
A Transparência Internacional colocou o Brasil na 107ª posição entre 182 países no Índice de Percepção de Corrupção de 2025. Vale lembrar que é percepção, não medição objetiva, e que se refere ao país como um todo. Já uma pesquisa do Ipec perguntou aos brasileiros qual seria a instituição mais corrupta. Para o cidadão, a podridão mora nos Três Poderes: Câmara dos Deputados (76%), Senado (70%), Governo Federal (64%) e Judiciário (47%). Os governos estaduais receberam 61%. As empresas privadas? Apenas 24% as classificam como muito corruptas, um número curiosamente baixo. Mas, quando analisamos os maiores escândalos das últimas décadas, surge uma pergunta incômoda: quem corrompe os corruptos?
Escândalos nos três poderes: O Mensalão (2005) revelou o governo Lula comprando o apoio de deputados da oposição com R$ 30 mil por mês para aprovar projetos do Executivo. Os principais personagens foram José Dirceu como mentor, Roberto Jefferson como delator (depois condenado) e Marcos Valério como operador financeiro.
A Lava Jato (2014–2021) expôs o maior esquema de desvio já visto até então, superfaturamento em contratos da Petrobras convertido em propina. Só Odebrecht/Braskem pagaram R$ 12 bilhões em multas. A crise contribuiu para a recessão de 2015, motivou o impeachment de Dilma Rousseff e levou Lula à prisão em 2018, de onde saiu absolvido pelo STF em 2021, após 580 dias preso. O juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol transformaram a operação em capital político: Sérgio Moro foi ministro de Bolsonaro e senador, já Dallagnol foi deputado. Hoje disputam, respectivamente, o governo do Paraná pelo PL e uma vaga no Senado pelo Partido Novo.
O “Orçamento Secreto” (2021-2022), por onde deputados enviam recursos para obras e compra de equipamentos superfaturados nas suas bases, sem que aparecesse o seu nome. No INSS (2024–2025), descontos ilegais em benefícios de aposentados somaram R$ 6,3 bilhões. No Banco Master (2025–atual), a maior fraude financeira da história do país, recursos de fundos de previdência estaduais e municipais foram “aplicados” no Banco Master e viraram pó, com rombo estimado em R$ 50 bilhões e suspeitas alcançando deputados, senadores e familiares de ministros do STJ.
Em relação à corrupção nos estados, o Rio de Janeiro é o campeão absoluto: dos governadores eleitos desde a redemocratização, só Brizola escapou de acusação. Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Pezão, Witzel e Cláudio Castro, todos processados, presos ou afastados.
O setor privado raramente entra na conta. Será que esquecemos da Operação Carne Fraca (2017), JBS, BRF e mais de trinta empresas subornaram fiscais para liberar carne imprópria para consumo; os irmãos Batista confessaram R$ 400 milhões em propinas. Das Lojas Americanas (2023) que escondeu uma fraude contábil de R$ 20 bilhões. Da Ambev (2023) que sonegou R$ 30 bilhões em tributos?
E o futebol, a alegria do povo, é antro de corrupção. Na CBF, quase toda a linha sucessória recente foi processada: Havelange (propinas da ISL), Ricardo Teixeira (US$ 41 milhões na venda dos direitos da Copa), Marin e Del Nero (Fifagate), Ednaldo Rodrigues (afastado por acusação, reconduzido por liminar de Gilmar Mendes). O atual presidente, Samir Xaud, já com denúncias sendo apuradas.
Fazendo um balanço, percebe-se que a CBF e o Governo do Estado do Rio de Janeiro lideram o ranking de dirigentes processados; parlamentares aprovam projetos quando recebem mesadas e favores; as famílias de Lula e de Bolsonaro carregam acusações parecidas. Para o eleitorado fiel de Bolsonaro, ele e os filhos são inocentes e Lula é corrupto. Para o eleitorado fiel de Lula, é o contrário. Enquanto isso, grandes empresas do agronegócio, grandes construtoras, o setor financeiro da Faria Lima e os pastores que mais gritam contra a corrupção no setor público são os que pagam a propina do outro lado do balcão, sonegam impostos e aplicam golpes. São dois lados da mesma moeda podre.
Resta a pergunta que precisamos responder: se o eleitor mais indignado tivesse o dinheiro e o poder que essas organizações têm, agiria diferente? Até o Brasil responder isso com honestidade, vai continuar disputando a 107ª posição, não por falta de leis, mas porque ainda não nos livramos da “lei do Gerson”, de que, para sermos espertos/competitivos/bem-sucedidos, precisamos levar vantagem em tudo. A corrupção será derrotada quando deixarmos de admirar os poderosos e passarmos a fiscalizá-los melhor. Quando exigirmos coerência e postura ética de todos, inclusive de nós mesmos.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.