
Em 1996, Shakira iniciava sua primeira turnê pelo Brasil. Em Porto Alegre, fez o show Pies Descalzos no Gigantinho, em 1997. Lembro de passar em frente, ver um pequeno grupo de jovens e me chamar a atenção apenas pelo fato de a cantora ser colombiana e ter aquele nome diferente. Naquele momento, eu ainda carregava certo preconceito com a música em espanhol, que me remetia ao fanatismo adolescente pelos porto-riquenhos Menudos, febre na geração da minha irmã mais nova.
Confesso: sempre fui péssima para detectar sucessos musicais. Naquele mesmo ano, viajei ao Chile e percebi que Ricky Martin, ex-Menudo, estava em alta. Imaginei que sua projeção se restringiria aos países latino-americanos de língua espanhola. Ledo engano. Tornou-se um ídolo global.
A verdade é que fui descobrir a música em espanhol mais tarde, quando morei em Barcelona. Provocada por amigos de lá, que se espantavam com minha ignorância musical, ouvi, não sem ironia, que eu vinha “do planeta Brasil”, onde só se escuta música brasileira ou em inglês. E, de fato, era mais ou menos assim. Mas, por sorte, a bolha rompeu. Hoje, minha playlist inclui nomes como Juanes, Jorge Drexler, Julieta Venegas, Jarabe de Palo, Fito Páez, entre outros.
Ainda que eu não seja exatamente fã da Shakira, admiro sua trajetória. Há algo de consistente em sua obstinação, em sua capacidade de chegar onde chegou sem abrir mão de uma identidade própria. Sua carreira é feita de grandes sucessos, mas também de enfrentamentos públicos — e ela soube transformar experiências difíceis em algo que ultrapassa o plano individual.
No Rio de Janeiro, Shakira deu show. E não apenas musical. Em um gesto simples e potente, homenageou mulheres latinas, citando diferentes nacionalidades — algo que ganha ainda mais sentido diante de comentários recentes, infelizes e ressentidos, vindos de figuras públicas estrangeiras. Falou também às mães solo, reconhecendo o esforço cotidiano de criar, sustentar e educar filhos sem apoio paterno. Sem constrangimento, compartilhou que também atravessa essa experiência. Porque, no fim, a dor dos filhos diante do descaso de um pai não se mede em cifras.
Foi um espetáculo à altura do momento. Acolhida por artistas brasileiros e por um público estimado em dois milhões de pessoas, emocionou quem estava ali e quem assistia de longe. Nem que fosse apenas pelo poder raro da arte de reunir multidões em torno de algo comum.
Mas o show não foi só da Shakira. O Rio de Janeiro também deu o seu.
O que começou como um teste, em maio de 2024, com Madonna em Copacabana, rapidamente se transformou em estratégia. Turismo, visibilidade internacional, dinamização econômica — o evento foi ganhando contornos de política pública. Assim nasceu o programa “Todo Mundo no Rio”, que passou a promover, anualmente, um grande show gratuito na praia. Em 2025, Lady Gaga. Em 2026, Shakira. Mulheres potentes, que ajudaram a consolidar a dimensão simbólica do projeto.
O Rio mostra, mais uma vez, sua capacidade de mobilização poucos meses depois do Carnaval. A cultura, em suas múltiplas expressões, reafirma-se como motor do turismo de massa.
Há, no entanto, uma diferença importante em relação a outros megaeventos. Aqui, os custos de preparação são significativamente menores. Não há grandes obras permanentes, nem a construção de equipamentos de uso incerto no futuro. A cidade se adapta com estruturas temporárias, reutilizáveis. Os dados divulgados apontam retorno econômico positivo, especialmente nos setores de hotelaria, bares, restaurantes e mobilidade.
Entre os aspectos mais fortes está a gratuidade. Ela não é um detalhe: é o que permite que um evento dessa escala seja, de fato, público. E isso importa. Abre horizontes, cria referências, amplia repertórios — inclusive de sonho.
Mas nem tudo são aplausos — e é bom que não sejam.
Os ganhos econômicos, como já se percebe, tendem a se concentrar em setores específicos e em determinadas áreas da cidade. Pouco disso chega, de forma estruturada, a outros territórios. Se o evento já provou seu êxito, talvez seja o momento de avançar nas contrapartidas.
É possível, por exemplo, vincular contratos de patrocínio a exigências mais distributivas: incluir fornecedores de áreas periféricas, abrir espaço para economia solidária, garantir contratação de trabalhadores locais com remuneração formal. Medidas assim não apenas ampliam o alcance do evento, como ajudam a estruturar cadeias produtivas mais inclusivas.
Também faria sentido pensar o evento para além de um único dia. Uma programação distribuída pela cidade, com shows menores, circuitos culturais e feiras locais, poderia ampliar o impacto territorial e abrir espaço para novos talentos.
Outro ponto fundamental é o legado. Capacitar trabalhadores, apoiar pequenos empreendedores envolvidos, fortalecer redes que se formam no processo — tudo isso pode transformar um pico de atividade em continuidade econômica.
Para isso, é preciso também qualificar a leitura dos resultados. Não basta saber quanto entrou. É necessário entender quem ganhou — e onde. Transparência, métricas mais finas e acompanhamento dos impactos sobre pequenos negócios e renda local são passos essenciais.
Se olharmos o calendário da cidade — Réveillon, Carnaval, Bienal do Livro, Rock in Rio, Festival do Rio, Maratona, Rio2C — veremos que o Rio já opera como uma grande plataforma de eventos. O desafio agora é transformar essa potência em algo mais distribuído, mais contínuo e mais justo.
Com regras claras e contrapartidas bem definidas, o investimento público pode ir além do espetáculo. Pode fortalecer a cultura local, qualificar espaços urbanos e ampliar oportunidades.
Se abro a caixinha dos sonhos, é impossível não pensar na potência do Brasil como destino turístico. Mas, junto com ela, imaginar também um modelo que combine visibilidade com redistribuição, celebração com investimento social, evento com cidade.
Talvez seja aí que esteja o verdadeiro espetáculo: quando quem vem de fora se encanta — e quem vive dentro se reconhece.
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