
É uma tarde fria na Escolinha onde o Professor Carlo trabalha. Enquanto se arruma pra sair, o telefone começa a tocar.
Atendo ou não, pensou. Acabou atendendo.
• Ciao?
• Bom dia, Seu Lancelotes?
• Si, Ancelloti, quem parla?
• Aqui é o Neypai, paitrocinador master do seu aluno, o menino Ney…
• Boa tarde, como posso lhe ajudar?
• É o seguinte, seu Lancelotes, tô sabendo que vai ter um passeio da escolinha de futebol pro campeonato das escolinhas de bairro lá em São Luiz do Bispo.
• Isso, daqui a algumas semanas.
• Então, seu Lance, posso te chamar de Lance, né? Fica mais fácil. Meu menino disse que ele não vai no passeio, que o senhor não chamou ele.
• Isso, senhor Neypai, eu vou levar os meninos mais capazes de vencer o campeonato que temos, apesar desse ano estar puxado, não tenho muitas opções.
• Entendi seu Lance, mas o meu filho é muito popular, todo mundo gosta dele, até quem odeia gosta dele no final, porque ele tá sempre nas redes sociais, né? Tem mais de mil seguidores só aqui no bairro.
• Entendi, mas o que isso tem a ver com ele jogar futebol e viajar com o time da escola?
• Tudo, Lance, tem tudo a ver. O menino joga muita bola, fez 2 gols no torneio ano retrasado…
• Verdade, Senhor Neypai, ele já jogou muita bola, mas faz tempo já, né? Ele andou relaxando.
• Seu Lance, ele até diminuiu o ritmo, mas sabe como é criança, começou a se distrair com os brinquedos e os amiguinhos e amiguinhas…
• Entendo, Seu Neypai, mas tem também o comportamento, muito difícil.
• Como assim, Seu Lance?
• Ele bateu num coleguinha, o Robin… A família até veio reclamar, quase deu confusão com a direção da escola.
• Sim, sim, eu sei e já resolvi tudo com o pai dele. Mas o que vocês não entendem é que meu menino não pode ser contrariado, afinal, quando ele tá com a bola, ninguém pode tirar dele, né? Senão ele fica pistola!
• Pois é Senhor Neypai, isso é outra coisa, ele não tem muita consideração com o grupo como um todo, só com a panelinha dele.
• Mas isso é coisa de menino, né Doutor Lance? Todo mundo faz isso, todo mundo cai, mas se levanta…
• Falando nisso, Seu Neypai, ele também se joga no chão e esperneia quando não consegue ficar com a bola, já virou piada entre os outros times e alguns colegas…
• Mas é isso Doutor Lance, ele é muito sensível, tem um coração de ouro e os amiguinhos adoram ele. Olha, o coleguinha, o João Pedro, disse que foi falar com o Senhor pra levar o Menino Ney junto na viagem da escolinha, que não quer ir se ele não for e pah…
• Eu entendo, Seu Neypai, mas já tomei minha decisão. Aqui o negócio é pequeno, mas é sério, eu não posso atender os pedidos de todos.
• Vai ser assim então, Seu Lance?
• Vai, não me dobro a pressões, sua, ou seja de quem for.
• Tá certo, quer jogar duro, vamos lá. Quem tá pagando a viagem sou eu, o paitrocinador master, então meu filho tem que ir.
• Seu Neypai, eu não aceito pressões… e nem tem mais lugar no ônibus fretado, alguém vai ter que ficar.
• Deixa eu terminar. Vou pagar um festão pra comemorar a ida. O senhor faz um grande anúncio no ginásio da escola, com comida, bebida e show de graça pra todo mundo. De quebra, renovamos seu contrato por mais 4 anos.
• Tá certo, seu Neypai, pelo bem dos meninos e da comunidade, o Menino Ney vai junto. Mas com uma condição: ele não vai jogar, nem sonhar em jogar. Ele vai como relações públicas, fazer selfie, fofoca e dar entrevista pros influencers e tiktokers. Combinado?
• Fechado. Muito bom fazer negócios com o senhor, Seu Lance.
Quando chega em casa à noite, Neypai é recebido pelo Menino Ney pulando e gritando:
• Deu certo, consegui, papai. Conseguimos. Que alívio. Vou na excursão da escolinha de futebol!!!
• Que bom, filho! Já avisou seu amigo João Pedro? Ele vai ficar muito feliz…
• Ah, não, pai, não tinha mais lugar no ônibus, então eu vou no lugar dele.
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