
Não mente quem diz a verdade desejada pela pessoa amada.
Ao longo da história, os filósofos empreenderam hercúleos esforços para definir a verdade. Não cabe aqui resgatar essas tentativas, seja porque seria uma tarefa muito extensa e maçante e, principalmente, porque existe um manualzão chamado Dicionário de Filosofia, escrito por Nicola Abbagnano, que já realizou esse esforço de forma magistral. Lá se encontram páginas e páginas sobre os modos como o conceito foi formulado, com citações em umas três ou quatro línguas, sendo duas mortas, todas versadas pelo erudito italiano.
Por aqui, acho que nos basta considerar o significado mais popular do termo, aquele que nos ajuda na vidinha de cada dia; que é ter por verdade aquela situação na qual a afirmação (o juízo) proferido sobre uma coisa qualquer corresponde à realidade dessa coisa. Por exemplo, a declaração “meu salário não chega até a última semana do mês” coaduna, insofismavelmente, com o fato da ausência de crédito (até para o mais modesto Pix) lá pelos dias 20, 21…, de todo mês. Isto é, o juízo “meu salário não chega até a última semana do mês” é verdadeiríssimo!
É bem verdade (desculpem a repetição…) que, em seu uso cotidiano, a constatação do encaixe da declaração ao fato é relativa às potencialidades da própria verificação. Tomemos o caso de se atestar que o café está quente ou frio, ou que o feijão está salgado ou não. A constatação sempre se complica quando se confunde com o que é gosto. Para esses eventos, sempre se pode apelar para os úteis marcadores de relatividade, que não precisam ser aqueles calculados por Einstein: basta expressões como “para mim”, “eu acho que”, para que toda complexidade da relatividade das análises comprobatórias convirja para um ponto de consenso. Em outras palavras, o fato de a veracidade do café estar quente “para mim” não significa que o café não esteja frio para a pessoa querida: dialético-hegelianamente, as duas máximas podem viver plenamente em harmonia; não precisa haver escolásticas disputas de tese.
Porém, a complexidade da relatividade se intensifica quando a asseveração proferida discorre sobre qualquer coisa do real cara à pessoa benquista que, por conseguinte, jamais será uma coisa qualquer! A pertinência da convergência harmonizadora de apreciações subjetivas cai por terra: para-mins e acho-ques, além de inúteis, a depender do momento de acionamento, podem ser recebidos como a introdução dos mais arbitrários juízos de autoridade. Nestas situações, não há a mínima condição metodológica de defender que a verdade seja aquilo que usualmente se acredita que seja: a correspondência de um juízo a um determinado fato. Isto é, agora, o juízo verdadeiro não tem que, necessariamente, corresponder à verificação e constatação que se possa ter de uma dada realidade. Por exemplo, a assertiva “essa roupa caiu bem” é legítima não porque empírica e esteticamente a determinada indumentária propicie uma experiência aprazível ao avaliador consultado, mas porque se sintoniza com o veredicto já proferido pela pessoa em questão.
Cartesianos positivistas certamente vão se opor veementemente a essa concepção de verdade; indubitavelmente, vão apontar o dedo inquisitório ao fato de se estar abandonando o lógico procedimento atestatório. Contudo, o que suas racionais insensibilidades não permitem entender é que o mais objetivo dos juízos não passa de palavras pronunciadas; porém, palavras podem enganar: o afeto não… O bem-querer é verdade em si, não precisa ser provado.
Portanto, não falta com a verdade quem diz para a pessoa amada aquilo que ela quer ter como verdade, pelo contrário: comparece com a verdade do seu sentimento com uma mentirinha…
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