
“Um dia antes fomos até o dique. Era assustador. Quando voltamos, a minha irmã disse que iria para o abrigo ainda naquela noite. Eu quis esperar. No meio da madrugada, acordei com a sirene da Defesa Civil e aquela cena de guerra. A água já chegava à minha rua e tivemos que deixar tudo para trás.”
Ouvi esse relato de uma colega de trabalho no dia seguinte à estreia de Quem Ama Cuida. Eu comentava o primeiro capítulo, especialmente a cena da enchente, tão bem produzida e angustiante, quando ela disse não ter sequer vontade de assistir à novela. Relembrar tudo o que viveu seria mexer com dores ainda latentes, sofrimentos que só quem sobreviveu àquela tragédia consegue dimensionar. Na enchente de 2024, ela precisou abandonar a própria casa depois do rompimento do dique do bairro Vicentina, em São Leopoldo. A água subiu até o telhado, levou móveis, destruiu objetos e arrastou tudo o que encontrou pela frente, deixando para trás um rastro de lama e destruição. Eu escutava tudo, sabendo que, embora também tivesse sido abalada emocionalmente pela enchente, a minha experiência estava muito distante da dela.
Apesar de morar em uma das cidades atingidas, a catástrofe climática que se abateu sobre o Rio Grande do Sul passou longe de mim. Não senti na pele o desespero de ver a água invadindo a minha casa, nem precisei abandonar objetos que contam a minha história. Enquanto tantas pessoas empilhavam o que restava da própria vida em calçadas cobertas de lama, eu acompanhava tudo à distância, com a segurança de quem, embora emocionalmente abalada, tinha para onde voltar no fim do dia.
Acompanhei pela televisão e pelas redes sociais o acolhimento nos abrigos, as entregas de alimentos às pessoas desalojadas ou presas em seus próprios lares, mas não sofri a tristeza de perder memórias guardadas em fotografias e cartas antigas. Vi a imagem de um cavalo sobre um telhado e de tantos animais perdidos, enquanto o meu cachorro dormia aquecido em sua cama.
Eu não precisei limpar o lodo das paredes, separar o que ainda poderia ser salvo ou calcular o prejuízo de uma vida construída ao longo de décadas. Quando a chuva cessou, a minha casa não carregava o odor fétido da água parada misturada à morte. Nada ao meu redor tinha o cheiro da enchente que tantas pessoas dizem ainda sentir quando o céu escurece.
O barulho da chuva durante a noite e o cheiro de terra molhada hoje são gatilhos para quem viveu aqueles dias de medo e incerteza. Há pessoas que ainda vivem entre reformas inacabadas e o receio constante de que tudo volte a acontecer. Basta uma nova previsão de tempestade para que o corpo reviva as mesmas sensações daqueles dias. Muitos voltaram para casa, mas nem todos recuperaram a sensação de segurança. Há quem continue vivendo em residências condenadas pela Defesa Civil por não ter outro lugar para onde ir. Outros sequer conseguiram retornar, porque já não havia mais nada.
No ano passado, fui desafiada a escrever uma novela literária ambientada em Porto Alegre. Decidi que a minha narrativa teria como pano de fundo as enchentes de 1941 e de 2024 e, então, comecei a pesquisar sobre o assunto. Para isso, percorri ruas que permaneceram submersas durante dias e visitei lugares onde a marca da água, ainda impressa nas paredes, continua assustando.
Criei personagens fictícios inspirados em histórias reais e me comovi a cada cena escrita. Ainda assim, não fui capaz de sentir a mesma dor de quem precisou reconstruir a vida. Também não senti o cheiro da enchente, que se acentua com a previsão de um novo El Niño, e muito menos o medo de quem, ao ouvir uma chuva forte, revive, no corpo e na memória, os dias em que a água devastou quase tudo.
A tragédia climática de 2024 já deixou de ocupar as manchetes. Ainda assim, para muitos gaúchos, a maior enchente da história do Rio Grande do Sul está muito longe de terminar.
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