
Dirigindo pelas ruas de uma cidade, é possível encontrar inúmeros estímulos visuais que aguçam a imaginação e a livre de associação de uma psicanalista escritora. Sinal fechado, da janela, olho para o lado de dentro do carro e enxergo a seguinte cena: uma mãe, seu filho pequeno, provavelmente uns 6 anos, e seu cachorro. No meio-fio, estava escrita a palavra “Descarga”, sinalizando que ali não se poderia estacionar. Olhei aquele enquadramento e só o que consegui enxergar foi a palavra “carga”, ilustrando toda aquela cena. Fiz a foto dessa cena e postei na minha rede social.
Na verdade, a ideia inicial era fazer pensar na vida enquanto carga mesmo, a carregar e descarregar, nas coisas mais banais, num domingo à tarde no centro da cidade. Postei a foto nas minhas redes sociais e a repercussão foi entre mulheres totalmente identificadas com aquela cena e aquela palavra. Minha foto acabou inconscientemente retratando a carga da mulher, de cuidar do filho, do cachorro, da vida.
Não é um assunto no qual eu entre com frequência em minha escrita. Sobre a carga de ser mulher, sobre o patriarcado que historicamente a oprime e violenta. Até porque, a meu ver, essa carga tem tantas camadas, emocionais, sociais e políticas, que ficaria difícil contemplar todas. Uma das que me toca é a questão da mãe solo. Uma expressão que ganhou força nos últimos anos e que me inquieta. Mães solo não são apenas as tantas e milhares que veem seus parceiros abandonarem o lar e a prole. Um pai “presente” não é um presente. Deveria ser kit básico. Pai que sabe o nome da professora, que lembra dos remédios. E tem mãe que é solo estando casada, com pai que paga de pai legal nas redes sociais. Fato é que a carga é e sempre foi das mulheres, que agora somam à clássica, já tão sabida, a outra, que é a carga financeira e profissional, porque além da carga doméstica historicamente delegada a elas, estão no mercado de trabalho fazendo tanto quanto (ou geralmente até mais) para ganhar muito menos. Soma-se a isso feminicídios, violência, maus-tratos, machismo estrutural.
Tudo isso numa imagem com uma palavra que, ao ser cortada, foi destituída do seu significado original para que, junto à cena, ganhasse uma cara de narrativa. Há uma história contada nessa foto que vem sendo repetida há anos, mas ainda nem todo mundo consegue ouvir, ou ouve e finge que não ouviu.
O mundo é das mulheres, mas não foi feito para nós. A carga está aí, para quem precisa, mas na maioria dos casos, para quem não deveria carregá-la sozinha. E não tem nem vaga especial reservada para uma parada quando necessário.
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Foto da Capa: Acervo da Autora.

