
Descobri recentemente o Hospital New Amsterdam: Toda Vida Importa, na Netflix. E viciei. Exibida pela NBC entre 2018 e 2022, a série é baseada no livro Twelve Patients: Life and Death at Bellevue Hospital, que traz as memórias do doutor Eric Manheimer, ex-diretor médico do Bellevue Hospital, o hospital público mais antigo dos Estados Unidos. A obra relata o atendimento a doze pessoas com perfis totalmente diferentes, incluindo imigrantes sem documentos, prisioneiros de segurança máxima, bilionários de Wall Street e diplomatas da ONU. O autor usa os casos para debater problemas sociais, econômicos e políticos que afetam a saúde pública, como pobreza, vício e o sistema prisional.
Como diz o título, na série o hospital chama-se New Amsterdam e o diretor médico é Max Goodwin, interpretado pelo ator Ryan Eggold. Assim como Manheimer, o diretor fictício é diagnosticado com câncer, o que o faz refletir sobre a finitude da vida, reforçando suas convicções sobre seu propósito no mundo. Seu bordão é uma ode à humanidade que deveríamos todos trazer como mantra: “Como posso ajudar?”
Desde que chega ao hospital, doutor Max busca formar uma equipe de excelência focada nos interesses dos pacientes e desburocratizar o atendimento médico, mesmo lutando contra o sistema que mantém o hospital. Pelo que entendi, é um hospital de caridade, parecido com as santas casas brasileiras antes do SUS. Ou seja, diretor e equipe dependem da boa vontade dos doadores para implantar suas políticas. E todo dia (ou episódio) é uma luta.
Em um dos últimos capítulos a que assisti, doutor Max está indignado com o preço da insulina, que faz diabéticos voltarem sempre ao hospital porque não têm dinheiro para comprar o remédio. Ele tenta, sem sucesso, fabricar insulina ou importá-la do Canadá (onde custa um quinto do que nos Estados Unidos), mas os laboratórios vencem. Tudo o que fez só resultou em um laboratório fornecer insulina vitaliciamente a uma de suas pacientes. Desanimado, ele questiona por que sempre há dinheiro para armas e até para coisas importantes como educação pública em seu país, mas não para saúde. No Brasil, remédios de uso contínuo, como insulina, são fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Como são raros os hospitais públicos estadunidenses, muitos dos pacientes chegam ao New Amsterdam desconfiados e assustados. Recusam tratamento com medo de serem cobrados. Mesmo os que têm planos de saúde estão sempre às voltas com o que poderá ser coberto. Na série e no mundo real, nos EUA e aqui, são os cálculos atuariais que têm o poder de escolher quem vive e quem morre, quem pode se tratar do quê.
Se no Brasil 75% da população depende exclusivamente do SUS, nos Estados Unidos não existe saúde pública gratuita. Mesmo o Obamacare não é um plano de saúde do governo, mas sim um conjunto de regras e regulamentações para o mercado de seguros de saúde privados. Lá também não existe o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, nosso conhecido Samu, mais um serviço público e gratuito do SUS, que presta socorro médico rápido em situações de urgência e emergência. Quem nunca viu na internet cenas de pacientes estadunidenses fugindo de ambulâncias com medo da conta do serviço?
Com o que mais me identifico na série, porém, é como ficamos vulneráveis quando estamos doentes e como o sistema de saúde, seja público ou privado, é deficiente em nos ajudar e confortar quando mais precisamos na vida, até quando encontramos pessoas dedicadas como os médicos da equipe do doutor Max. Não consigo nem me imaginar vivendo nos Estados Unidos sem ter um plano de saúde, mas o SUS também não é milagroso: é sistematicamente atacado por corruptos de todos os tipos e costuma não dar conta da imensidão da demanda que recai sobre ele.
Ver uma pessoa esperar mais de um ano para fazer uma cirurgia de vesícula, com dor e sem trabalhar, por falta de vaga no hospital, como já vi, é imoral e antirracional. Doutor Max faria a conta de quanto essa pessoa deixou de produzir nesse tempo todo e o quanto sua família também teve que se mobilizar, e chegaria à conclusão de que a cirurgia imediata seria mais barata para o Estado e a sociedade. Para isso, o sistema, qualquer sistema, precisa pensar nos indivíduos, não apenas no todo.
Mesmo os 15% que podem pagar por um plano de saúde em nosso país estão à mercê da boa vontade e da burocracia do sistema. Tenho um plano de saúde caro (bem caro) e, mesmo assim, marcar um exame pode ser uma missão quase impossível. Até chegar ao médico ou enfermeiro que fará o exame, é preciso passar por infindáveis etapas de ligações, sites, conversas com máquinas na internet e pessoalmente nos hospitais e laboratórios, para finalmente chegar a um atendente e ter que responder pela enésima vez às mesmas perguntas. E, depois de tudo, aguardar um ser celestial enviar ou não um “tolken” de autorização. O mesmo vale para consultas.
Por enquanto, continuo a assistir Hospital New Amsterdam, torcendo e me emocionando com o doutor Max e equipe, pensando junto com eles em como o mundo poderia ser um lugar melhor para todos vivermos. E como posso ajudar.