
Conheci Brasília de uma maneira pouco comum. Meu pai estava em um voo comercial que sofreu um grave acidente no momento da aterrissagem. O avião literalmente se partiu em duas partes. Entre os sobreviventes, ele foi um dos que mais tempo permaneceu hospitalizado: fraturou vértebras e uma perna. Era a década de 1980, e a companhia aérea, como forma de assistência, custeava as viagens da família para visitá-lo.
Mas a morte é uma ideia que raramente habita a cabeça de uma criança. Lembro mais do impacto de conhecer Brasília do que do meu pai no hospital. Tinha a convicção ingênua de que tudo aquilo seria passageiro. E, felizmente, foi.
O que permaneceu na memória foi a tentativa frustrada de caminhar entre um ponto turístico e outro. O calor, as distâncias, uma certa aridez da paisagem, tudo contrastava com a beleza impressionante das edificações. Talvez aquele misto de estranhamento e encantamento tenha ajudado a despertar em mim a paixão pela arquitetura e pelas cidades. Eu estava diante de uma utopia — e fui capaz de reconhecê-la.
Brasília, no Brasil, e Chandigarh, na Índia, constituem os mais completos experimentos urbanos do modernismo. Concebidas na década de 1950 por Lúcio Costa e Le Corbusier, defendiam uma ideia poderosa: seria possível construir uma sociedade melhor por meio do desenho urbano. Cidades mais organizadas, mais saudáveis, mais eficientes.
Era uma aposta generosa.
Mas, entre aquilo que planejamos e a maneira como a vida realmente acontece, há tropeços — e, às vezes, abismos.
Ao separar rigorosamente moradia, trabalho e lazer, conectados por grandes eixos viários, essas cidades acabaram se tornando profundamente dependentes do automóvel. A vida cotidiana, aquela que acontece nas calçadas, nos encontros inesperados e nas pequenas misturas urbanas, nunca floresceu como se imaginava. E, ironicamente, surgiram formas de segregação que os próprios planos pretendiam combater.
Isso não significa que tenham fracassado em tudo. Pelo contrário. São cidades de enorme qualidade ambiental, generosas em áreas verdes e com uma identidade urbana clara e reconhecível.
Mas, como lugares de encontro e convivência espontânea, talvez tenham revelado os limites da própria utopia.
E isso não diminui sua importância.
Poucas vezes na história foi possível tirar do papel sonhos tão ambiciosos.
Curiosamente, considero que o maior legado da arquitetura moderna talvez esteja em outra escala. Não nas cidades idealizadas, mas nos edifícios inseridos na cidade real, imperfeita e cheia de vida.
Um desses símbolos é o Copan.
Projetado por Oscar Niemeyer nos anos 1950, ele representa uma das experiências mais fascinantes de habitação coletiva do modernismo brasileiro. Mais do que um edifício, é quase uma cidade vertical. Seus mais de mil apartamentos abrigam cerca de cinco mil moradores, convivendo com restaurantes, lojas, serviços e espaços de encontro.
Diferentemente dos conjuntos isolados, o Copan se abre para a rua. Seu térreo convida à circulação. Suas galerias pertencem tanto aos moradores quanto à cidade. Há quitinetes e apartamentos maiores, jovens e idosos, artistas, profissionais liberais e famílias inteiras compartilhando o mesmo endereço.
Existe uma ironia bonita nisso.
Enquanto Brasília materializou os princípios da cidade setorizada e dependente do automóvel, o Copan acabou se aproximando muito mais daquilo que hoje entendemos como uma cidade viva, diversa e feita para as pessoas.
É uma utopia que continua respirando.
Recentemente, tive a oportunidade de experimentar alguns dias ali. As plataformas de aluguel temporário transformaram essa aventura em algo acessível, a ponto de existirem agências especializadas em administrar dezenas de unidades no edifício. Um fenômeno contemporâneo que ainda busca conviver com a vida cotidiana dos moradores, e que, se seguir crescendo indefinidamente, pode sufocar a densidade e a complexidade que fazem daquele lugar algo tão singular.
O próprio desenho do prédio continua ensinando. É especial por ser exceção e não regra. Sua forma em S o torna um elemento isolado, o que garante melhor insolação, ventilação natural e vistas generosas. E seu térreo faz justamente o movimento contrário de tantos empreendimentos contemporâneos: não se fecha em si mesmo, mas abraça e se relaciona com a cidade.
À noite, deitada diante dos grandes janelões do apartamento, observando o horizonte iluminado de São Paulo, fiquei olhando os aviões cruzarem o céu.
E pensei em como é curioso o destino das utopias.
Algumas, como Brasília, nasceram para reinventar a vida e acabaram ensinando seus limites.
Outras, como o Copan, talvez tenham encontrado a vitalidade justamente por aceitarem conviver com a desordem, com as diferenças e com as imperfeições da cidade real.
Adormeci contemplando aquelas luzes e aqueles aviões — outra utopia humana que, apesar de todos os seus riscos, aproximou cidades, pessoas e experiências que antes pareciam impossíveis.
E me dei conta de que talvez as melhores utopias sejam justamente aquelas que aprendem a envelhecer sem perder a capacidade de surpreender.