
Há muito se fala da transição demográfica no país, em que deixamos de ser uma população jovem e rural e passamos a ser uma população urbana e envelhescente, quase envelhecida. Isso resultou no que se convencionou chamar de Tsunami Prateado, posto que hoje no Brasil, conforme dados do IBGE, brasileiros com 60 anos ou mais totalizam mais de 32 milhões de pessoas, representando 15,8% da população. Para se ter uma ideia, a idade mediana no país atingiu 35 anos em 2022.
Esse movimento se reflete em toda a sociedade.
Recentemente, uma pesquisa feita pelo Instituto Nexus, a partir de dados disponibilizados pelo TSE, repercutiu bastante na mídia sobre o eleitorado 60+. Entre outros dados, demonstrou a importância dele entre essa população, pois cresceu 74% desde 2010, muito acima da expansão geral do eleitorado brasileiro, que foi de cerca de 15% no mesmo período.
Os eleitores 60+
A pesquisa também revelou que, se em 2010 o país tinha 20,8 milhões de eleitores idosos, em 2026 já são 36,2 milhões. Por esses números, quase um em cada quatro eleitores brasileiros tem 60 anos ou mais, alcançando 23,2% do eleitorado nacional.
Acompanhando os dados do envelhecimento populacional em geral, há uma tendência de “feminização” do eleitorado, já que as mulheres seguem vivendo, em média, 6 anos a mais que os homens, representando 56% da população idosa do país.
A Nexus aponta que, dos 32,9 milhões de pessoas 60+ que poderiam votar nas últimas eleições federais, 21,6 milhões estiveram presentes no primeiro turno, uma taxa de comparecimento de 65,5%. Se levarmos em consideração apenas os brasileiros de 60 a 69 anos, cujo voto ainda é obrigatório, esse percentual sobe para 85,7%.
O percentual é maior do que a média geral de comparecimento da população no primeiro turno das eleições passadas, quando 79,1% dos eleitores aptos a votar foram às urnas. Já entre os maiores de 70 anos, para quem o voto é facultativo, esse número cai para 41,1%.
O percentual de abstenção dos maiores de 60 anos diminuiu nas últimas três eleições. No mesmo período, as abstenções do eleitorado brasileiro em geral aumentaram.
As regiões Sul e Sudeste se consolidam como principais polos de protagonismo da Geração 60+ nas eleições. Em todos os estados dessas regiões, no mínimo, 23% da base de votantes poderão ser compostas por pessoas desse grupo nas eleições de outubro. O Rio Grande do Sul lidera o ranking nacional com 29,3%, seguido por Rio de Janeiro (28%) e Minas Gerais (26%).
Fica claro pelos dados que o eleitorado 60+ é altamente engajado e participativo. Pela minha experiência, as razões dessa participação são diversas e baseadas na experiência individual. Minha hipótese é de que as pessoas mais velhas vivenciaram toda uma série de eventos históricos e políticos no país, assim como uma série de eleições desde a nossa abertura democrática, adquirindo uma visão cidadã da diferença que seu voto possui e, por consequência, compreendendo sua importância, valorizando sua presença na urna.
Esses dados são expressivos e demonstram a força eleitoral da população idosa numa eleição em que poucos milhares de votos podem decidir uma eleição.
Imagino que equipes de marketing das campanhas políticas devem estar se aprofundando para poder entender melhor o perfil desses eleitores e como melhor se comunicar com eles, com a finalidade de buscar seus votos. E o meu receio é que pare por aí.
Afinal, dessa maneira, esse eleitorado se torna um “target”, participantes de pesquisas em grupos qualitativos e quantitativos, personagens em filmes e nas redes sociais. E, talvez, aquela estratégia de campanha que souber trabalhar melhor será recompensada com os louros da vitória.
O que vemos é que, enquanto as pessoas idosas se tornaram uma força eleitoral decisiva, elas ainda não conseguiram transformar isso em força de pressão política capaz de garantir que candidatos incluam em seus programas políticas públicas que vão além das velhas e já batidas propostas de revisão da previdência privada ou manutenção do salário mínimo para aposentadorias, e sejam abrangentes e olhem para temas importantes como proteção, cuidado, mobilidade, moradia, renda, saúde e vida digna.
Quero acreditar que isso é processo.
Por enquanto ainda vivemos num mundo em que a gente procura “estar bem pra idade”, “ser jovem de espírito”, com receio de se olhar no espelho e descobrir cabelo branco, ruga, mancha, estria, marcas que denunciem a nossa idade, pois “velho é o outro”. E isso tem nome: idadismo.
A idade é uma das primeiras coisas que observamos numa pessoa. E o idadismo é a maneira como pensamos, como sentimos ou como agimos com base na idade, dirigido a qualquer pessoa ou a nós mesmos.
Num contexto em que lutamos para manter nossa “jovialidade”, essa realidade idadista diminui a pressão sobre políticos com relação às pautas importantes para a população 60+. Uma sociedade com muitas pessoas idosas votantes, desarticuladas, é uma coisa. Uma sociedade com muitas pessoas idosas votantes fazendo pressão é outra, bem diferente.
Enxergo que, para que essa força de pressão política possa ser exercida, seria necessário existir uma sociedade que tivesse orgulho de sua velhice, reconhecesse vigor nisso e validasse as necessidades para que a população 60+ pudesse exercer sua potência. Então, sim, teríamos grupos de pressão política do eleitorado 60+ por políticas públicas nas áreas da mobilidade, cuidado, geração de renda, educação, etc.
E, como utopia, os mais jovens se uniriam aos mais velhos, tornando essa uma luta de todos. Pois queremos viver mais e, com certeza, com qualidade de vida. Por isso, os mais jovens entenderiam que lutar por uma velhice potente e digna é uma luta deles, que um dia envelhecerão.
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