
A verdade é que meu dia a dia, o meu levantar, o escovar os dentes, o tomar café, ir ao emprego, devorar um prato feito, ver a TV, tomar uma sopa e et cetera, não são em nada abalados pelo genocídio em Gaza, pelos crimes de guerra na Ucrânia (de ambas as partes), pelos naufrágios de botes com imigrantes, pelo roubo das terras da população da Cisjordânia e nem mesmo pelo adolescente brasileiro (e negro) assassinado numa batida da PM, pela mulher (a não muito tempo, esposa, namorada ou amiga) morta por um feminicida.
Em suma, meu cuscuz não seca ou ensopa, o ônibus não vai esvaziar ou lotar, meu chefe não vai ficar menos chato, o feijão não vai queimar, o noticiário não mudará a vinheta e eu não vou dormir fora do horário por conta das crianças ASSASSINADAS Gaza, das famílias destroçadas no Leste Europeu, pelas esperanças afogadas no Mediterrâneo, pelos palestinos oprimidos, pela mãe que chora a perda do filho ou da filha.
Não serão essas coisas que vão impedir minha bexiga de me fazer ir ao sanitário na madruga, que vão alisar a minha cara para a lâmina gasta, que vão atrapalhar meu intestino em produzir metano, que vão impedir que o estresse me dê gastrite, que a tela da TV me arda os olhos. No meu cotidiano, eu não serei em nada acometido pelos crimes de guerra israelenses, norte-americanos ou eslavos; não serei em nada atravancado pela barbárie que pode estar passando do lado de fora da minha parede.
Eu, enquanto aquele que já dormiu o que foi possível, que come o que tem na mesa, aquele cujo crachá tem o nome que lhe é próprio, que sai e chega ao endereço que é seu; eu, enquanto essa específica banalidade, não sou em nada atingido pela miséria do mundo.
A verdade é que a desgraça do mundo me abate enquanto humanidade, nós enquanto uma universal transcendência.
Todos os textos de André Fersil estão AQUI.

