
“O que é felicidade pra você?
Para muitas pessoas, é ter muito dinheiro, reconhecimento profissional, bens materiais do momento ou fama.
Para mim, é presenciar um pôr do sol milagroso, numa frestinha de céu aberto em meio a uma tempestade.
É ver um arco-íris se formar de ponta a ponta no exato lugar onde resolvemos parar o carro para apreciar o entardecer. Só para nós.
Para aquelas pessoas que têm como sinônimo de felicidade os valores pregados pela sociedade, esse espetáculo da natureza poderia ser somente bonito. Nada mais.
Mas pra mim… ah, pra mim foi um sinal do Universo, uma prova de que tudo que acredito é real e de que estou no caminho certo, no caminho da luz. Que as preocupações diárias, as tristezas e dores são normais, aprendizados que nos fazem chegar exatamente onde precisamos estar. E que esse lugar, se eu estiver aberta a enxergar, pode ser tão mágico quanto esse arco-íris. Gratidão ao deserto por me proporcionar um momento tão singular e especial.”
Escrevi isso em 2019, numa viagem ao deserto do Atacama, depois de ser tomada por uma emoção fortíssima ao presenciar um arco-íris se formar bem na nossa frente, como que por magia. Sete anos depois, mais madura, menos inocente, me desconecto com facilidade dessa ideia – mas ainda acredito ser ela a verdade absoluta. Nunca tive tanta abundância financeira, fruto do meu próprio trabalho e esforço diários, e me sinto “realizada” nos meus empreendimentos, nos bens materiais que eram fruto do meu desejo e que consegui conquistar. Mas nada disso me preenche a alma. O que me traz legítima felicidade continua sendo o ordinário visto com olhos bem-treinados: a conexão genuína com as pessoas e animais, o amor, sempre ele, transcendental. Dançar, mover o corpo no ritmo da música, cantar até a voz ficar rouca, mergulhar na água, de preferência salgada, olhar nos olhos de quem se ama com ternura. Comer algo delicioso quando a fome aperta, aquele primeiro gole de água quando se está com sede. O simples não deve ser negligenciado. Precisar de pouco para viver é libertador.
Estive recentemente em um encontro às margens de um grande lago para nos lembrarmos do que importa (que são justamente essas coisas que citei no parágrafo acima). Cinco dias de comunidade, dança, respiração, meditação, canto, contato com a natureza. Voltei pensando em como as coisas poderiam ser diferentes. De um jeito prático: e se cultivássemos, no cotidiano, uma fração do que cultivamos ali? Rituais, por mais simples que sejam: uma xícara de chá feita com atenção, algo para agradecer em voz alta antes do jantar, um minuto de respiração antes de começar a trabalhar, elogiar o outro sem querer nada em troca: isso nos lembra que estamos vivendo, e não só atravessando o dia para poder descansar à noite. Sem ritual, tudo vira rotina; e rotina pode ser justamente esse “modo automático” que nos desconecta de nós mesmos.
As distrações cotidianas: o celular, o trabalho que não tem começo nem fim, a televisão, etc., não são o problema em si. O problema é que elas ocupam exatamente o espaço onde, de outra forma, pousaria a atenção: o rosto de quem amamos, o gosto da comida apreciada com calma, a gentileza que podíamos oferecer e não oferecemos porque estamos sempre com pressa, as flores que se abrem mesmo não sendo primavera.
A magia não está reservada ao extraordinário, às grandes viagens, às conquistas, aos grandes marcos da vida. Está, também, e talvez principalmente, em como escolhemos prestar atenção ao ordinário. Na respiração, em quem amamos, na natureza, no cantar. E isso, ao contrário do que a vida corrida insiste em fazer a gente esquecer, está sempre ao nosso alcance. Que bom.