
Quando minha avó voltou do hospital trazendo a notícia da morte do meu avô, as primeiras palavras que ouvi dela foram que ele sempre tinha sido “tão bom” para ela. Naquele momento, senti uma certa indignação. Esperava outro tipo de declaração. Queria ouvi-la dizer que o amava, que não saberia viver sem ele, essas frases clichês que costumamos associar aos relacionamentos amorosos. Eu ainda não entendia que aquele “era tão bom pra mim” era a forma mais sincera de amor que uma mulher da sua geração conseguiria expressar e o quanto aquela expressão estava carregada de significados.
Minha avó paterna foi, dentro das possibilidades do seu tempo, uma mulher à frente da época em que viveu. Sei pouco sobre sua juventude, mas as histórias que chegaram até mim bastaram para que eu compreendesse parte de sua personalidade. Nunca me pareceu uma mulher entregue ao romantismo maternal e tampouco correspondia à imagem da avó açucarada, que vive apenas para agradar filhos e netos. Ela conhecia os próprios limites e não hesitava em dizer não quando julgava necessário.
Sem jamais ter ouvido falar em feminismo, em plena década de 1940, minha avó tomou uma decisão que poucas mulheres teriam coragem de tomar. Rompeu um noivado para se casar com outro homem. Isso, por si só, já seria motivo suficiente para escândalo, mas o que tornou a situação ainda mais grave para a família do antigo noivo foi o motivo do rompimento: ela havia se apaixonado por aquele que deveria ser seu cunhado. O escolhido foi justamente meu avô, que traiu o próprio irmão ao se casar com a ex-noiva dele.
Aos meus olhos, meu avô realmente foi um bom marido. Mesmo sem demonstrações públicas de afeto, amava e respeitava a esposa. Não bebia, não saía com amigos e não se envolvia com outras mulheres. Apesar de uma relação enraizada no patriarcado, os dois viviam em harmonia. Era diferente das histórias que minha avó escutava das amigas e parentes, que passavam as tardes tomando chimarrão e desabafando sobre os próprios casamentos.
Educadas para servir ao marido e cuidar dos filhos, as mulheres do tempo da minha avó costumavam abrir mão das próprias vontades. Em muitos casos, o futuro era decidido no altar, através de casamentos arranjados que as deixavam entregues à sorte ou ao fracasso da união. Boa esposa era aquela que aceitava em silêncio as obrigações domésticas e conjugais impostas pelo casamento, mesmo quando já não havia espaço para desejos próprios.
Se hoje a mulher ainda é frequentemente responsabilizada pelo fracasso de um casamento, naquela época sequer lhe era permitido reclamar do homem com quem havia se casado. O matrimônio funcionava como uma espécie de loteria. Não que hoje seja tão diferente, mas, naqueles anos, restava apenas torcer para que a sorte estivesse a favor.
Nesse sentido, é preciso reconhecer que meu avô foi um bom marido para minha avó.
Trago à luz essa lembrança familiar para voltar a falar de A Casa dos Espíritos, obra que estou relendo a partir da série disponível na Prime Video. Clara e o seu casamento com Esteban Trueba, homem violento e autoritário, fizeram com que eu me lembrasse da minha avó e da relação que construiu com o seu “homem bom”.
Diferente da minha avó, Clara é uma mulher cercada por discussões políticas. Cresce em uma família na qual o voto feminino e outros direitos das mulheres são defendidos com convicção, especialmente por Nívea e, em certa medida, também por Severo. Ainda assim, toda a sensibilidade e a aura mística que a envolvem não são suficientes para afastá-la do destino de se casar com um homem cruel.
Nos episódios disponibilizados na quarta-feira, dia 6, a violência de Esteban, até então conhecida por Clara apenas em relação às outras pessoas, finalmente atinge o seu próprio corpo. Depois de machucar Blanca ao descobrir o relacionamento da filha com Pedro Tercero, ele agride Clara com um golpe no rosto, arrancando-lhe os dentes da frente. Decidida a nunca mais dirigir a palavra ao marido, Clara retorna à casa da esquina, que, após uma grande reforma, passa a acolher pessoas ligadas à magia e ao espiritismo. Blanca e o irmão Jaime também passam a viver ao lado da mãe, transformando aquele espaço em uma espécie de refúgio distante da brutalidade de Esteban.
Ao descobrir a gravidez de Blanca, Esteban vai até a casa da esquina procurar a filha e a esposa. Lá, afirma ter matado Pedro Tercero e tenta convencer Blanca a se casar com um homem que não ama, apenas para evitar o escândalo dentro da família. Clara, fiel à promessa de nunca mais dirigir a palavra ao marido, suplica à filha que não aceite um destino imposto pelos interesses do pai. Ainda assim, Blanca acaba se casando.
Mais uma vez, o destino de uma mulher é decidido por um homem. É justamente nesse ponto que a história de Isabel Allende deixa de falar apenas de uma família chilena e passa a dialogar com tantas mulheres latino-americanas que viveram relações sustentadas pelo medo. Hoje compreendo as palavras da minha avó quando disse: “Ele sempre foi tão bom pra mim.” Para uma mulher da geração dela, encontrar um homem respeitoso para compartilhar os bons e maus momentos da vida, já significava muita coisa.
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