Faz uns meses, lancei “Uma Estrela no Pampa: os 60 anos da Federação Israelita na Travessia de 120 Anos da sua Coletividade” (SlerBooks, 365 pgs). Não foi um livro exatamente badalado, porque se viabilizou pela Lei Rouanet e não tem apelo comercial. Mas é importante que se faça um alerta sobre esse trabalho que comecei há quatro anos e veio ao público quando isso se tornou possível. Apesar de ser um livro institucional, ele é muito autoral, fluido. Com um equilíbrio que requer o bom jornalismo comprometido com os fatos e a verdade, trata-se de uma grande biografia da coletividade judaica e do ente institucional que a representa (a Federação Israelita do RS). Logo, é um livro que nos traz de forma leve, com texto que procura ser atrativo, uma lindíssima história.
E, sobretudo, ele tem o propósito de ser elucidativo, de mostrar ao público amplo quem somos nós, os judeus, com nossos valores, trajetória e origens, inescapavelmente explicando a refundação de Israel e sua extrema importância para um povo perseguido e castigado em todos os cantos de uma diáspora cruel de 1,9 mil anos. Mas não fica só nisso. O livro foi feito para o consumo interno. Para os judeus se olharem com orgulho.
Este trecho, citando outra obra (que me marcou muito), é eloquente:
“No livro O Gueto Interior, de Santiago Amigorena (editora Todavia), o autor conta a história do seu avô, Vicente Rosenberg, que emigrou da Polônia para a Argentina em 1928. Quando Rosenberg soube da vida de sua mãe no Gueto de Varsóvia, por meio das dolorosas cartas que ela lhe enviava, começou a se dar conta da sua condição judaica. A obra é uma reflexão identitária. Polonês? Argentino? Sim. Mas, sobretudo, judeu. Rosenberg, que estava em franco processo de assimilação e de abandono do judaísmo, precisou viver tamanho trauma para assumir suas origens. A pergunta que percorre todo o livro é: precisa ocorrer algo assim para os judeus se investirem da própria identidade? Não seria muito mais adequado fazer isso pela belíssima intensidade das suas origens?”
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Volto então para cá, para o Estado onde se originou a atual coletividade judaica brasileira, lá em 1904. Sim, foi aqui no Rio Grande do Sul, não por acaso ao lado da Argentina de Moisesville. Sou de uma geração cujos avós viveram as perseguições, seja por pogroms (minha família paterna) quanto pelo nazismo (minha família materna). E para nós, as perseguições, as segregações, a incompreensão e a violência eram sentimentos distantes, com aparência de ficção. Tenho uma tese: o Holocausto, aquele genocídio de 6 milhões de judeus que aniquilou um terço da população judaica no mundo e dois terços na Europa, foi tão avassalador e chocante (não comparem com nada o extermínio industrial de um povo só por ser esse povo, só por preconceito. Jamais façam isso!), que tivemos uma trégua de quase oito décadas. Mas hoje, sob outra roupagem (antissionismo, e não só religioso ou racial), aquilo que meus avós contavam retorna desgraçadamente nas nossas almas.
“Uma Estrela no Pampa” conversa com outro livro que lancei antes: “A Cronologia do Alef Bet: o abecedário judaico contra a ignorância e a maldade do antissemitismo (SlerBooks, 253 pgs)”. São livros irmãos, que se complementam.
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O fato é que eu e a minha turma nos preocupávamos mais em conquistar a guria dos sonhos, ver o jogo do nosso time (o tricolor ou o colorado aqui na aldeia) na cancha e puxar fumo nos bares da Osvaldo. Claro que sempre éramos cientes da nossa identidade, mas não nos preocupávamos muito com esse assunto. Essa opção, porém, não existe mais, essa assimilação não é tão simples. Podemos viver as nossas vidas, sim, mas temos o dever de zelar pela nossa linda identidade. Sem desmerecer outras etnias, também elas merecedoras do mesmo sentimento, digo com todas as letras que me orgulho de ser judeu. Como mostrei já na introdução do livro, o sábio Hillel e o filósofo Sartre, com 1,9 mil anos os separando, falaram o mesmo sobre os judaísmos e os judeus. Se os judeus não tomarem as rédeas da sua História e da sua identidade, outros o farão – e farão muito mal. Hillel, portanto, foi existencialista quase dois milênios antes de surgir essa escola filosófica.(as frases mais basilares de Hillel são: “O que é odioso para ti, não faça ao teu próximo: esta é toda a lei; o resto é mero comentário” – sobre a Torá – e “Se não eu por mim, quem por mim? Se eu for só por mim, quem sou eu? Se não for agora, quando?”)
Percebem que intenso?
Esse livro, portanto, é um convite para que estejamos juntos numa essencial defesa identitária. Sou um crítico ácido a quem despreza a identidade. Vejo como uma espécie de corrupção, não uma corrupção financeira, mas de valores muito mais profundos e em nome de tapinhas nas costas para o “bom judeu” (como tem um “negro bom”, quando é serviçal). É um dever para com o passado, o presente e o futuro, os três tempos em igual dosagem. É uma baita responsabilidade. Sou jornalista e me sinto à vontade por ter feito a minha parte. Espero que você me leia e perceba a importância de ser quem se é. E faça a sua.
PS: Os antissemitas das relações externas brasileiras usam as palavras “flagrante” e “elementar” pra justificar o injustificável apoio ao obscurantismo dos aiatolás na resposta à The Economist. Por que esses vermes não usam essas mesmas palavras pra condenar o “flagrante” e “elementar” absurdo de intenções genocidas que é o governo medieval do Irã, expressamente, querer varrer o lar judeu do mapa? Por que não definem o Hamas pela “flagrante” e “elementar” condição de “entidade terrorista”? Por que não usam esses termos, “flagrante” e “elementar”, pra diferenciar (em vez de absurdamente equiparar) a reação a um pogrom e uma guerra pela sobrevivência do genocídio perpetrado pelos nazistas industrialmente que resultou no apagamento de 1/3 da população judaica mundial e 2/3 da população judaica europeia? O uso seletivo e perverso dessas palavras ocorre porque são pessoas de um oportunismo e de uma irresponsabilidade “flagrante” e “elementar”.
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Shabat shalom!
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Foto da Capa: Comunidade Philippson, Santa Maria/RS - 1930

