
“Esta resolução nos permite, como comunidade global, testemunhar coletivamente o sofrimento de mais de 12,5 milhões de homens, mulheres e crianças cujas casas, nomes, famílias, sonhos e futuros foram roubados ao longo de quatro séculos. Este é um caminho para a cura e para a justiça reparatória. É também uma salvaguarda contra o esquecimento.”
John Dramani Mahama, presidente de Gana
Neste discurso do presidente de Gana, uma palavra me atravessou de forma particular: nomes. Entre as coisas roubadas de milhões de africanos durante quatro séculos — casas, famílias, sonhos — ele menciona também os nomes. Não é um detalhe. Tirar o nome das pessoas que foram escravizadas nunca foi apenas mudar uma forma de chamar. Foi uma tecnologia de desumanização, evangelização e coisificação. No Brasil escravista, africanos foram rebatizados, classificados, reduzidos a categorias administráveis, coisas. Penso nisso muitas vezes a partir da minha própria pesquisa de doutorado, quando observei como em um Terreiro de tradição religiosa de matriz africana – o Batuque do RS, nomes africanos foram utilizados não apenas para identificação afrocentrada, mas em busca de pertencimento, ancestralidade e posição numa comunidade. O que a escravidão tentou apagar nas pessoas, os orukós (nome em iorubá) voltam a produzir humanidade.
Fora isso, a notícia chegou como chegam muitas notícias hoje em dia: rápida, quase perdida no fluxo das telas. Uma frase curta, quase administrativa: “a Assembleia Geral da ONU reconheceu o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade”.
Li a manchete. Depois, li novamente e, antes de qualquer celebração, me veio uma pergunta simples: o que isso muda na minha vida? O que muda na vida de milhões de mulheres negras brasileiras que sustentam famílias inteiras com seu trabalho, seu corpo e sua persistência diária?
Antes de responder, voltei às vozes que moveram essa resolução. Não eram interpretações europeias tentando reorganizar a memória do mundo. Eram vozes africanas. Era Gana falando.
O governo ganense foi direto ao ponto: o tráfico transatlântico não foi apenas um episódio do passado. Foi um crime fundacional do mundo moderno. Um sistema que arrancou milhões de pessoas da Terra-Mãe, da humanidade, e reorganizou o planeta inteiro em torno da exploração de seus corpos.
Quando os representantes de Gana falam em reparação, não falam de compensações financeiras ou gestos diplomáticos. Falam principalmente de responsabilidade histórica com os ancestrais e com a diáspora africana.
Diáspora me atravessa, nos atravessa. E se torna muito concreta quando pensamos no Brasil, porque aqui a diáspora tem rosto, tem corpo e tem história. Ela vive nas cozinhas das casas brasileiras; nos ônibus lotados às seis da manhã; nas mãos de mulheres que trabalham o dia inteiro e ainda chegam em casa para sustentar outra jornada. A diáspora, no Brasil, tem sobretudo rosto de mulher negra. Mulheres que são mães solo. Chefes de família, assim como eu.
Quando Gana leva essa discussão para a ONU, também está falando conosco. Está dizendo que o sofrimento que organizou o mundo moderno não terminou no século XIX. Ele continua presente nas estruturas sociais que herdamos.
Gana fala que o tráfico transatlântico não terminou apenas na abolição da escravatura, mas que terminou em desigualdade, principalmente entre países ricos e países explorados (nada diferente dos que reconheceram o crime e os que não). Terminou em sociedades onde certos corpos, os racializados, continuam tendo sua humanidade permanentemente colocada em dúvida.
Vale destacar que Gana é um país que se coloca como um expoente histórico quando falamos de lideranças que atuam pela união de forças internacionais por um objetivo comum. O ganês Kofi Annan (1938-2018) liderou a ONU como secretário-geral, de 1997 a 2006. No ano de 2001, Annan foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz por ter revitalizado a ONU e por ter priorizado os direitos humanos.
Se o mundo finalmente reconhece que a escravidão foi o maior crime contra a humanidade, então também precisamos reconhecer que suas consequências continuam organizando a vida cotidiana.
Quando escuto vozes ganenses falando em reparação, penso também em outra ideia que temos discutido neste espaço: Terra-Mãe. África não apenas como origem geográfica da humanidade, mas como um lugar de pensamento capaz de interpelar o mundo.
Se todos descendemos da África, como nos lembrou recentemente a rainha Diambi Kabatusuila, em sua passagem pelo Brasil, o que significa construir uma civilização que desqualifica sua própria mãe?
Talvez a resolução da ONU seja um pequeno gesto de correção histórica. Talvez seja apenas o início de um reconhecimento com séculos de atraso, e nós, que vivemos na diáspora, sabemos que nenhuma transformação acontece apenas porque foi declarada em um documento oficial internacional.
O próprio ministro das Relações Exteriores de Gana lembrou isso ao afirmar que o debate sobre reparação não é uma tentativa de reabrir feridas antigas, mas de impedir que elas sejam esquecidas ou negadas, criando espaço para a verdade e para uma conversa honesta sobre justiça histórica.
Nós sabemos disso. Eu sei disso. Sabemos porque a história nunca mudou apenas por reconhecimento, ela muda por luta. E nós, mulheres negras brasileiras ou como cunhou Lélia Gonzalez, amefricanas sabemos disso melhor do que ninguém. Sabemos porque todos os dias é preciso lutar para sustentar as famílias e para existir com dignidade, para que nossa humanidade seja reconhecida como a de todas as outras.
Por isso, quando o mundo decide finalmente chamar a escravidão pelo nome correto – crime -, não penso em comemoração: penso em continuidade, porque reconhecer o crime é apenas o começo.
O verdadeiro desafio começa agora, ou depois, que é transformar esse reconhecimento em justiça concreta para aquelas e aqueles que ainda vivem as consequências do maior crime da história moderna. E essa luta, nós sabemos, ainda está longe de terminar.
“Porque quando a Terra Mãe fala, a história não termina — ela começa a cobrar.”
Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)
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