
Ainda temos uma semana para sofrer com a Copa FIFA, que acabou para nós nas oitavas de final. Bá! Mais quatro jogos pra gente sofrer vendo jogar Mbappé e Elise, Yamal e Oyarzabal, Messi e Lautaro Martinez, Bellingham e Harry Kane, e comparando com o que fizeram Vini Jr., Endrick, Mateus Cunha, Martinelli, Rayan, Neymar Jr., Bruno Guimarães ou com o que a gente pensava que eles fariam contra as defesas ainda consideradas cintura dura por alguns comentaristas…
E, pior, vamos – aí não só nós, mas todas as torcidas – sofrer com as imbecis musiquinhas cantadas por torcedores argentinos. Aliás, será que dá para pedir que as TVs não mostrem mais aqueles idiotas?
E olha que não deveria ser surpresa para ninguém as manifestações dessa parte racista da torcida argentina, que ofende adversários e comete crimes transmitidos para o mundo todo.
Isso vem lá de longe. Uma rápida e até rasteira – como um chute ou drible do Messi – volta ao passado, nos lembra da migração dos chefes nazistas alemães para a Buenos Aires de Juan Domingo Perón, dos anos 40 e 50 do século passado, e sugere uma ancestral simpatia pelo racismo e pela xenofobia de, pelo menos, uma parte da sociedade argentina. Foram para lá milhares de seguidores de Hitler. Entre os mais notórios estavam Josef Mengele – que, depois, viveu e morreu aqui no Brasil – e Adolf Eichmann.
A Argentina sempre se considerou puramente europeia. Os argentinos nunca aceitaram a miscigenação latino-americana. Se acham descendentes diretos dos europeus. Tem até argentino que brinca com isso. O escritor Jorge Luis Borges disse, uma vez, que “os argentinos são italianos que falam espanhol e pensam que são franceses”. Os uruguaios adaptaram: argentinos são italianos que falam espanhol e pensam que são ingleses…
Essa imagem não surgiu por acaso. Lá no começo do século 20, os governos argentinos entendiam que, para modernizar o país, era preciso levar europeus para lá (o que não foi exclusividade deles, né?). E os negros passaram a ser invisibilizados… Aí veio essa história, que alimenta preconceitos até hoje.
O futebol amplifica esse fenômeno. E parte da imprensa embarca nessa, ou embarcava até pouco tempo atrás. Uma rápida busca na internet traz recordações que deveriam envergonhar os jornalistas argentinos.
Na Olimpíada de 1996, em Atlanta, a seleção argentina de futebol estava classificada para disputar a medalha de ouro. O adversário sairia do jogo entre Brasil e Nigéria. No dia daquela partida, a manchete do jornal Olé, de Buenos Aires, foi “Que venham os macacos”. Os nigerianos derrotaram o Brasil e, no dia 3 de agosto de 1996, conquistaram a medalha de ouro, impondo 3 x 2 aos racistas…
Mais recentemente, em 2016, o Olé entregou sua tendência racista. O Huracán, time de Buenos Aires, tinha levado de 4×2 do Nacional da Colômbia. O árbitro do jogo foi o venezuelano, negro, José Argote. Na reportagem em que criticou a atuação de Argorte, o jornalista escreveu a expressão “mano negra” usada como referência para corrupção, roubo…
A cada vitória da Argentina, o mundo se encanta com as jogadas de Messi no gramado e, ao mesmo tempo, vaia as barbaridades de racistas nas arquibancadas e nas ruas. O brilho dos craques é ofuscado pelas botinadas dessa parte da torcida e deixa mal até os jogadores, que, ao não condenar o racismo, são acusados de compactuar com ele…
Dá, até, um pouco de tristeza. A geração do Messi escreve um capítulo da história do futebol para ser lembrado pela genialidade dentro do gramado, que faz a Argentina se equiparar ao Brasil. Nós fomos campeões duas vezes seguidas, em 1958 e 1962. O time do Messi pode repetir esse feito.
Neste ano, uma jogada histórica e decisiva da Copa Fifa completa 40 anos: o lance que ficou conhecido como “la mano de Dios”. No dia 22 de junho de 1986, jogavam Argentina e Inglaterra pelas quartas de final. A bola foi levantada na pequena área inglesa. Subiram para alcançá-la o goleiro Peter Shilton, com 1,85 m de altura, e Diego Maradona, com 1,65 m.
Com a mão, Diego empurrou a bola para a rede. Todo mundo viu. Menos o juiz. Final: Argentina 2 x 1. Maradona disse que a mão de Deus tocou a bola… A Argentina foi à final contra a então Alemanha Ocidental e conquistou o mundial.
Atual campeã, a Argentina, para ser bi como o Brasil, precisa derrotar a Inglaterra e esperar o vencedor de França x Espanha.
De uma coisa já podemos ter certeza: la mano de Dios não vai se repetir. O VAR não deixa…
E, quem sabe, teremos gente cantando: “Mbappé, Mbappé, os argentinos voltaram a pé…