
Perto do final do longa Lawrence da Arábia, épico de 1962, dirigido pelo David Lean, um dos principais personagens diz a ele: “Conheço o seu coração”. Para quem não sabe, trata-se de um filme inspirado na obra autobiográfica Seven Pillars of Wisdom, do britânico T.E. Lawrence. Livro que não li. Meu pai não o tinha em sua biblioteca e, por algum motivo, provavelmente editorial, eu nunca o encontrei para ter na minha. A minha biblioteca é o coração da minha casa e da minha mente, o lugar em que muitos batimentos cardíacos se encontram.
Diz a ciência que um coração humano bate, em média, cem mil vezes por dia. Dependendo da quantidade de anos de existência, serão muitos milhões ou bilhões. Eu poderia parar de escrever para fazer umas contas e ter certeza, mas para quê? Com quem fim? “Mas com que fim Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas”, T.S. Eliot pergunta no poema Burnt Norton, referindo-se às palavras. A primeira vez que eu o li, eu estava entrando na adolescência. Encontrei por acaso em uma revista de ciências. Não faço ideia de que jornalista a redigiu. Na época, eu não tinha a mínima convicção sobre o que eu seria quando finalmente crescesse e aparecesse, duas coisas um tanto diferentes. Sabia, no entanto, algumas coisas.
Já sabia, por exemplo, que em meu coração não haveria abrigo para trevas, mesmo que o apocalipse me adentrasse e fizesse de mim o seu pântano de batalha. De um modo ou outro, mesmo com mortes e feridas, o meu destino não se submeteria a qualquer sorte que não fosse, dia a dia, produto também de minha racionalidade e força. Sou um animal mamífero que pensa, logo sente e existe. “Destino. Meu destino! Que coisa engraçada é a vida, esse arranjo misterioso de lógica impiedosa e propósito fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento de si mesmo, que vem tarde demais, uma seara de remorsos inextinguíveis”, Marlow, o narrador de o Coração das Trevas, do Joseph Conrad, diz. Se tem um livro que entendo como magistral, contendo muito mais que Fragmentos de um discurso amoroso, é esse. Não que eu não ache o livro do Roland Barthes relevante. É, mas apegado a concepções idealizadas de um coração e não ao núcleo do que nos move, une ou separa.
“Coração bifurcado”, cantava Jards Macalé. Não consigo ver essas palavras sem ouvir sua voz grave e lembrar que, se um coração faz sofrer, dois nos jogam em um vale de lágrimas. Cresci, ainda que meus pais não fossem católicos, ouvindo a expressão acima. Sei que, em uma perspectiva religiosa, ela se refere às crises e tristezas que viver implica. Quem nunca passou por uma fase difícil que fique calado para os deuses não ficarem com inveja! Minha mãe vivia com esse medo dos deuses. Acho que por causa do livro A Boa Terra, da Pearl S. Buck, escritora norte-americana criada na China, acordada enquanto dormíamos e vice-versa, provavelmente amando e sendo amada, desamando e sendo desamada como todos nós. Ou quase. Tem gente, dizem, sempre com o coração inteiro.
Do meu coração, em termos orgânicos, não me queixo. Duvido muito, ainda que minha avó paterna tenha passado por dois infartos, que o meu apronte comigo. Meu coração, amparado pelo meu estilo aeróbico de sobrevivência, nunca deixou de bater feliz. Já do ponto de vista figurado, lamento, nem sempre pude dizer o mesmo. Eu ia escrever um advérbio de modo para aumentar a dramaticidade, mas penso que consigo esse efeito sem ter de recorrer a medíocre recurso. Meu coração nunca serviu para exemplo de martírio. Não se trata disso. Apenas aquietou-se, desapegado durante um bocado de anos. Não sou, e não faço ideia do porquê, uma pessoa que ama com facilidade. Com facilidade, passo a querer bem. Talvez, nem isso. Que ele começa a estar mais vivo faz pouco tempo.
Alain de Botton, o filósofo suíço, que comecei a ler em 1997, com o Ensaios de Amor, escreveu uma série de livros sobre relacionamentos. Tantos que lá pelas tantas me cansei. Devo ter lido uns cinco. Em um deles, acho que em O Movimento Romântico, no capítulo intitulado Por Que Ser Amado?, Botton elenca sete razões. Algumas menos bonitinhas, para não dizer horrendas, do que admitimos, como o dinheiro. É do Nelson Rodrigues a frase “Dinheiro compra até amor verdadeiro”, ironia não percebida por quem costuma fazer dos sentimentos e do corpo transações comerciais e subestima a complexidade do território em que está se metendo. Em geral, um campo minado à espera de um passo em falso. Houve uma época em que eu tinha pena dos que davam. Hoje, acho merecido quando esses se explodem e até bem-feito. Não gosto dessas pessoas.
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