
Me sinto estranha. Uma transformação profunda e sem precedentes toma conta do meu ser, em todas as esferas.
Não estava pronta para me despedir de mim mesma enquanto mulher. Amava ser quem eu era, estava muito confortável dentro da minha pele – física e emocionalmente. Sentia orgulho de quem era, como amiga, como filha, como esposa, como irmã, como profissional… como pessoa.
Agora me vejo vulnerável, sozinha, confusa. Perdi o controle sobre mim mesma. O futuro, antes minimamente previsível, se tornou uma grande tela em branco que parece que outra pessoa, que nem conheço, vai começar a pintar, e só poderei observar.
A bebê cresce dentro de mim, deformando meu corpo, tirando minha liberdade, me reduzindo a uma existência maternal. Claro que vou amar minha filha, de certa forma já a amo: minha angústia nada tem a ver com ela, e sim com o processo de gestar.
Me sinto negligenciada por quem me rodeia, em sua maioria, homens. Sempre tive receio em engravidar, pois como eu poderia ser mãe sem ter a minha mãe para me amparar? E meu medo já se prova fundamentado nos primeiros meses de gestação. Eles não compreendem; como poderiam? Me culpo por não estar mais sendo a filha presente, a esposa que canta e dança, a amiga prestativa.
Me sinto presa em um caminho irreversível, que vai levar a um lugar inóspito, que não sei se vou gostar. Mas o que posso fazer? Respirar, aceitar o momento presente, o destino desconhecido. Talvez, quando as mulheres planejam e desejam muito ter um filho, a gravidez seja diferente, leve, feliz, divina. Eu, como não estava esperando, não me preparei emocionalmente para o baque que seria ver meu corpo mudar veloz, as relações se tornarem outras, e eu me distanciar até de mim mesma.
Em sessão com a minha psicóloga essa semana, descobri que minha angústia tem nome: “matrescência”. É o termo cunhado em 1973 pela antropóloga norte-americana Dana Raphael, e faz alusão ao processo de transição contínua e profunda de se tornar mãe, comparável em intensidade à adolescência. Assim como a puberdade transforma uma criança em jovem adulto por meio de uma revolução hormonal que reorganiza corpo, cérebro e identidade, a gravidez e o pós-parto desencadeiam uma cascata de hormônios igualmente radical. A mulher atravessa uma reconfiguração de quem ela é, um processo tão desestabilizador e legítimo quanto a adolescência, mas que, ao contrário dela, raramente é nomeado ou validado pela sociedade.
A diferença é que, quando eu era adolescente, meu corpo estava mudando e eu estava ficando belíssima, não barriguda; meus amigos todos estavam lidando com a mesma situação, passávamos o dia todo juntos conversando, rindo, chorando; e os adultos eram compreensivos com as nossas atitudes, muitas vezes sem nexo ou exageradas.
Ouvi muito falar que a gravidez é uma bênção, e acreditava que, um dia, eu seria uma gestante deslumbrante e deslumbrada; o que ninguém tinha me contado é que gestar é também um período desafiador e extremamente solitário. Espero que eu chegue do outro lado dessa transformação sã, com uma filha saudável e feliz, e que eu consiga retomar pelo menos parte da mulher que um dia fui.