
De quem é a culpa dos eventos extremos que vêm ocorrendo no Rio Grande do Sul? Essa provocação foi feita em um vídeo da colunista da Sler, Anna Tscherdantzew, no seu perfil em uma rede social. Lendo os comentários, senti que as opiniões demonstram um certo desconhecimento de onde estamos inseridos em contexto mundial.
Ia escrever sobre outro assunto, mas essa indagação, a poucos dias das eleições, me fez mudar de ideia. Então dedico este texto aos seguidores da Anna e a outras pessoas que não sabem direito o motivo de termos tantos eventos extremos.
Nessa semana, três pessoas morreram e uma ficou ferida em decorrência de enxurradas na Serra, sem falar nos deslizamentos e tantos outros desastres que não só essa região, mas muitas outras partes da Região Sul estão atravessando. Até quarta, dia de fechamento deste texto, conforme informações da Defesa Civil do RS, desde o dia 18 de setembro, já haviam morrido no Estado quatro pessoas, três feridos, um desaparecido, 570.932 pessoas afetadas, 703 pessoas desabrigadas, 3.248 pessoas desalojadas, 23 casas destruídas, 524 casas danificadas, 2.195 casas destelhadas, 860 casas alagadas, 53 estabelecimentos de ensino danificados, 26 locais de atendimento à saúde danificados, enfim, vários outros estabelecimentos danificados.
Aqui no prédio onde moro em Porto Alegre, o vento foi tão forte na madrugada de segunda, dia 21, que os estilhaços de telhas de um edifício de uma rua paralela chegaram a ficar cravados na proteção de um ar-condicionado. O pátio do condomínio ficou cheio de pedaços de telha Brasilit.
Como quem me acompanha já deve saber, cubro pautas ambientais desde 1993, logo depois que saí da faculdade de jornalismo. Acompanho há tempos esse papo de que teremos mudanças climáticas, desastres agravados pelo aquecimento global. Só que, no século passado, se achava que isso ia demorar a acontecer.
Cientistas comprovaram que o lançamento de gases de efeito estufa, derivados de petróleo, na atmosfera vem provocando o aquecimento do planeta, dos oceanos. E, mesmo sabendo disso, lideranças mundiais e extratores de petróleo seguem não querendo mudar a forma de funcionamento do sistema econômico do lucro a qualquer preço. Várias reuniões, congressos e reuniões vêm sendo realizados com lideranças, como Conferências do Clima, Acordos assinados, mas, na prática, a cada ano aumentam as emissões desses gases. Ora, então, quem são os culpados por termos cada vez mais eventos extremos?
O que eu, você, qualquer vivente pode fazer diante desse contexto? Ora, essa pergunta não tem uma resposta simples. Mas acredito que se informar por fontes confiáveis, sempre desconfiar e checar se é verdade as notícias de WhatsApp, já é uma grande coisa. Digamos que existam gradientes de engajamento para tentar melhorar o contexto.
Por exemplo, eu, como acredito por tudo que já li e vivi que teremos cada vez mais desastres, especialmente no Rio Grande do Sul, uma zona de confluência de massas de ar e de correntes marítimas, entendo que preciso compreender como funciona, o que é preciso fazer para se ter uma comunicação de risco eficiente. O que vivemos em 2023 e 2024 pode voltar a acontecer de forma diferente ou parecida. Seja por inundação, seja por ciclone, tornado ou granizo, nossa região está localizada num ponto em que estamos muito suscetíveis a esse tipo de ocorrência.
Só que um dos fatores que mais podem piorar ou atenuar esse contexto é justamente agora, na escolha que fizermos nessas eleições. Procure candidatos que estejam preocupados em como devemos nos adaptar para esse “novo normal”. Impressionante como nem imprensa em geral, nem nas propagandas políticas, se fala do enfrentamento aos desafios climáticos. Por favor, te peço encarecidamente: pergunte, verifique se o seu candidato ou a sua candidata tem algum compromisso com as futuras gerações.
Eu amo tanto meus sobrinhos-netos, meu filho, meus sobrinhos, que, para mim, o melhor presente que posso dar para eles é me esforçar para deixar um mundo menos pior para quem vai continuar por aqui depois que eu virar estrelinha. O mundo que eu recebi, morando no interior, numa casa com um pátio cheio de árvores frutíferas, foi infinitamente melhor do que estamos deixando para eles. E isso tem a ver com consumo, com o rastro de destruição que eu, minha família, podemos colaborar em deixar, nem que seja um pouco melhor do que está.
Por exemplo, aqui em casa, procuramos separar os resíduos corretamente e fazemos questão de que tudo que pode ser reciclado ou reaproveitado vá para a Unidade de Triagem de catadores e para pessoas que aproveitem. Confesso que me dá uma dor no coração saber que nossos resíduos orgânicos, que poderiam estar servindo de adubo, acabam pegando a BR-290 e indo parar num aterro em Minas do Leão. No momento, abastecemos nosso veículo com etanol (ainda não conseguimos trocar para um elétrico). Também temos muitas plantas e árvores na cobertura que ajudam a reter água da chuva. Isso é pouca coisa, pode ser. Mas procuramos colaborar do jeito que dá para não colocar mais fogo no parquinho.
E por que candidatos que defendem o ambiente, a natureza não aparecem tanto quanto os que já sabem jogar nas regras dos donos do poder? Porque eles têm interesse que tudo siga como está. O dinheiro mandando em tudo. E também porque eles recebem doações para suas campanhas.
Já se perguntou por que o Trump segue soberano nos Estados Unidos e trata o mundo como se fosse quintal do seu império? Ele inclusive liberou as emissões de gases por lá e vem atendendo a pedidos de vários interesses, “nada republicanos” (só para não perder o trocadilho). Veja essa notícia que saiu no Valor Econômico do dia 21 de setembro, desta semana:
De acordo com uma análise do Financial Times, 16 dos 20 maiores doadores dos Estados Unidos injetaram dinheiro na campanha republicana (leia-se de Trump) para o Congresso. George Soros sobressai-se entre os que apoiam os democratas. Outros megadoadores canalizaram dinheiro para iniciativas que promovem a inteligência artificial ou para candidatos que defendem a desregulamentação das criptomoedas e de jogos de azar.
A origem do dinheiro que flui para a política está mais concentrada nos ultrarricos. Cerca de 35% dos US$ 2,8 bilhões arrecadados para o atual ciclo eleitoral de 2025/2026 vieram dos 20 maiores megadoadores.
Por aqui, o dono da Grendene, entre outras coisas, doou R$ 2,5 milhões só para o Zucco, candidato do PL ao governo do Estado. Outro que recebeu um total de R$ 1,57 milhão em doações de vários empresários foi Van Hattem (Novo), candidato ao Senado.
Isso tudo e mais um pouco integra o que alguns acadêmicos chamam de Capitaloceno, Carboceno, ou seja, outros nomes para o que é conhecido como Antropoceno. Depois que o petróleo foi amplamente empregado em quase tudo que consumimos, o planeta e o ambiente foram transformados para sempre.
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
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