
2026, um ano que avança e inquieta. O ano está caminhando muito rápido na minha percepção. E carrega um fardo pesado se pensarmos que questões vitais para o bom viver da humanidade – de todos nós, em todos os sentidos – não se resolvem. As guerras explodem e escancaram a ambição desmedida, a crueldade e a loucura dos que se acham donos do mundo. O meio ambiente, cada vez mais desrespeitado, dá sinais contundentes de esgotamento e ninguém consegue deter os abusos. Recentemente, chuvas destruidoras invadiram o Nordeste brasileiro e, por aqui, voltaram a mostrar força.
Já na política, em um ano de eleições, os conservadores moralistas de plantão alimentam suas carreiras insistindo no bordão “Deus, Pátria, Família”, ao mesmo tempo em que ofendem e agridem trabalhadoras. Fiquei chocada com a atitude do senador Magno Malta durante um exame no DF Star, em Brasília, realizado no dia 30 de abril. Além de dar uma bofetada no rosto da técnica de radiologia que o atendia, chamou-a de “imunda” e “incompetente”. Fiquei chocada também com as palavras que fazem parte do repertório de um senador da República tão religioso e tão desrespeitoso!
Ele afirmou que houve falha no procedimento porque sentiu uma dor intensa. Contudo, isso justifica a violência? Claro que não justifica! O fato é que, assim, o poderoso vira mártir e a trabalhadora, ao relatar a agressão, vira um incômodo e tanto para os aliados.
“Ele ganha vídeo, oração e narrativa; ela ganha delegacia, exposição pública e suspeita”, escreveu o advogado Júlio Benchimol Pinto, doutor em Sociologia pela UnB, com pós-doutorados nas universidades de Oxford e Duke. “Mas uma coisa não pode ser enterrada sob aleluia de conveniência: dor não autoriza agressão, fé não purifica violência, mandato não transforma trabalhadora em serva, hospital não é púlpito. O Código Penal não se ajoelha diante de retórica religiosa”.
E o advogado segue: “A verdadeira batalha espiritual talvez seja separar fé de blindagem, autoridade de abuso, dor de licença para humilhar”. Lembrando sempre que Deus não tem nada a ver com a prepotência ou a covardia dos homens.
Já Malta, que faz carreira amparada em “Deus, família, crianças, pecado, inimigos e guerra contra forças obscuras”, usa um repertório moralista, preconceituoso e autoritário, dividindo o mundo entre puros e impuros, ungidos e descartáveis, de quem fala em valores na tribuna, mas, quando contrariado, trata uma mulher trabalhadora como coisa inferior. Quanto poder obscuro! E assim, mais uma vez, me deparo com atitudes absurdas que tumultuam os dias de hoje: “A facilidade com que certos homens rezam em público e esmagam alguém em privado”.
É fundamental apurar detalhe por detalhe, do prontuário às imagens, da postura da equipe à conduta agressiva do senador, além de ouvir testemunhas. O que sei é que a técnica foi afastada. Mais uma vez, a pergunta que fica é: em que mundo nós estamos vivendo?
Já passamos de todos os limites. Precisamos urgentemente buscar justiça, sem foro privilegiado para políticos e comparsas, especialmente aqueles que, fora do país, acham que podem interferir no governo. Até porque quem paga os salários dessa “casta” somos nós e queremos respostas íntegras e transparentes. O cenário que se descortina exige muita atenção porque os desafios que apresenta são preocupantes. Quem tem um cargo político não deveria legislar em causa própria, mas esse desvio é comum. Precisamos de ações que olhem para os trabalhadores e reduzam as tensões sociais sem apelar para manipulações costumeiras por meio das redes sociais e polarizações que não levam a nada. Onde está a maturidade desta gente? O que entendem por responsabilidade, ou só conseguem mesmo olhar para seus umbigos?
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