religión: precedido de Discurso a los católicos. – 1a ed. 2a reimp. – Buenos Aires: Paidós, 2006.
[2] Freud, Sigmund. Psicología de las masas y análisis del yo [1921]. In: Obras Completas – Tomo III. Madrid: Biblioteca Nueva.
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Foto da Capa: Rovena Rosa / Agência Brasil

