
Fui à internet para saber de Cabo Verde. A Wikipedia me trouxe as informações: trata-se de uma nação insular, consistindo de dez ilhas vulcânicas, etc., etc. A colonização, por óbvio, é portuguesa. Seguiu o site: ”o arquipélago do Cabo Verde ficou desabitado até o século XV”. Depois chegaram os lusitanos com a cruz e a espada. Em 2007, o pequeno país entrou na Organização Mundial do Comércio; no ano da graça de 2026, atingiu a Copa do Mundo. Em Praia, sugestivo nome da capital, os cabo-verdianos comemoraram o feito com as mais felizes bebedeiras.
Na primeira partida, deu de encarar a Espanha, que chegou com aquele seu favoritismo enfastiado. O mundo do futebol não sabia nada de Cabo Verde. “Cinco vira, dez termina”, diziam os especialistas do estúdio e do bar da esquina. Começa o jogo, e a Espanha cirandeia pelo ataque, tocando a bola de um lado para o outro. Não tarda e começa a bombardear o gol. Surge, então, o primeiro nome da Copa, o goleiro de Cabo Verde, que opera uma sucessão de milagres. Uma defesa atrás da outra e o homem foi afastando a derrota iminente. Enquanto isso, os espanhóis transpareciam aquela irritação fleumática do europeu. O jogo acaba e o goleiro é a manchete. Seu nome pitoresco: Vozinha. Era o que precisava saber o brasileiro da quinta série, este ser da internet. Em minutos, o perfil de Vozinha no Instagram ultrapassou em vinte vezes a população do seu pequeno país.
Volto ao pós-jogo. Sacramentado o zero a zero, os entendidos já faziam a incrível observação: “verdade que mal entrou em campo Lamine Yamal!”. O especialista ainda sonhava com o baile, com a tourada madrilenha que não veio. E, enquanto isso, Vozinha saía do campo para a primeira entrevista. Surgiu-lhe na frente a nossa repórter. “O Brasil parou para te apoiar… A gente fez um mutirão por você, Vozinha!”. E o homem falou. É um encabulado, um carinhoso: lembra o brasileiro taciturno, que está por aí na parada de ônibus, na fila do pão. Eu observava a cena e pensava: há quem não goste de Copa do Mundo! Mas se passaram quatro ou cinco dias. E ontem, a incipiente seleção fez mais uma das suas: empatou em 2 a 2 com o Uruguai. A Celeste é outra grife centenária, outra famosa e adorada pelos entendidos. E acrescentemos o detalhe maravilhoso: Cabo Verde começou vencendo. Os uruguaios estavam prestes a entrar por um cano deslumbrante, como diria Nelson Rodrigues. No limiar da terceira rodada, o meio milhão de cabo-verdianos agora sonha com a fase seguinte.
Mas falemos também do Irã, que está na Copa e tem lá a sua tradição de participante. Como se sabe, o presidente dos Estados Unidos, há coisa de meses, ordenou o bombardeio contínuo e interminável do Irã. Sua ideia principal, alguns diziam, era riscar o inimigo do mapa. Veio evoluindo o triste conflito para o morticínio de sempre. E, no meio disso, havia a Copa justamente nos EUA. Pelos idos de março, ninguém apostava um tostão furado no Irã futebolístico, muito menos na própria nação. Mas veio na última semana um armistício com direito a acordo e tudo mais. O jornalismo especializado leu o documento e foi quase unânime: “mau acordo para os Estados Unidos!”. Como se não bastasse, a seleção rival chegou ao Mundial e, assim como Cabo Verde, ainda não perdeu. Pode se classificar e pegar inclusive os donos da casa.
Mas eis que surgiu uma dúvida nos iranianos residentes na América. Alguns hesitam em torcer pelo país natal. Adaptaram-se à mentalidade calculista da potência hegemônica. “Não queremos sustentar o regime”, justificam. Que dilema. O iraniano, distante dos escombros pátrios, está pensativo. Não sabe se, vibrando na arquibancada, apoiará o país ou, sem querer, a ditadura. Meia Teerã está demolida pelas bombas; as crianças há pouco jaziam pelas ruas, mas o imigrante, na segurança da Flórida, da Pensilvânia, pensa e repensa o que fazer. Não pode correr o risco. E, antes da República Islâmica, quando o Irã era amigo do Ocidente, o tal Xá Pahlevi matava o próprio povo à vista e por prestações. Mas tudo bem, tudo certo. O imigrante segue com sua questão palpitante. E no conselho do Islã ou coisa que o valha, o aiatolá vigente está com a chave do estreito de Ormuz e talvez mal saiba o que é um impedimento. Mas o iraniano de além-mar está preocupado com o futuro da nação. Arrisca a neutralidade mais deslavada, e convenhamos: é corriqueiro no indivíduo do primeiro mundo a prática do cinismo esclarecido.
Hoje, a Copa seguiu com um tom diferente. Foi o dia dos grandes e poderosos craques. Messi chegou a dezoito gols em Copas. Se a Argentina está alegre com o fato, no nosso país faltou apenas a marcação do feriado. O brasileiro, de regra, ama o craque estrangeiro e, por outro lado, ultimamente tem amaldiçoado a própria seleção. Mas bastará uma semifinal com a mesma Argentina, por exemplo, para que o menos patriota dos brasileiros queira tomar o sangue dos hermanos num copo de cerveja. Neste aspecto, somos também um pouco cínicos, um pouco esclarecidos.
Daniel Ricci Araújo é natural de Porto Alegre e reside em Canoas. Possui três obras publicadas: "Uma vontade inadiável de acabar com este mundo", "Cinema, 1982 e outros contos", ambos de narrativas curtas e "Livro sem nome", de poesias.
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