
Diante do destempero que estamos vivendo, mergulhar na leitura me acalma, me faz desvendar maneiras diversas de aliviar as tensões do cotidiano, olhar e enfrentar o mundo lá fora do jeito possível, sem exigir muito dos meus passos nestes tempos de intempéries rocambolescas. O que não tem solução, solucionado está, diz um ditado antigo. Mas sei que não é sacudindo os ombros que se resolvem as inquietações políticas, econômicas e sociais dos dias de hoje, provocadas por diletos filhos e adeptos de quem desgovernou o Brasil e, não contente, ainda debochou das dores do povo na pandemia. Então, vou navegando neste meio conturbado – que ao mesmo tempo me assusta e me faz rir – aprendendo com os livros, histórias e personagens instigantes que oferecem as autoras.
“Entre Marés”, da escritora Maria Helena Weber (Libretos, 2026), traz uma disputa amorosa fascinante ao desenrolar uma história que envolve o italiano Matteo, Chiara, esposa e mãe de seus filhos, e a brasileira Caetana, a outra. Há amor, há traição, há fidelidade, há sensibilidade, há ousadia, há verdade e há muita aventura nas relações que envolvem os três. Mas há, é claro, um macho bem-sucedido que acha possível equilibrar esta balança. É a vida entre as marés, que, assim como pode ser leve e apenas molhar os pés, pode derrubar e afogar. “Caetana e Chiara viveriam para disputar Matteo, que tinha a sedução dos artistas, de aparência forte, pálido de olhos azuis e, talvez, um amor fraco para cada uma”. E mais: “tinha o dom da ironia e se gostava irônico”. Já Caetana “vivía o hiato da espera como tecelã que nunca termina o tapete para colocar na porta da chegada”. E fico por aqui para não entregar as tantas outras emoções que atravessam as páginas do livro.
“As Sete Faces de um Anjo sem Trombeta”, novo romance da escritora carioca Lilian Dias (Editora Labrador, 2025), com ilustrações de Regina Corrêa, é um livro que revisei e fui ao lançamento em Porto Alegre no mês de março deste ano. A história acompanha os sete últimos dias da vida de Mundo, começando pelo último, uma segunda-feira, retrocedendo até a terça da semana anterior. “As segundas-feiras são difíceis porque ninguém gosta delas.” O livro traz memórias de uma vida que nos levam a meditar, de forma profunda e poética, sobre o mundo, o mundo de Mundo e o fim inevitável da vida.
“Dom Lixote e o Dragão que Cospe Lixo”, uma história de Kátia Cesa, ilustrada por Moa (2016), traz as aventuras de um herói reciclado ao enfrentar os vilões que ameaçam a natureza. O livro é livremente inspirado na história de “Dom Quixote de La Mancha”, personagem clássica da literatura universal, escrito por Miguel de Cervantes no século XVII. A leitura me emocionou muito, especialmente porque toca em uma questão fundamental nos dias de hoje: o lixo que produzimos e como descartamos. E a proposta gráfica da publicação, depois que eu entendi, me encantou. A história foi impressa em páginas que têm calendários do lado inverso, o que me provocou vários pontos de interrogação enquanto lia; até pensei que era uma desatenção imperdoável. Claro que não era! O livro foi todo impresso em papel reaproveitado. Ganhei de uma prima que mora em Caxias do Sul, a Loanda, que é amiga da autora, e escreveu em um bilhete: “Até que enfim estou postando no correio o livro. É pequeno, mas o conteúdo tem uma grandiosidade. Espero que gostes!” Gostei muito!
“Minhas Queridas e Outras Cartas”, de Clarice Lispector (Rocco, 2019), organização, introdução e notas de Teresa Monteiro. O livro, que recém comecei a ler, mostra várias faces da escritora que viveu muito tempo no exterior acompanhando o marido diplomata e buscava contato com a família, especialmente das irmãs, através das muitas cartas que escrevia em uma época em que os meios para a comunicação eram escassos.
E já na mesa das próximas leituras, o livro de Cíntia Moscovich, “Baleia Assassina” (Escrita Fina, 2026), lançado na noite de 19 de maio, na Livraria Paisagem do Moinhos Shopping.
A navegação segue!
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