
1 – Outra vez em Buenos Aires. Outono e Feira do Livro. Amigos que talvez não consiga encontrar: Fermín, Rô, Gonza, Vicky, Martín, tantos mais.
2 – Há uma canção famosa do U2 que fala sobre fugir para um lugar onde as ruas não tenham nome.
3 – Vir para cá é o justo avesso dessa fuga. A cada nome de rua, uma porção de nossos quatro anos aqui se ativa.
4 – A avenida Las Heras e seu parque, onde tantas vezes caminhamos em busca de uma empanada ou do cinema de rua uma quadra acima.
5 – E logo a Arenales, onde sempre começa Balada para un loco.
6 – Tudo está ainda mais caro do que quando voltamos ao Brasil em dezembro, graças a um modelo de ajuste econômico caducado há três décadas.
7 – O nível de corrupção dos caçadores de nhoques (o que chamávamos de marajás na era dos jetskis) já entrou naquela fase de escândalos justificados com um: pelo menos se rouba menos do que antes.
8 – Deixar uma cidade. Mudar. Recolher tantas coisas que não vieram na primeira leva. Percorrer essas ruas que o vento frio de maio gravou na alma em luz e som de folhas douradas.
9 – Ruas que aparecem em sonhos. O vago sabor abaunilhado da calda com que embebem as melhores medialunas na cafeteria da Beruti.
10 – Avenida Medrano, onde vivemos a última temporada aqui. E volto a saudar os tipos da loja natural, da fruteira, da padaria.
11 – As ruas onde estão as livrarias do coração.
12 – E hoje na Feira do Livro, com meus amigos e escritores Dani Espíndola e Rafa Bassi. Falaremos sobre poesia moderna e contemporânea brasileira.
13 – Ontem a Tainá lembrou de um famoso poema da Elizabeth Bishop, chamado “Uma arte”, aquele que diz que a arte de perder não é difícil de dominar, mas que, à medida que avança, mais nos faz perceber ser a mais difícil das matérias do currículo.
14 – Escreve tudo isso, ordena ao fim o poema. Mas as ruas, por sorte, já foram nomeadas. De modo que se pode apenas vivê-las.
15 – E revivê-las.
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