E eis que, diante de nossos incrédulos olhos, a verdade – a grande busca da filosofia – está sendo desmoralizada, especialmente pelos políticos! Mas, pensando bem, a política (enquanto espaço público) nunca foi o lugar da verdade. A pergunta é antiga: em que lugar a verdade se “revelará”? Na solidão de um Moisés no Monte Sinai? No retiro especulativo do filósofo? Num poder-saber que enuncia e “produz” o que “é”? Breve: na revelação, na reflexão ou na imposição? Mas o que estamos dizendo quando nos referimos à “verdade”? Enunciados que correspondem às coisas reais? O testemunho de quem viu os fatos acontecerem? Um poder nominativo que instaura a realidade da coisa nomeada? O método que define os critérios pelos quais julgamos a validade de uma proposição?
O fato, repito, é que o espaço público, onde tradicionalmente se pratica a política, nunca foi o lugar da verdade: pelo menos não o de um tipo de verdade – a verdade de “demonstração”, chamada apodítica (se A=B e B=C, então A=C), aquela dos enunciados científicos e matemáticos. No espaço público vale a verdade de opinião (que Platão tanto detestava!), em que os diferentes pontos de vista se confrontam. Não é lugar da mentira, da falsificação do passado ou do falso testemunho: é o lugar onde construímos um “senso comum”, que está longe de ser sinônimo de vulgaridade, erro ou alienação.
Senso comum é o contrário de “senso privado”: não é só o meu ponto de vista (opinião) que vale, mas o acordo que estabelecemos entre os diferentes pontos de vista, depois de confrontados, argumentados e cotejados com os fatos (sempre vistos e nomeados por alguém), e avaliados segundo suas consequências, sua razoabilidade, sua veracidade (que é diferente de verdade e diz respeito às intenções de quem fala). É isto que consiste um “espaço público” e que o ideário republicano tenta construir há muito tempo, com seus atropelos e adversários. Sobretudo adversários! A república exige uma espécie de mútua confiança entre os homens, confiança que se tenta obter através da separação entre o interesse privado e o interesse público, a confiança de que não se meterá os pés pelas mãos na gestão da coisa pública (que nossa tradição política nunca soube separar): QUANDO O PRIVADO COLONIZA O PÚBLICO, TEMOS CORRUPÇÃO; QUANDO O PÚBLICO COLONIZA O PRIVADO, TEMOS SOCIEDADE CARCERÁRIA.
É esta precária construção que estamos vendo ser destruída, em que espaço público e senso comum (o acordo entre a pluralidade de opiniões com vistas à construção de um mundo comum) estão perdendo seus frágeis elos de solidariedade. Quem conhece História sabe que as consequências disso são completamente… previsíveis!
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