
Sou um tipo desprovido de inveja. De verdade! E estou certo de que isso tem a ver com uma vida muito bem resolvida. Ofício: o que sonhei desde a adolescência. Filhos? Se eu fosse idealizar, não conseguiria projetar jovens espetaculares como são o Pedro e a Paula, com suas virtudes e inevitáveis dificuldades. Casamento? Ora, a afinidade e o companheirismo que eu e a Dione temos nos enfrentamentos da vida são o que sustenta uma relação e configura o que chamamos de amor.
Também sou um tipo avesso à competitividade. E aí está aquele que vejo como meu maior defeito. Como detesto um ambiente competitivo, acabo sendo “bonzinho” em demasia e, quando me dou conta de que estou sendo “ruinzinho” comigo mesmo e por vezes passando por otário, viro fera e trato de resguardar o meu espaço como um cão enfurecido. Sei bem que nunca me senti à vontade em ambientes corporativos tomados por vaidades e ambições. E já pus os pés pelas mãos.
A minha primeira experiência trabalhando sozinho, no apê/escritório em Buenos Aires (correspondente da Folha), foi reveladora, já há quase 30 anos. Concluí que era assim que eu gostava de trabalhar, no meu ritmo, prestando contas pra mim mesmo e estabelecendo meu ritmo. Adoro me organizar e me sinto desconfortável quando algo sai do meu script. Me sento diante do computador e faço o meu. Isso é qualidade? Não necessariamente. Já me prejudiquei por ser assim.
Vou confessar que cometo essas indiscrições justamente porque hoje trabalho em casa, escrevo meus livros, faço os meus projetos e nunca fui tão feliz na minha elaboração criativa, sem mandar nem ser mandado. Quando me sento diante do computador, as ideias baixam de algum lugar para a minha mente e automaticamente percorrem as minhas veias até os dedos. A coisa flui! E a isso chamo vocação, dom, diversidade. Somos diferentes, e isso nos enriquece.
Sou um convicto spinoziano. Pra mim, Baruch Spinoza AINDA está à frente do NOSSO tempo, por me explicar racionalmente a divindade. E, nessa linha, ao falar das vocações de cada um, ele defendia que as pessoas devem seguir a própria essência e força vital, o “conactus”. Viver de acordo com a própria natureza e buscar o que nos traz alegria e expansão é o caminho para a liberdade, o que se alinha muito à ideia de respeitar o próprio caminho ou vocação. E ser feliz.
Não acho que sejam acaso as minhas formações no Jornalismo e no Direito. E juro que repetiria ambas as faculdades, as únicas em que entrei, ambas concluídas no seu devido tempo. Também entendo os livros que escrevi, com forte teor identitário e de defesa da diversidade humana e do respeito às nossas lindíssimas diferenças. Eram uma necessidade, hoje eu entendo com a clareza que um dia não tive. Mas acho que esse assunto poderia ser um bate-papo numa próxima coluna.
O fato é que as escolhas profissionais precisam respeitar às vocações. E essa não é uma visão romântica, é pragmática. Se você tem facilidade e se sente confortável com o que faz, naturalmente as portas do mercado tendem a se abrir com mais facilidade. Perceba que estou falando de algo um tanto quanto pragmático. Pra mim, nenhuma profissão é tão linda quanto a médica. O médico lida com a vida, é um herói. E há as que dão alto retorno financeiro. Mas cada um no seu quadrado.
Mal pus o ponto final neste texto, um amigão da primeira infância me telefonou. É um cara com quem engatinhei junto em Capão e depois passei, também junto, por alegrias, turbulências e alucinações deliberadas. Ele se formou em Geografia sem vontade. Não curte ler. Mas é curioso, cheio de vida. Já viajou rigorosamente pra todos os cantos do mundo. Falou sobre o sol que via à beira mar, e pensei no meu sol diante deste teclado. E na pluralidade. Cada um é culto do seu jeito.
Na minha infância, ninguém fazia os exames e tinha certos diagnósticos correntes pra gurizada de hoje. Mas as minhas obsessões, a minha necessidade de auto-organização íntima e uma aversão gritante a gritos e excesso de barulho talvez indiquem que tenho alguma característica nunca verificada. Só não vou atrás disso porque realmente, à esta altura da vida, seria desnecessário. Chega um momento em que o cara aprende a se entender e a se respeitar. É o meu caso.
Sempre atribuí ao meu signo em câncer com ascendente em aquário (como essa conjunção me define!) as minhas características, de valorizar muito a família e o lar. É meio folclórico isso, porque nunca fui adepto da astrologia. Mas o fato é que alguns diagnósticos comuns e correntes fazem eu pensar que até posso ser um típico canceriano com ascendente em aquário (e entra aqui a minha natural e irredutível visão progressista), mas isso não basta para me explicar.
…
Pois então, chego aqui pra falar que, sim, tenho uma única inveja. E ela me surge quando uma unha encrava. Que vontade de ter os pés do Cascão, da Mônica e do Cebolinha! Que inveja deles! Ouso dizer que, ao desenhar os pés dos seus personagens sem dedos e unhas, aqueles pãezinhos redondos e fofos, o Mauricio de Sousa superou a obra divina. Por algum motivo, só o Chico Bento tem dedos. Algo contra a roça?! Ou é justamente porque o bendito Chico pisa direto sobre a terra?
Sei que essa declaração vai provocar muita polêmica.
Você me perguntará por quê. E eu responderei que espero as cartas iradas dos calistas.
Talvez façam protestos e me vaiem em frente à minha casa.
Já imagino um decálogo de slogans, alguns com rima, outros palavras de ordem:
“Calistas unidos jamais serão vencidos!”
“Mantenham o nosso dedo, a Mônica é um brinquedo!”
“Só um eu não enfrento, o companheiro Chico Bento!”
“Me bate, me chuta! Calistas vão à luta!”
“Removam o Cascão! Basta só um esfregão!”
“Inventaram o Anjinho, mas cadê o seu mindinho?”
“Como é que você ousa?! Abaixo o Mauricio de Sousa!”
“Vivam os calistas e que tu te cales!”
“Fora o apartheid das historietas!”
“Calistas do rio ao mar!”
…
Talvez desencadeiem um boicote à Turma da Mônica.
Quiçá parem de comprar cebolas.
Talvez até queimem revistinhas em passeatas. Incendeiem bancas no caminho!
Se fôssemos como o Cascão, o Cebolinha, a Magali e a Mônica, haveria uma profissão a menos. Seria pior que a própria IA! Mas, por outro lado, eu conseguiria continuar trabalhando sossegado em casa, com os meus pés redondinhos apoiados na mesa e com o computador acomodado no colo. E faria o jornalismo que acredito ser o do futuro, longe das vaidades, das competições e das buscas por likes, engajamentos e lucros desprovidos de conteúdo e responsabilidade.
Podem ter certeza de que eu os entendo, queridos calistas.
Não me queiram mal. É também a minha sobrevivência.
Shabat shalom