Há algum tempo, li a manifestação informal de um colega que dizia que psicanalista não deveria falar sobre política, já que não teria, segundo ele, as ferramentas necessárias para tanto. Não foi a primeira vez que escutei algo parecido e confesso que, nos meus inícios, idealizava tanto a psicanálise que a via como superior às questões políticas, ambientais, financeiras, de segurança pública, de segurança alimentar etc. Parecia que tudo, absolutamente tudo, poderia estar reduzido, em última análise, à composição de um desejo inconsciente.
Em parte, era falta de estudo, porque a própria teoria psicanalítica vai nos mostrando a insustentabilidade dessa idealização tão purista. Ainda assim, meu experiente colega exortava seus interlocutores psicanalistas. Que deixássemos isto – a política – “para os sociólogos e politólogos”, dizia. Sei que no caso dele não é falta de estudo, mas a posição ética que decidiu ocupar, apesar de lacaniano como eu. Com o tempo, aprendi que o que nos faz tão diferentes nesse ofício não são nossos times de futebol – não importa tanto, se você é Freud, Klein, Lacan, Winnicott etc. Importa mesmo é como se lida com a bola. E vamos sempre nos servir das ferramentas como nos convier. Não se meter com política é já um posicionamento político em si mesmo.
Agora vêm duas histórias que gosto de repetir. Uma psicanalista não só tolera como crê em certas potencialidades criativas da repetição. Quem acompanha um pouco da minha produção pode já ter escutado ou lido quando dou como exemplo da interferência inelutável da política na psicanálise, a alteração da teoria freudiana das pulsões. A novidade da pulsão de morte que, aliás, – comentário endereçado a quem não é do campo – está entrelaçada à teoria da repetição, chegou a Freud a partir de um preciso momento histórico e político: o entre guerras. Nesse período, foi a chegada dos chamados “neuróticos de guerra” a seu consultório – esse pessoal que hoje é diagnosticado com transtorno de estresse pós-traumático – o que fez Freud alterar a teoria de que o sonho é a realização de um desejo. E está bem que Freud era um revisionista compulsivo da sua obra – à sua maneira, Lacan também o foi – mas não era qualquer coisa alterar uma teoria alicerce de todo o edifício psicanalítico. Basta lembrar que a data oficial da criação da psicanálise coincide justamente com o lançamento da Interpretação dos sonhos, de 1900. Quer dizer, é preciso coragem e honestidade intelectual para abrir mão de uma baliza teórica 20 anos depois. Então, é assim, a política, a guerra, o que os pacientes nos trazem são excelentes motivos para alterar as ferramentas. Como disse em outra oportunidade, o divã não é uma ilha.
Outra história que repito. As ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande, título e texto onde Audre Lorde nos adverte do quanto pode ser uma armadilha esperar resultados de mudança social em relação ao racismo e ao sexismo, enquanto insistimos nas mesmas ferramentas que antes nos escravizaram. Aqui, o uso crítico das ferramentas é o que se espera poder conciliar, apostando que a mão que segura a ferramenta pode fazer diferença.
Referências:
– Freud, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Porto Alegre: L&PM, 2016.
– Freud, Sigmund. Más allá del principio del placer (1920) In: Obras Completas – Tomo III. Madrid: Biblioteca Nueva, 2003.
– Lorde, Audre. As ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande (1979). In: Irmã Outsider, Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
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