
Você consegue conversar tranquilamente com quem defende ideias opostas às suas? E com o marido ou a mulher? E com o chefe? Com aquela pessoa que você gostaria de convencer de que a sua ideia é obviamente a melhor? Como você costuma sair dessas conversas, inteiro ou arranhado? Conto aqui algumas cenas recentes e o que elas me deixaram pensando.
Tenho um sistema pessoal de classificação de conversas. Não é científico, é de sobrevivência. A primeira categoria é a dos “fanáticos”: aquela pessoa que tem uma fé inabalável em concepções contrárias às minhas. Com esses, aprendi a não entrar no campo minado. Discutir com quem quer me convencer a ser gremista é perda de tempo, de energia e, eventualmente, de amizade.
Depois vem a “categoria hierárquica”, como, por exemplo, a relação patrão versus empregador ou professor versus aluno. Aqui eu tomo muito cuidado. No primeiro dia de aula, aviso: a sala é um espaço seguro, discordar de mim será bom para o debate. Prometo isso e tento cumprir.
Neste semestre tenho um aluno apaixonado por energia nuclear. Quando cheguei ao tema das energias limpas e defendi solar e eólica, ele discordou, apresentando os problemas das outras fontes e as vantagens da energia nuclear. A conversa foi se tornando um pingue-pongue. Decidi não polemizar e abri para a turma opinar. Depois da aula, ele me procurou para continuar a discussão por mensagem. Esse é o preço de conduzir assim, mas vale a pena; quero alunos que pensem e tenham argumentos.
A terceira é a mais traiçoeira: a “conversa afetiva”: filhos, pais, cônjuges. Porque, quando existe intimidade, também existe um enorme arsenal de munição. Sabemos onde o outro é vulnerável. Conhecemos suas inseguranças, suas contradições, seus erros do passado. E, numa discussão, existe sempre a tentação de sacar uma dessas informações e dizer: “Ah, é? Lembra daquela vez em que você…”.
E, por fim, a “categoria dos amigos”. Essa deveria ser a categoria mais fácil. Afinal, são pessoas com quem temos afinidade, história e valores em comum. Só que não. Nesta semana, tomei um café com um amigo e uma amiga, dois queridos. Eles são amigos há muitos anos e têm enorme identidade ideológica e de valores. A conversa normalmente é descontraída, inteligente e divertida. Mas, desta vez, deu treta.
Ele fez um comentário dizendo que existem mulheres machistas. Ela respondeu que, embora ele não seja machista, pelo seu lugar de fala, não poderia fazer aquele comentário. O tom foi subindo e eu ficando tenso. Chegou um momento em que ela decretou: “Acabou a conversa, assim não dá para conversar!” Ele rebateu: “Isso diz mais de ti do que de mim.” Quando o silêncio finalmente pousou na mesa, arrisquei: “Vai ter outros cafés, ou esse será o último?” Os dois garantiram que estava tudo bem, que só tinham dito o que pensavam e que não guardavam mágoa.
Foi aí que procurei a minha amiga Vivian Laube, que criou o método “Vamos aprender a conversar”. A resposta dela foi cirúrgica: “Nenhuma conversa avança enquanto as pessoas não se sentem escutadas”. E escutar, segundo ela, não é ficar calado esperando a vez de falar para detonar o argumento do outro. É dar provas de que você está interessado na conversa. É repetir com as próprias palavras: “Então, você disse que …, é isso mesmo?”. E depois: “Na tua perspectiva, …… , correto?”. Só depois dessas checagens sobre os argumentos do outro é que você pode dizer: “Entendo seu lado, mas eu penso diferente por isso e por aquilo…”. Pronto. Ninguém precisa provar que está certo; só precisamos mostrar que podemos discordar sem desrespeitar.
Mas por que a gente não faz isso? Porque fomos treinados para a reatividade. Se alguém chama o outro de irresponsável, a reação é automática: “Você que é!”. Não fomos educados para a escuta, e sim para o contra-ataque.
A Vivian me indicou o vídeo de uma escola na Dinamarca que usa a “Comunicação Não Violenta” desde o jardim de infância. Uma menina reclama que o menino a segurou no chão enquanto ela tentava escapar. O menino se defende: “Mas ela não falou para parar”. A professora, em vez de punir, pergunta: “O que você acha que ela sentiu?”. Ele reflete: “Ela não gostou. Mas por que não disse nada?”. E, pasmem, ele mesmo pede para conversar com ela. A professora, hoje, não olha só para a vítima; ela pergunta: “Que dor esse menino carrega? Que necessidade ele está tentando suprir?”. E assim, sem gritos nem castigos, se constrói a paz.
Sinceramente, olhando para o Brasil, tenho a impressão de que regredimos. Voltamos àquele velho lema “não levo desaforo para casa”, só que agora turbinado pelas redes sociais, em que todo mundo quer lacrar em vez de conversar.
Seria possível fazer no Brasil algo parecido com a experiência dinamarquesa? Vale investir em empatia e cultura de paz desde a educação infantil? Quem toparia bancar essa aposta num país em que, muitas vezes, discordar é tratado como declaração de guerra? Uma sociedade se torna mais democrática quando aprende a ouvir aquilo de que discorda.
Veja que coisa curiosa, ninguém morre por estar certo, mas muita gente morre de solidão por não ser ouvida. Da próxima vez que alguém discordar de você, antes de abrir a boca para se defender, tente uma pergunta simples: “É isso mesmo que você quis dizer?” Pode parecer pouco, mas talvez seja uma das frases mais revolucionárias que você possa pronunciar esta semana. Porque, em tempos em que todos querem ter razão, talvez ouvir o outro seja a forma mais radical de manter uma conversa viva.
Referências:
– Vamos aprender a conversar. Vivian Laube.
– VL Comunicação e Desenvolvimento Humano.
– Escola na Dinamarca – Cultura de Paz na Escola com CNV – Por trás de cada ação há uma necessidade.
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