
O termo “polarização” não me parece definir muito bem a natureza dos conflitos sociais que vivemos: concordemos que o Polo Norte não briga com o do Sul, nem o polo Positivo com o Negativo! Nossa sociedade sempre foi marcada por posições tendentes à radicalização violenta e irreconciliável, e isso desde nossa formação como Estado Nacional: liberais x absolutistas; escravistas x abolicionistas; republicanos x monarquistas; colonialistas x libertários; nacionalistas x “entreguistas”; autoritários x democratas; bolsonaristas x petistas; neoliberais x estatistas…, e aquilo que Sérgio Buarque chamou de nosso “bovarismo” (nossa propensão a nos avaliar muito positivamente: a “democracia racial” de Freyre, o “Homem Bom” de Cassiano Ricardo. O “Homem Cordial” do próprio Sérgio foi sempre muito mal interpretado!) deixou uma marca cultural em nossa autoavaliação. Somos a sociedade que produz os níveis mundiais mais elevados de homicídios, de feminicídios, de etnocídios, assaltos violentos…, com suas intolerâncias produzidas pela desigualdade e preconceito. Resumo: um país não apenas dividido, mas adepto da VIOLÊNCIA COMO MÉTODO.
É nesse sentido – de uma tradição social violenta – que vejo a grande dificuldade que se avizinha para uma “
” da política e da sociedade: ela não se acabará com os “bolsonaro” na cadeia ou desbancados moralmente; ela permanecerá como mobilização do indivíduo fragilizado, isolado e ressentido com as políticas sociais reparatórias e sentindo-se fracassado em suas esperanças de consumo e ascensão social.
Lembremos a “DESNAZIFICAÇÃO”.
Com o Acordo de Potsdam (1945), pode ter início o Julgamento de Nuremberg (1946), desvelando os horrores do Holocausto. Mas muitos nazistas continuaram a exercer cargos públicos e os livros didáticos alemães silenciaram sobre o período Nazista, mesmo com a obrigação de visitas “pedagógicas” aos campos de concentração pelos alunos, sob a ocupação dos aliados. Aliás, a desnazificação (“Entnazifizierung”) foi duramente contestada por Adenauer e o programa terminou em 1951, sob o argumento de que “não se coloca um povo no banco dos réus” (a “culpa coletiva” trabalhada por Jung, por Jaspers, por Thomas Mann).
Mas recordemos que a Alemanha detinha uma tradição cultural e educativa que fazia com que, já em 1880, ela tivesse apenas 1% de analfabetos! Sem falar da sólida tradição filosófica, literária, musical. Ela não passará pela experiência colonial, não conhecerá a escravidão interna, tinha um sistema escolar público e eficiente iniciado desde a Reforma (século XVI), um serviço público reconhecido e fora o berço da Universidade moderna (Berlim, 1810). Mas, claro, foi lá onde o Iluminismo francês (e seu culto da Razão e do indivíduo soberano de direitos) fora mais duramente contestado pelo Romantismo e sua valorização do passado, da natureza, do anti-individualismo burguês e do culto da Nação, da Raça, da Língua e da Tradição. Foi nesse caldo de cultura “anticosmopolita e antimanchesteriana” (Hitler) em que bebeu a experiência Nazista.
E o Brasil?
Aqui, nós vivemos a experiência colonial (um destino definido pela Metrópole), a escravidão negra, o oligarquismo antirrepublicano, o autoritarismo político, a ausência de sensibilidade democrática e igualitária e um sistema de ensino recente e ineficiente, incapaz de saldar nossa “dívida política”: garantir a formação de indivíduos com competência judicativa, comunicativa, argumentativa e decisória. Está arado o terreno que produzirá o preconceito, o ressentimento com políticas sociais, a aporofobia, a adesão a “teologias da prosperidade” e, claro, a ereção de mitos fantasiosos e irracionais. Esses potenciais adeptos estão numa classe média remediada, em grupos de profissão liberal (sobretudo médicos, apesar da idiotice antivacina!), pouco acesso à cultura escrita, crença no esforço empreendedor individual e, claro, ferozmente críticos da função reguladora do Estado.
Como educador, eu deveria acreditar que uma política pedagógica “desbolsonarizante”, quer dizer, capaz não apenas de mostrar quais são as qualidades, requisitos, exigências e vantagens da experiência democrática, mas também, o que significa viver num estado de exceção, em que o que há de “humano” em cada um de nós perde sua validade e nos tornamos “supérfluos” (H. Arendt), mas, retomando, acho que depositar na educação escolar essa imensa tarefa exige uma profunda revisão de nosso passado e, sobretudo, do que ele – o PASSADO – fez de nós.
Às vezes tendo a crer em Anatole France, quando dizia: “O passado é a única realidade humana. Tudo que é, já foi”.