
Um apagão. Isso mesmo. A justificativa para lançarem uma jovem sem estar amarrada foi um lapso, um esquecimento momentâneo. Esse é o resumo da ópera de uma experiência em um esporte radical, que resultou na morte quase instantânea de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos. O acidente ocorreu em um salto de rope jump (similar ao bungee jump, mas feito com cordas estáticas que criam um movimento de pêndulo), no interior de São Paulo. A vítima caiu de uma altura de aproximadamente 40 metros após os instrutores esquecerem de prender a corda de segurança ao seu corpo.
Além de ser uma notícia chocante, fiquei me perguntando o quão humano foi esse erro fatal. Afinal, nesses tempos em que vivemos conectados, bombardeados de estímulos de todo tipo de tela, brancos e apagões têm sido algo “normal”. Escrevo isso com base em leituras e pela minha própria experiência.
É claro que a empresa que viabilizou a desgraça tem sua culpa. Mas realmente acredito que os caras envolvidos na empreitada não fizeram esse absurdo conscientemente.
Vale lembrar quantos outros descuidos provocaram vítimas. Pai que esquece filho dentro do carro fechado. Mãe desmemoriada que deixa de pegar o filho na escola. Enfim, há muitos exemplos de quanto esse nosso ritmo alucinante da sociedade do cansaço, conforme Han, tem provocado tantas situações surreais.
Somos vítimas dessa necessidade absurda pelo desempenho, pela pressão em dar conta de tudo. No caso da morte por arremesso da jovem, há muito a ser desvelado. Como é a jornada de trabalho daqueles que fazem esse tipo de serviço? Por que não adotam protocolos para esse tipo de atividade? Quem fiscaliza essa atividade? E tudo vira disputa política; a prefeitura do município quer processar o governo federal porque a ponte está abandonada.
Nem vou entrar na seara do que faz as pessoas quererem viver essas aventuras radicais, que é outro lado desse nosso momento de busca de prazer pelo risco. Essa situação toda me tocou profundamente porque já me arrisquei várias vezes quando era mais nova. Nunca me submeti a esse tipo de esporte radical, mas já me meti em situações que hoje, mais madura, fico pensando o quanto irresponsável fui naquela fase da vida.
Essa situação toda é um dos fractais do nosso momento civilizatório, em que tudo vira espetáculo para deleite de quem se move pelo prazer instantâneo da rolagem de feeds, reels, etc. das redes sociais. E como esse tipo de notícia, de postagem, dá visualização? Situações inacreditáveis são insumos para criação de notícias e postagens que geram engajamento. Eis outro lado dessa engrenagem da sociedade do espetáculo, como argumentou Debord. Já contou quanta gente morreu querendo fazer fotos para o Instagram?
E, no meio de tudo isso, muitos contextos que estão relacionados à nossa qualidade de vida, ao futuro e ao presente da humanidade estão passando batido, sem que as pessoas percebam que o perigo, de fato, vive ao lado da gestão de governantes que só se preocupam com as próximas eleições.
Um exemplo é o desmantelamento do licenciamento ambiental. Você tem ideia do que isso representa em tempos de mudanças climáticas? Outro é o oportunismo de gente que quer construir um porto em Arroio do Sal, em pleno litoral gaúcho, em uma planície costeira em linha reta que apresenta uma dinâmica natural que torna economicamente e ambientalmente inviável tal construção. Leia AQUI o que já escrevi sobre isso.
Há muitos outros exemplos que poderíamos citar… Será que estamos sofrendo um apagão proposital na imprensa dos riscos reais que corremos, que estão sendo impulsionados por políticos profissionais e pela necessidade do lucro a qualquer preço?
Enfim, estamos cercados de riscos. A questão é saber distinguir o que é uma opção pessoal e o que está sendo decidido sem que tenhamos noção do perigo que as empreitadas representam.
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