
Naquela manhã de outubro, não tive vontade de sair da cama. Era como se tivesse despertado de um daqueles pesadelos que nos fazem revirar entre as cobertas, em agonia, até arrancar o lençol do colchão. Eu não queria enfrentar o que vinha pela frente. Por isso, demorei a abrir os olhos, na esperança de que a realidade ainda pudesse ser adiada. Quando finalmente olhei para a tela do celular, confirmei o que já temia: não havia sido um sonho ruim. Tudo o que acontecera na noite anterior era real.
Saí de casa seguindo o mesmo ritual de quase vinte anos. Percorri as mesmas ruas, cruzei com as mesmas pessoas, desviei dos mesmos automóveis. Tudo parecia igual aos outros dias. Por dentro, porém, eu carregava o medo de deixar escapar qualquer sinal capaz de revelar minhas últimas escolhas. A partir daquele dia, porém, nunca mais conseguiria olhar para algumas pessoas da mesma maneira, depois de conhecer melhor as ideias que defendiam.
Eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos jovens. O verso de Belchior atravessava meus pensamentos a cada notícia de violência que estampava os jornais. Eles venceram. E, com eles, avançavam o ódio à diversidade, a intolerância e o extremismo, ganhando proporções que, até pouco tempo antes, eu só tinha visto nos livros de história.
Eu temia que aquele governo trouxesse de volta os militares, a censura, as prisões arbitrárias e os desaparecimentos sem explicação. Tinha medo do retrocesso e dos fantasmas de um passado que julgávamos superado, mas que permanecia vivo nas páginas de Brasil: Nunca Mais e nos relatos dos sobreviventes de um dos períodos mais sombrios da nossa história. Temia que as feridas, ainda abertas, jamais cicatrizassem. Não por acaso, aqueles quatro anos foram alguns dos mais difíceis não apenas da minha vida, mas também da vida de tantas outras pessoas.
Foi um tempo sombrio. Como se não bastassem as declarações preconceituosas de um presidente que parecia governar apenas para aqueles que o apoiavam, enfrentamos uma pandemia que matou cerca de 700 mil brasileiros. Enquanto famílias perdiam seus entes queridos e os hospitais chegavam ao limite da capacidade, o presidente desacreditava a eficácia das vacinas e minimizava a gravidade da doença, referindo-se à Covid-19 como uma simples “gripezinha”. O mesmo presidente que, derrotado nas urnas em 2022, não reconheceu o resultado das eleições, passou a questionar a confiabilidade do sistema eleitoral e se envolveu em uma trama golpista para permanecer no poder. Em 2025, foi preso e responsabilizado judicialmente, assim como outros envolvidos na tentativa de golpe.
Eu acreditava que todo aquele histórico seria suficiente para afastar das urnas não apenas aquele presidente, mas também os políticos associados ao seu projeto de poder. Imaginava que a memória dos últimos anos, das vidas perdidas, dos direitos ameaçados e das instituições colocadas à prova pesaria na decisão dos eleitores. No entanto, a extrema direita continuava encontrando espaço para crescer, alimentada por uma rede de desinformação que oferecia respostas fáceis, distorcia os fatos e reforçava as convicções de uma parcela expressiva da população brasileira.
Agora, em 2026, as rédeas do país quase voltaram às mãos daqueles que haviam protagonizado os anos que eu tanto temia reviver. Quase entregamos novamente o país a um projeto político marcado pelo desmonte das instituições, pelo desrespeito à Constituição e pelo enfraquecimento dos órgãos públicos. Mais uma vez, estivemos diante da possibilidade de retroceder em conquistas que levaram décadas para serem construídas. E, mais uma vez, precisei lidar com a constatação de que muitos eleitores não viam nesses riscos motivos suficientes para rejeitar esse projeto nas urnas.
Quando vi a eleição quase decidida ainda no primeiro turno, desanimei. Pensei em entrar em uma espécie de clandestinidade digital, apagando minhas redes sociais e evitando qualquer outra forma de exposição. Queria deixar de me posicionar, abandonar as discussões e me entregar à mediocridade de uma existência sem luta, sustentada pela hipocrisia de baixar a cabeça para trabalhar, cumprir obrigações e aceitar em silêncio a negação de direitos. Mas minha essência e meu senso de justiça falavam mais alto. Eu não tinha o direito de desistir. Afinal, era esse o legado que eu desejava deixar às gerações futuras? O de alguém que, diante das dificuldades, escolheu o silêncio? Que tipo de exemplo estaria dando se confundisse paz com omissão e tranquilidade com conivência?
Foi então que me alistei em um exército. Sem empunhar armas ou vestir fardas, juntei-me a mais de dez milhões de pessoas na defesa da democracia. O Exército de Lula ocupou as redes sociais, enquanto a juventude somava forças nas ruas, levando às manifestações a disposição de lutar por um futuro menos desigual. A mobilização nas ruas e nas redes teve papel importante naquela vitória.
Depois da eleição, porém, a batalha não terminou. A polarização ainda invade os locais de trabalho, as relações familiares e os espaços de convivência. Empresários ameaçam demitir empregados que votaram em Lula, influenciadores incentivam seus seguidores a boicotar comerciantes de esquerda e o discurso de ódio continua circulando nas redes sociais. O que deveria ser apenas uma divergência política passa a interferir na vida de quem precisa trabalhar para sobreviver.
Há oito anos vivemos nesse inferno, mas me recuso a me acostumar com ele. Não quero achar normal o ódio, a intolerância e a perseguição a quem pensa diferente. Não quero perder a capacidade de me indignar diante das injustiças, nem me calar para evitar conflitos. Em 2018, eu morri um pouco diante do futuro que se anunciava. Em 2026, depois de tudo o que vivemos, decidi que não me entregaria ao medo. Se a democracia exige participação, a minha forma de contribuir continua sendo esta: militar pela palavra, escrever, questionar e não abrir mão daquilo em que acredito.