
Não são poucos os amigos que declaram sua desesperança. Pessoas queridas se dizem exaustas de uma luta sem resultados efetivos, questionando se vale mesmo a pena a militância social e política, pois os pobres estão sempre mais pobres, a sociedade está muito abraçada à violência e a corrupção apresenta-se alvissareira, elevando o patamar de vida de gente sem escrúpulos e moral, num contexto de impunidade. Há quem me indague como é concebível ainda esperançar, como acreditar que é possível gerar o novo quando a maldade vigora e as pessoas manifestam crescente ganância. Eu entro nesse debate de cabeça e apaixonadamente, pois sou viciado em esperançar. Creio que serve para mim o título da peça escrita por Paulo Pontes (1970): “Brasileiro, profissão: esperança”.
Debruçado sob a dor individual como espelho social, na teimosia de quem sabe esperar sem entregar-se às adversidades e sugerindo a resistência pela arte, Paulo Pontes propõe que a esperança não é um sentimento ingênuo. É uma estratégia de sobrevivência e resistência cultural do povo brasileiro diante da dor, da solidão e da opressão política. Esse é um dos trilhos nos quais trafega minha existência. Na teimosia de não ceder ao desamparo.
Outra vereda sustenta minhas andanças: é a ideia do profetismo. Os profetas são lideranças que resistem às injustiças, denunciando-as sem se intimidarem. Não se deixaram vencer: ao tempo em que denunciavam as cicatrizes sociais, anunciavam possibilidades de constituição de outra vida. Acho que é isso que Freire (1968) chamou de “inédito viável”, seria o “já” e o “ainda não”. O pernambucano sabia que a utopia não é um sonho vazio, ingênuo, impossível. Compõe-se da corajosa denúncia da opressão do presente e do anúncio que gera o inédito viável — uma solução concreta que antes parecia impossível (inédita), mas que, por meio da organização coletiva e da esperança ativa, torna-se realizável (viável). Sem o anúncio, a denúncia conduz a um pessimismo paralisante e, sem a denúncia, o anúncio torna-se romantismo inócuo.
Precisamos, entretanto, asseverar com Freire que a esperança não se refere somente a um sentimento individual. Trata-se de uma ação coletiva que se reflete na ação política, uma vez que mobiliza as pessoas em torno da compreensão das estruturas que produzem a opressão. É preciso distinguir entre a esperança que move a ação e uma mera ilusão ou um sonho romântico. Além disso, o esperançar caminha nas sendas da utopia enquanto mediação inesgotável de energia social e força popular, à medida que questiona a ordem estabelecida e desenha alternativas no intento de não naturalizar as atrocidades do sistema. Com isso, declaro que utopia e esperança constituem práxis políticas porque não se limitam a vislumbrar um futuro distante, mas supõem a disposição de agir coletivamente para modificar as realidades e requerem reflexão, organização, decisão e ação transformadora. Permito-me conceber uma relação intrínseca entre utopia e esperança. A utopia nos direciona para o horizonte que definimos como meta, e a esperança é a força militante que nos faz caminhar em sua direção. Acredito que, sem utopia, somos uma planta em terreno arenoso. Mas, o que é utopia?
No livro “O que é utopia?” (1985), Teixeira Coelho revela que a utopia não é devaneio ou uma fuga da realidade, mas sim um dispositivo crítico e motor de transformação social. Segundo o autor, ela serve para denunciar as injustiças e as limitações da sociedade do presente, projetando um modelo alternativo guiado por argumentos que se dirigem à igualdade e liberdade.
Em 1516, o filósofo, escritor e estadista inglês, Thomas More, formula uma crítica aos problemas políticos e sociais da Europa, no livro “Utopia”. Nele, descreve-se uma sociedade imaginária localizada numa ilha ideal, baseada na igualdade social, na ausência de propriedade privada e na tolerância religiosa. More gracejava com o termo eutopia (“bom lugar”) e outopia (“lugar nenhum”), indicando que a nova sociedade supõe a capacidade humana de organizar o Estado por meio da razão e da abolição da propriedade privada. Nessa linha, foram lançadas obras como “A Cidade do Sol” (16230), de Campanella; e, “Nova Atlântida” (1627), de Bacon.
Com o advento do Iluminismo, da Revolução Francesa e o surgimento do Socialismo Utópico — de pensadores como Saint-Simon, Fourier e Owen —, o conceito passa a significar um projeto de futuro, apontando um horizonte concreto que pode e deve ser alcançado pela transformação social. No século XX, o marxismo ortodoxo passou a associar o termo a algo ingênuo, irrealista e impossível, opondo o “socialismo científico” ao “utópico”. Paralelamente, o conceito ganhou um desdobramento sombrio: a distopia (o “mau lugar”), consolidada por obras como 1984, de George Orwell.
Na filosofia contemporânea, o termo foi resgatado e ressignificado. Se, por um lado, pensadores liberais como Karl Popper (1947) alertaram para os perigos de projetos fechados de “países perfeitos” após as tragédias totalitárias, por outro, o marxismo ocidental e filósofos como Ricoeur (1986) e Bauman (2017) reabilitaram o conceito. A utopia transpõe-se em uma mediação de imaginação pública dirigida ao futuro: um horizonte crítico e móvel que impulsiona a transformação. A Filosofia de Ernst Bloch foi a que melhor amarrou esses dois conceitos. Na sua obra-prima “O Princípio Esperança”, (1939–1947), o filósofo empreende a fundamentação ontológica e histórica da definição por meio do conceito de “esperança concreta”, sugerindo que a utopia e a esperança não são meras ilusões ou fantasias ingênuas, mas sim impulsos fundamentais da própria estrutura do ser humano – que, por ser inconcluso, é movido por aspirações em direção ao futuro – e da realidade. O sociólogo e filósofo polonês Bauman analisou como a nossa sociedade atual alterou o desejo utópico. Para Bauman, por medo do porvir, a sociedade contemporânea parou de projetar utopias adiante e passou a idealizar o passado.
Em 2018, Francis Wolff publica o livro “Três Utopias Contemporâneas”, noticiando que o homem contemporâneo entrou em crise porque perdeu as referências que historicamente o definiam dos demais animais. Assim, surgiram três novas utopias nas quais se tenta recolocar o lugar da humanidade: A utopia pós-humanista, que professa que a tecnologia, a inteligência artificial e a engenharia genética vão erradicar a morte, as doenças e as fraquezas biológicas; a utopia ecológica, com a visão do estabelecimento de novas relações com o planeta; e uma utopia focada na ideia de que a existência de projetos políticos buscaria uma fraternidade universal pura.
Outra referência importante é Frederic Jameson, que, influenciado por Bloch, em seu livro “As sementes do tempo” (1994), assinala que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Advoga que nossa cultura perdeu a capacidade de conceber um horizonte pós-capitalista por estar rendida ao seu modo de produção. Mas a utopia corrobora para romper esse bloqueio mental imposto pelo capitalismo tardio. Jarauta (2017), ao analisar os desafios e as complexidades do mundo globalizado, inferiu que é necessário repensar tudo, pois “todas as certezas do passado voaram pelos ares ao mesmo tempo”. Eis que morreram as grandes utopias, restando-nos tão somente “as pequenas utopias que nos ajudam a viver o cotidiano”, que são os projetos comunitários de bairro, a busca solidária por tempo livre, o cultivo da amizade profunda e a criação de espaços ecológicos locais. Contudo, elas não mudam o planeta de uma vez, mas mudam a vida imediata das pessoas.
A modernidade trouxe à tona a promessa de um progresso contínuo, sustentado por verdades absolutas articuladas em torno da razão. Grandes narrativas sustentavam a perspectiva de um mundo colossal de fartura e liberdade, riqueza e igualdade. A ciência apresenta-se como dogma, capaz de reconfigurar definitivamente a vida humana. Todavia, ficou no anúncio. Promoveu desencanto e incredulidade. Aí a célebre frase de Lennon: “Ego trip”, “O sonho acabou. O que posso dizer? O sonho acabou ontem. Eu era o tecelão de sonhos. Mas agora renasci”. (“The dream is over / What can I say? / The dream is over / Yesterday / I was the dreamweaver / But now I’m reborn”). A enorme frustração é acompanhada por um exército de pensadores que buscam tematizá-la.
Lyotard (1979) anuncia o colapso de metanarrativas, enfatizando que a experiência humana não se explica mais mediante grandes sistemas de pensamento. Em meados da década de 1940, Max Horkheimer (2016) interpela como evitar que a barbárie, representada pelo nazifascismo, avance com seu estarrecedor processo de desumanização. Não desejo induzir o leitor/a atento/a de que o conceito de utopia se desenvolveu de maneira linear. É mister assegurar que a tradição utópica já articulava imaginação social e crítica política mesmo antes do Iluminismo. Com ele, aparecem complexidades e controvérsias.
E nós? Nós, na voz de Sílvio Brito (1976), gritamos: “Para o mundo que eu quero descer”. Dez anos após, depois de ter perdido seus heróis que morreram de overdose, Cazuza desabafou: “Ideologia, eu quero uma pra viver”. Nós nos colocamos no fundo do túnel em busca de uma pálida luz, uma esperança pequenina, ou nos entregamos à briga sórdida de todos contra todos num sistema que entronizou o ter e o poder como entidades absolutas. “E agora, José?
Atravessamos uma ditadura autoritária que prendeu e arrebentou seus filhos, promoveu um desenvolvimento de infraestrutura focado nos mais ricos, semeando fome e miséria, estimulando a indústria da seca e a dependência crônica da maioria. Experimentamos um confuso processo de redemocratização que acompanhou a reformatação do capital em um novo liberalismo. Tivemos um golpe na democracia promovido por uma elite audaz e inescrupulosa. Amargamos um governo negacionista, homofóbico e machista que armou o país. Parece árduo manter a esperança. Talvez, por isso, me indaguem tão reiteradamente no que ainda se pode esperar.
Eu tenho dito que esperar, esperar… de jeito nenhum! Esperançar, sempre. Frequentemente repito que não há saída no capitalismo. A minha visão não está sublinhada por pessimismo. Pois, defendo que há saída do capitalismo? Não abro mão dessa esperança. Sem a esperança, a utopia se transforma em cinismo ou melancolia. A esperança transforma o “ideal abstrato” em uma possibilidade de ação. Ela nos convence de que o presente não é fixo e que as estruturas atuais podem ser rompidas. Porém, sem utopia, a esperança não passa de devaneio. É a utopia que traça os contornos daquilo pelo qual vale a pena lutar (justiça, igualdade, liberdade), impedindo que a esperança se dissipe em um desejo vago e sem direção.
Quando testemunhamos organizações sociais focadas na luta pela defesa de necessidades básicas, estimulamos a articulação de grupos reduzidos em bairros populares para a promoção da educação e da cultura, edificamos pequenos aparelhos de saúde, educação e cultura em comunidades pobres, agimos na defesa dos direitos humanos junto ao povo de rua, aos apenados, às infâncias e adolescências, atuamos junto aos movimentos quilombolas e indígenas, ajudamos a consolidar experiências cooperativistas de trabalhadores rurais e da agricultura familiar, assumimos com os agentes sociais a defesa de suas definições políticas, sociais e culturais, estamos construindo rotas de fuga do capitalismo. É uma luta gradual, porém paciente e insistente. As manifestações assinaladas são marcadoras de resistência, não significam, por si só, que cumpram a superação estrutural do capitalismo. Estes podem ser caminhos de superação do capitalismo.
O compromisso com a realidade concreta que acolhe a existência humana na perspectiva da dinâmica da utopia tem como clamor imediato a participação política no contexto das eleições. Aqui, a esperança utópica se transforma em responsabilidade cidadã. Neste contexto, não podemos esperar que os candidatos sejam redentores capazes de transformar nossas vidas. Eles serão formuladores de políticas que devem zelar por encontrar vias de atuação na direção da superação das estruturas que fazem nosso povo amargar uma vida miserável. Não podemos confiar o voto em alguém que não tem compromisso com a mudança social, tornamo-nos corresponsáveis pela manutenção das injustiças, desigualdades e corrupção.
Sabemos que votar em servidores da restrita elite de nosso país é confiar as “ovelhas ao lobo”, que as venderá tão logo possível aos interesses do capital. Percebam que estão em jogo projetos políticos distintos de Brasis: um que guarda aliança com o trumpismo e a malsucedida política econômica argentina de Javier Milei, e outro que defende nosso povo e soberania. Busquemos garantir aquele que é melhor para a nação e seu povo. Façamos sem a ilusão de que isso resolve nosso problema. Não resolve! Mas ajuda a caminharmos no horizonte das revoluções que almejamos. Como cantou o sertanejo Zé Vicente (1996): “Vai ser tão bonito se ouvir a canção, cantada de novo. No olhar da gente, a certeza do irmão, reinado do povo”.