
Quando eu estava permitindo que a minha primeira filha conhecesse o mundo, há 35 anos, em um parto normal e doído, o telefone celular esperaria mais cinco anos para nascer.
Não houve registros do parto em câmeras de iPhones, que hoje se procriam mais do que qualquer mamífero.
Não foram registradas imagens de uma mulher de 23 anos, com touca hospitalar, sorrindo, com um serzinho avermelhado e borrachudo preso ao seu cangote.
Nada acontecia virtualmente, nada era postado, nenhuma vida era compartilhada, exceto com aqueles que se importavam de verdade.
O afeto, amor e realidade sem necessidade de exposição.
Sem competir, comparar, iludir, criar metas, registros, muitas vezes falsos, de sucesso.
E veio uma segunda filha, nova em folha, mas na mesma antiguidade tecnológica, em que estava fora de questão fazer festas de revelação e comparar o sucesso de um parto com o de outros recém-nascidos.
Então vieram homens e mulheres com vontades maiores do que simplesmente tentar ter uma vida plena e feliz.
Vieram as vidas fabricadas, as realidades cheias de máscaras, filtros, viagens perfeitas sem frustrações ou brigas.
Registros e mais registros de performances no trabalho, no esporte, no amor, nos vínculos, na condição financeira, no status, na forma como limpar o rosto, tratar dos cabelos, do corpo, da saúde, de acordar, de dormir, de cozinhar, de viver.
Até os infortúnios viraram postagens.
Pessoas em leitos de hospitais, em cadeiras para aplicação de quimioterapia.
As redes acabaram transformando ser visto em uma espécie de necessidade psicológica e social.
Receber curtidas, comentários e elogios ativa mecanismos de recompensa no cérebro.
É uma forma rápida de sentir: “eu importo, alguém me viu.”
E, quando vemos constantemente a vida dos outros, podemos sentir que precisamos mostrar que a nossa vida também está indo bem.
Surge uma espécie de competição silenciosa: “se todos estão mostrando, eu também preciso mostrar.”
Além disso, as redes permitem selecionar cuidadosamente o que os outros enxergam.
A pessoa pode mostrar uma versão muito mais organizada, feliz, bonita ou bem-sucedida de si mesma do que aquela que experimenta internamente.
A corrida de rua acabou sucumbindo a essa pressão e se contaminou.
Comecei a correr em uma época em que correr por prazer era estranho, pois as corridas aconteciam em pistas de corrida das escolas como parte das aulas de educação física, olimpíadas escolares ou eram provas feitas por profissionais de atletismo.
Os homens eram, em sua maioria, os principais participantes de maratonas.
Aos 15 anos, entrei no esporte, pois me sentia acima do peso.
Treinava na cobertura do apartamento da minha família e, em seguida, passei a ir para a rua, quando me senti pronta.
Eu não precisava de nada, além de um tênis, um short, um relógio (comum, sem cronômetro, sem medições de distâncias, calorias ou batimentos cardíacos) e muita vontade de suar.
Eu não dependia de companhia, de aulas, definições de horários ou dias.
Como todos que correm sabem, correr virou um vício e, aos 59 anos, ainda corro.
A corrida continua sendo um esporte inclusivo na sua essência, mas o ambiente ao redor dela ficou muito mais competitivo e consumista.
O pace virou uma espécie de “medida de valor”.
Em vez de “eu corro porque gosto”, aparece o “quanto você faz por quilômetro?”.
O ritmo, que deveria ser apenas uma informação do treino, acaba funcionando como marcador de desempenho e até de status.
As redes sociais transformaram treino em vitrine.
Relógios, mapas, medalhas, quilômetros e tempos são facilmente fotografados e compartilhados.
Aquilo que antes era uma experiência pessoal passa a ser também uma forma de apresentação de si.
A tecnologia criou uma corrida paralela.
Tênis com placas, espumas cada vez mais sofisticadas, relógios, sensores, métricas…
Tudo isso pode ser maravilhoso, mas cria a impressão de que, para correr bem, é preciso ter o equipamento certo.
E isso pode afastar justamente quem está começando.
A indústria descobriu que corrida vende.
A mensagem deixou de ser apenas “calce um tênis e vá correr” e passou a ser “você precisa deste tênis, deste relógio, deste suplemento, deste programa e desta meta”.
O esporte acaba se tornando também um mercado.
A comparação é particularmente fácil na corrida.
Em muitos esportes, você não consegue comparar diretamente o desempenho de duas pessoas.
Na corrida, existe um número muito sedutor: pace. 5:00/km, 6:00/km, 7:00/km…
É muito fácil transformar isso em uma hierarquia.
E existe uma coisa ainda mais sutil: a corrida oferece uma sensação de progresso muito objetiva.
Você corre 5 km, depois 7, depois 10. Faz 6:30/km, depois 6:10. Isso é motivador.
O problema começa quando o progresso deixa de ser seu e passa a ser uma comparação constante com os outros.
Mas a corrida não deixou de ser inclusiva.
Na verdade, talvez seja justamente isso que torna essa transformação um pouco paradoxal.
Uma pessoa pode começar a correr aos 50, 60 ou 70 anos.
Pode alternar corrida e caminhada.
Pode fazer 2 km.
Pode correr a 8:30/km.
Pode nunca participar de uma prova.
Tudo isso continua sendo corrida.
O problema é que o ambiente digital frequentemente mostra uma versão muito específica dela: pessoas jovens ou muito treinadas, corpos atléticos, equipamentos caros, grandes quilometragens e tempos impressionantes.
Isso cria uma espécie de “corrida idealizada”, que não corresponde à diversidade real das pessoas que correm.
E talvez exista uma perda importante aí: a corrida originalmente tinha algo de profundamente democrático.
Você não precisava de uma equipe, de uma quadra, de um adversário ou de uma habilidade técnica extraordinária.
Bastava sair pela porta e colocar um pé na frente do outro.
Uma pessoa correndo 3 km lentamente e outra fazendo 30 km em ritmo de elite estão praticando o mesmo esporte, embora o universo das redes sociais possa fazer parecer que apenas a segunda está “levando a corrida a sério”.
Em todos esses anos de corrida, investi mais em roupas bonitas e confortáveis, tênis que prometem maciez e conforto, relógio inteligente e óculos de sol que protegem os meus olhos.
Pouco me interessam as marcas; o que me interessa é entregar o que promete e o que espero.
Já caí na armadilha de registrar pace, tempo, de publicar histórico de distância e percurso, mas, quando me dei conta de que era algo feito para ser visto e não curtido por mim mesma, parei.
Não julgo quem o faz, pois cada um tem uma forma de se sentir motivado e existem pessoas mais competitivas que sentem prazer nos desafios.
Eu não.
Nunca corri em grupo e a única companhia que aceito, e agradeço, é a dos cães que eu mesma treinei a partir do momento em que completei 30 anos.
Participei apenas de duas provas em toda minha vida.
A corrida para mim é alegria, prazer, terapia, saúde e uma forma de eu acelerar o meu coração, suar, conhecer pessoas e interagir com a natureza que sempre amei.
Se hoje em dia eu fosse mais jovem e resolvesse ter filhos, o parto e o bebê também não iriam parar nas redes sociais.
Tem certas coisas que devemos guardar na mente e no coração.
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Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.