
Como você mede as suas viagens? Normalmente, aprendemos a medir uma viagem pela quantidade de destinos visitados, pelas fotos compartilhadas ou pelos carimbos acumulados no passaporte. Mas, talvez, a parte mais importante aconteça antes mesmo da partida. É quando você decide que merece viver aquela experiência. Porque viajar não começa no aeroporto, na estrada ou no mar.
Uma viagem começa quando um desejo ganha espaço entre as prioridades da vida. Quando uma pessoa escolhe transformar um sonho em compromisso consigo mesma. Vivemos em uma época em que tudo parece urgente. As contas, o trabalho, as responsabilidades, os problemas que surgem sem avisar. É justamente por isso que, muitas vezes, adiamos aquilo que nos faz sentir vivos. A viagem fica para depois. O descanso fica para depois. O encontro com quem amamos fica para depois. A vida fica para depois.
Acredito que exista algo poderoso no ato de planejar, indo além de organizar datas, reservar hotéis ou comprar passagens. Planejar é declarar para si que existe um futuro desejado. É acreditar que algo bom merece acontecer. A escritora Carolina Maria de Jesus talvez tenha compreendido isso de uma forma que poucos conseguem entender. Em meio às dificuldades que registrava em seus diários, ela não registrava apenas sobre o presente que enfrentava. Ela escrevia sobre o futuro que desejava construir. Antes de existir a realidade, existia a visão. Antes de existir a conquista, existia a intenção. Com as viagens, não é diferente.
Recentemente acompanhei uma família que começou a planejar uma viagem quase um ano antes da partida. Naquele primeiro encontro, não falamos sobre passagens. Falamos de sonhos, sobre o que gostariam de realizar, sobre as memórias que desejavam criar juntos.
Ao longo dos meses, o roteiro mudou várias vezes. Novas possibilidades apareceram. Cidades foram incluídas. Experiências foram descobertas. O destino cresceu na mesma proporção em que o planejamento amadureceu. E talvez seja isso que muitas pessoas não percebem. Planejar não serve apenas para reduzir custos. Planejar amplia horizontes.
Quando olhamos uma viagem apenas pelo preço, enxergamos limites. Quando olhamos pelo planejamento, enxergamos possibilidades. Para muitas pessoas negras, essa conversa ganha ainda outra dimensão. Durante gerações, o direito de circular livremente pelo mundo esteve distribuído de forma desigual. Existiam fronteiras econômicas, sociais e simbólicas que limitavam quem podia sonhar com determinados lugares.
Cada viagem pode representar algo maior. Pode ser pertencimento, descoberta, liberdade! Pode ser a oportunidade de mostrar aos nossos filhos que o mundo também lhes pertence. Não por precisarmos estar em todos os lugares, mas porque precisamos saber que podemos estar lá!
No fim, viajar talvez tenha menos relação com geografia do que imaginamos, e dialogue muito mais com possibilidades. Possibilidade de enxergar novos caminhos; de criar novas referências; de viver histórias que antes pareciam distantes. Talvez seja por isso que algumas viagens nos transformam tanto. Elas não mudam apenas o lugar onde estamos.
Elas mudam a forma como enxergamos o lugar que ocupamos no mundo.
E aí? Já começou a planejar sua próxima viagem?
Rosane Brasil é empresária, formada em Marketing pela Uniritter e pós-graduanda em Gestão Pública e Projetos pelo Instituto Inex. Com mais de 15 anos de atuação no setor do turismo, é fundadora e CEO da Bux Travel Brasil. Mãe de gêmeas, utiliza o turismo como ferramenta de inclusão, pertencimento, desenvolvimento humano e ampliação de perspectivas. Associada à Odabá desde 2024, acredita na força da colaboração e dos negócios negros como instrumentos de desenvolvimento econômico e social. Instagram: @buxtravelbrasil
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