
Hoje é sexta-feira, dia cinco de junho, meu aniversário. Estou em Florença, Itália, com meu marido e sua família. Ontem encontrei uma amiga de longa data, Marília, que coincidentemente também estava aqui. Nos conhecemos no Canadá, em 2011, quando eu tinha dezessete anos e fui passar uma temporada em Montreal para aprender francês. Logo no começo do intercâmbio, fizemos um grupo de uns dez amigos e nos víamos todos os dias, na escola, e, principalmente, fora dela. Foram meses de farra, descobertas, viagens, cultura e muita diversão.
Completei meus dezoito anos lá, cercada de amigos, muita festa e histórias que não vêm ao caso. Isso foi há quinze anos. Ontem, reflexiva, fiquei espantada com esse número. Uma mistura de nostalgia, alívio por ter sobrevivido a essa fase e ternura.
Marília comentou que existia um grupo no Facebook com fotos daquela época, que ela havia visto recentemente. Me aconselhou a olhar os registros sozinha, um ótimo conselho, devido à natureza boêmia de certos álbuns. Ontem, quando cheguei em casa, exausta, resolvi abrir o tal grupo e rever essas imagens de cuja existência nem me lembrava, e que há pelo menos mais de uma década não entrava em contato. Fiquei boa parte de uma hora imersa em memórias, o tempo todo com um sorriso no rosto. Meu Deus, que loucura. A gente era muito inconsequente, como todo jovem deve ser. Assisti a alguns vídeos da minha versão de dezessete/dezoito anos e me espantei comigo mesma. Me achei linda, apesar da postura, sempre rindo, uma certa luz que só essa fase da vida possui. Até a minha voz era diferente. Mais grossa, mais imponente. Como se, de lá até aqui, eu a tivesse moldado para que ela se tornasse mais baixa, mais delicada, para de alguma forma me adaptar à sociedade: ser menos escandalosa, chamar menos atenção, “Helena, menos.”
Quinze anos atrás, estava cercada de amigos e me sentia pertencente ao mundo, e apenas a ele. Minha maior preocupação era se meu namoradinho francês gostava mesmo de mim, e eu me sentia protagonista da minha própria vida. Me sentia vista, amada, respeitada, querida. Não estava nem aí para nada. Tinha todo o tempo do mundo. Não fazia ideia de qual profissão seguir, do que seria da minha vida, e o futuro não era um tópico em meus pensamentos. Eu era uma pessoa leve, divertida e espontânea. Fazia jus a “viver o agora”.
Durante todos esses anos, fui amadurecendo, criando juízo, desenvolvendo um senso de responsabilidade e me tornando adulta. Muitas águas rolaram nessa década e meia. Não me identifico mais com quem eu era, partes boas e ruins. Sou outra pessoa, completamente distinta: sinto saudades de quem eu fui e um certo orgulho de quem me tornei.
— Êêê, parabéns! Meia-noite! Feliz aniversário! — meu marido me acorda, com abraços e beijos, do transe em que eu me encontrava, mergulhada em minha versão antiga; me lembrando que a vida adulta também tem suas partes boas, e que, provavelmente, daqui a quinze anos, sentirei saudades de quem eu sou neste exato momento.
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