
Os meses de maio e junho de 2024 foram marcados, no Rio Grande do Sul, por enchentes que afetaram grande parte do Estado durante mais de um mês, atingindo 478 dos 497 municípios (Defesa Civil RS, 2024), inclusive a capital: um desastre climático sem precedentes na região. Em Porto Alegre, 46 bairros foram total ou parcialmente inundados, devido tanto ao transbordamento do próprio leito do rio Guaíba por conta das falhas de funcionamento dos mecanismos de prevenção de enchentes existentes no município, como diques e bombas de água. Estima-se que 160 mil pessoas foram afetadas durante as cheias no município (SMAMUS, 2024), sendo parte delas atingidas de maneira permanente, sem condições de retorno mesmo após a baixa das águas.
A enchente em Porto Alegre destacou a urgência de uma abordagem mais integrada e proativa na adaptação urbana às mudanças climáticas. É imperativo que as políticas climáticas sejam tratadas com a centralidade necessária e que haja uma coordenação eficaz entre os diferentes setores e níveis de governo. Além disso, a mobilização social e a participação ativa da população e dos especialistas são fundamentais no sentido de se criar cidades mais resilientes e preparadas para enfrentar futuros desafios climáticos. No Brasil, o avanço da urbanização, o consumo desenfreado da população e a cultura do descarte apresentam desafios na gestão dos resíduos sólidos urbanos (RSU), principalmente nas grandes cidades. Mais do que apenas descarte de lixo, esses resíduos também revelam desigualdades sociais, danos ao meio ambiente e fragilidades nas políticas urbanas.
Em Porto Alegre, esses desafios ganham ainda mais evidência: há descarte irregular, condições precárias de trabalho para os catadores e uma constante tensão entre os modelos público e privado de gestão. Instigamos uma reflexão crítica sobre as práticas atuais e incentivamos mudanças que fortaleçam a resiliência das cidades diante da emergência climática. Os resíduos sólidos não são apenas um problema a ser resolvido com infraestrutura e tecnologia; antes disso, eles são um espelho das relações humanas, econômicas e culturais da sociedade. Por isso, qualquer política pública voltada ao resíduo deve começar com um olhar e entendimento do comportamento da população, das práticas cotidianas de descarte, dos medos, dos saberes locais e das limitações concretas de quem lida com o resíduo todos os dias.
A gestão de resíduos precisa ser pensada de forma intersetorial, conectando áreas como urbanismo, meio ambiente, saúde, educação, assistência social e trabalho. Integrar esses setores exige diálogo constante, vontade política e o fortalecimento da capacidade técnica e institucional da esfera pública. Também é primordial garantir a presença permanente dos catadores e das associações/cooperativas nas decisões, não como executores terceirizados, mas como protagonistas dessa cadeia.
Uma cidade que pretende avançar rumo às prevenções de catástrofes ambientais e à sustentabilidade precisa pensar localmente: cada bairro, cada território, cada rua, becos e avenidas tem suas peculiaridades. Delinear soluções adaptadas à realidade local, com participação popular desde a formulação até a execução, é o que garante políticas públicas mais efetivas, justas e permanentes.
Simone Pinheiro é articuladora do POA Inquieta e mestre em Ciências Sociais.
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