
Ganhei de uma das minhas filhas uma placa de metal esmaltada. Nela, em letras firmes, lê-se: “Vengo de ríos que dan al mar”. Coloquei-a bem à vista do ponto onde me sento para escrever, transformando-a em parte do ar que respiro. Ela está ali para me lembrar, diariamente, que a arte existe porque a vida pura e simples não basta.
Como bem ensinou Ferreira Gullar, com a lucidez de quem atravessou grandes tempestades, a poesia e a beleza nascem do descompasso entre a realidade bruta e a nossa necessidade de sentido. A vida, em seu estado cru, rasga certezas, impõe ausências e nos confronta com o silêncio definitivo daqueles que amamos. Se dependêssemos apenas dos fatos nus para nos mantermos de pé, sucumbiríamos ao peso da gravidade. É aí que a literatura e a música pedem passagem — não como fuga, mas como tábua de salvação e instrumento para reescrever a existência.
A história do cancioneiro sul-americano guarda um testemunho límpido dessa força. Na véspera do Natal de 1985, o jovem Fito Páez viveu o golpe devastador da perda do pai. Um luto que reabria uma ferida jamais cicatrizada: o falecimento da mãe quando ele tinha apenas oito meses. Aos 22 anos, subitamente despojado de suas raízes terrenas, Fito encontrou na burocracia fria do inventário os objetos cotidianos — “Me dejó unos discos en el placard / un reloj de plata y un samurai…”.
Diante do abismo, o jovem rosarino não se rendeu à mudez. Pegou o teclado e traduziu a tragédia no ritmo fluido das águas do rio Paraná. Nasceu assim “Parte del aire”. Na canção, ele inventou um reencontro onde a finitude havia imposto uma separação: o pai e a mãe finalmente se acham na imensidão do cosmos — “Por la vía láctea se encontrarán / en algún planeta, en algún lugar…” —, livres e integrados ao infinito. Quando Luis Alberto Spinetta, lenda do rock argentino e referência maior de Páez, ouviu a faixa pela primeira vez, chorou e exigiu que ela integrasse o álbum conjunto La la la (1986). A comoção daquele mestre, acolhendo a alma ferida de Fito, mostrou que a dor individual do poeta havia se tornado um abrigo onde todos podíamos nos reconhecer.
Afinal, a trajetória dessa canção espelha a caminhada de cada um de nós. Diante do mistério, quando nos perguntamos onde vai a gente e seu coração, Fito responde abraçando sua própria ancestralidade: “…vengo de dos ríos que dan al mar”.
Nós também fluímos de rios que dão no mar. Venho do Paranhana e do rio dos Sinos, deságuo no Guaíba em direção ao oceano. Nossas vidas são alimentadas por correntes de afeto, memórias mantidas acesas e dores superadas pela imaginação. A arte nos ensina que a morte não tem a palavra final; a beleza tem.
Quando a realidade nos exige o impossível, a criação nos devolve o fôlego. Permite-nos olhar para a amplidão e aceitar que nossos amores não se perderam no nada — tornaram-se parte do horizonte, parte do ar que nos sustenta. E assim, navegando entre as margens do passado e do mistério, seguimos a corrente, certos de que sempre haverá um verso, uma história ou uma canção capaz de nos salvar.