
Sean Penn acaba de ganhar um Oscar de melhor ator coadjuvante, mas ele não compareceu à cerimônia de premiação. Nenhuma novidade: Dudley Nichols já o tinha feito, na primeira metade do século passado, por questões trabalhistas da época, inaugurando a lista dos que viriam a recusar a cobiçada estatueta. Alguns, mais tarde, outros também o fizeram, como Marlon Brando. Mas Sean Penn o fez agora e, pouco depois, soubemos que estava na Ucrânia, visitando o presidente Volodomir Zelensky.
O ocorrido ou, ao contrário, o não ocorrido leva a refletir um tanto. A arte talvez seja o principal instrumento de mudança das pessoas, logo do mundo. Aguça sensibilidades, faz pensar, sentir, dizer e, salvo exceções (Hitler chegou a pintar quadros, e teve artista batuta que aderiu ao fascismo), costuma esbater insanidades desprovidas de qualquer senso estético. É remédio indireto dos mais potentes, sem efeitos colaterais. Um mundo sem arte seria um mundo sem oxigênio, no sentido concreto e figurado, onde só a morte triunfaria. A morte odeia a arte, talvez porque essa a mate: “escrever mata a morte”, conforme escreveu Romain Rolland, amigo de Freud. A rigor, não sabemos se mata de verdade, mas há de prolongar e melhorar as vidas. E não precisa ser arte engajada, militante, carregada de ideologia. Basta ser e já revoluciona quem somos. Literalmente, pois metaforicamente.
De acordo com o poeta Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta. Aí é que pode estar: não se pode fugir de uma realidade da vida, mas a arte permite o enfrentamento, quando essa realidade deixou de bastar, o que é frequente, senão permanente. Nichols recusou o Oscar em 1935, quatro anos antes do Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial, esse horror que corresponde ao pior massacre da história. Se há hoje Guerras suficientes para acabar em um só dia um mundo que já pode estar acabando pelas suas questões climáticas mal enfrentadas, pouco ou quase nada se falou sobre tudo isso na cerimônia de premiação, feita num país em Guerra.
Sean Penn não deixou de fazer arte. Segue firme em suas múltiplas atividades em torno dela e foi premiado como ator coadjuvante, justamente, por isso. Fora da Academia, o mais justo seria lhe premiar como um ator principal do nosso mundo. Ele jamais desistiu de prescrever este melhor entre todos os remédios para uma vida insana, lá onde ela é mortífera, sem arte. Mas a história da ausência do ator, no tapete vermelho de Hollywood, em meio aos desfiles de caros e esvoaçantes figurinos, pode ter sido a mais valiosa e permanente entre todas as presenças.
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