
No tempo em que os bichos falavam e até mesmo as pedras tinham algo a dizer, havia casas de gente que vivia nelas, há muito tempo. Há muitas gerações. Essa gente também falava – pasmem – entre si. Depois as casas foram substituídas pelos prédios baixos, os prédios baixos foram substituídos pelos prédios altos, as famílias migraram, e as conversas foram substituídas por pequenos aparelhos que entretinham as pessoas o dia inteiro, ou mesmo a noite.
A todas essas, outros sumiços vieram, incluindo o da figura do vizinho. Não que tenha propriamente sumido, pois as pessoas, inevitavelmente, continuaram vivendo perto umas das outras, no caso em cima ou embaixo, mas o vizinho se tornou anônimo. Perdeu o nome e desapareceu como referência conhecida. Aquilo da minha mãe, despreocupada com a falta de açúcar, pois a dona Alzira iria socorrê-la, desapareceu. Virou cada um por si. Cada um com seu sal e seu açúcar.
Mas sobrou o Mauro. O Mauro é o último reduto. O exemplar ou ser vivo remanescente de uma espécie em extinção. Ele mora no 901, e eu sei disso, desde que cheguei no 1201, quando ele se apresentou como o Mauro do nono andar. A essa altura, eu já sabia que a esposa dele se chamava Marta, a cachorra Frida, e os filhos, João, Ana e Antônia.
Por causa do Mauro, nunca fiquei sem açúcar.
Por causa do Mauro, nunca fiquei sem sal.
Por causa do Mauro, nunca fiquei sem pão.
E vice-versa, pois estou me referindo a emergências, não há abusos entre nós. Por causa do Mauro, nunca fiquei preso, e, aqui, é preciso explicar. Enquanto sumiam todos os vizinhos, a correnteza arrastava também os porteiros. Substituídos por máquinas, tornaram-se virtuais. Em vez da pessoa, um aparelhinho para abrir e fechar portas ou portões, pois, a essa altura, até as chaves tradicionais se escafederam. Mas nem os aparelhinhos conseguem ser completamente desumanos e, tal qual as pessoas, são feitos de materiais que desgastam. Dia desses, eu precisava sair para ir ao supermercado, e o portão não abria. Preso, sem sal nem açúcar, recorri ao Mauro.
Ele desceu prontamente e não demorou a fazer o diagnóstico. Pilha gasta, que ele mesmo trocou enquanto conversávamos. Sim – pasmem -, conversávamos. Ao descobrir que só me faltava pão, sal e açúcar, me passou um pouco dos três e, adiado o supermercado, a gente conseguiu conversar um pouco mais.
Sei que o Mauro é uma espécie em extinção e preciso me acostumar à ideia de viver num mundo sem ele. Acho que aguentarei a comida sem sal e o café sem açúcar. Difícil, senão impossível, será atravessar um dia inteiro em silêncio.
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