
Não é preciso ver o incêndio para respirar uma floresta em chamas. Basta que o vento sopre em determinada direção — aquela que leva uma nuvem de fumaça por centenas, às vezes milhares, de quilômetros, até a janela de alguém que jamais viu uma árvore queimando. A crise climática não chega apenas com a floresta destruída ou com a enchente que vemos na televisão. Ela adentra nossos pulmões.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) acaba de confirmar o que a experiência recente já sugeria: a melhora na qualidade do ar, obtida a duras penas com controles sobre carros, indústrias e combustíveis poluentes, corre o risco de ser anulada por incêndios extremos e ondas de calor cada vez mais frequentes. Não se trata de duas crises paralelas — uma do clima, outra da poluição. São aspectos do mesmo processo, que se alimentam mutuamente.
A fumaça que não respeita distância
Quando a vegetação queima, libera uma mistura complexa de gases e partículas. Do ponto de vista da saúde pública, o componente mais perigoso é o PM2,5: partículas com menos de 2,5 micrômetros, pequenas o bastante para ultrapassar as defesas das vias respiratórias, alcançar os alvéolos e chegar à corrente sanguínea. Durante episódios extremos de fogo, sua concentração pode atingir de dez a vinte vezes os valores recomendados pela Organização Mundial da Saúde.
Não é só uma questão de ardência nos olhos ou tosse durante alguns dias. A exposição à fumaça desencadeia crises de asma, agrava doenças pulmonares crônicas e aumenta o risco de eventos cardiovasculares. Seus efeitos, porém, não se distribuem por igual. Crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas e trabalhadores que não podem interromper o expediente ao ar livre enfrentam maior risco. Quem mora em uma casa sem vedação adequada ou ar-condicionado — como quase sempre ocorre nas periferias das grandes cidades — dispõe de menos proteção justamente quando mais precisa dela.
A fumaça também é uma viajante contumaz. Em 2023, os incêndios do Canadá tingiram o céu de Nova York e, pouco depois, atravessaram o Atlântico. Em 2024, mais de 44 milhões de acres da Amazônia brasileira queimaram, e plumas de poluentes alcançaram regiões muito além da área devastada [3]. O fogo deixa de ser um problema de quem vive ao lado da mata. Torna-se um problema de quem respira na mesma atmosfera.
A fábrica química urbana
Há um segundo agente agressivo, menos visível, mas igualmente importante: o ozônio troposférico. Não é o ozônio estratosférico, aquele que forma a camada protetora contra a radiação ultravioleta. Perto do solo, ele resulta de reações entre poluentes precursores – como a fumaça das queimadas ou o escapamento dos veículos – sob luz solar intensa. Quando o calor aumenta, o ar fica parado e o sol incide com força, uma cidade pode funcionar como uma fábrica química a céu aberto.
Por isso, ondas de calor não são apenas dias mais desconfortáveis. Elas favorecem a formação e o acúmulo de ozônio, que inflama as vias respiratórias, compromete a função pulmonar e prejudica lavouras e ecossistemas. A OMM alerta que a maior exposição a esse poluente pode provocar dezenas de milhares de mortes prematuras adicionais.
Há um ciclo vicioso nisso tudo. O aquecimento produz secas e cria temporadas mais propícias ao fogo. Os incêndios, por sua vez, lançam na atmosfera dióxido de carbono, metano, óxido nitroso, carbono negro e outros poluentes. Ao se depositar sobre neve e gelo, a fuligem escurece a superfície, reduz a reflexão da luz solar e acelera o derretimento. O ar poluído não é apenas consequência do planeta aquecido. Ele ajuda a aquecê-lo ainda mais.
Estudos reunidos pela OMM indicam que eventos extremos de fumaça triplicaram globalmente desde os anos 1990 e podem ter contribuído para quase 100 mil mortes adicionais por ano entre 2010 e 2018. A cifra deve ser lida com o cuidado que se deve ter com estimativas globais, mas revela a escala de um dano que os sistemas de saúde ainda costumam tratar como excepcional.
O Brasil já respira esse efeito
No Brasil, a relação entre fogo e saúde já foi comprovada. Uma pesquisa que analisou mais de dois milhões de internações cardiorrespiratórias, entre 2008 e 2018, encontrou associação entre ondas de fumaça de incêndios e aumento médio de 23% nas hospitalizações por doenças respiratórias e de 21% nas circulatórias [5]. No Norte, o aumento estimado das internações respiratórias chegou a 38%.
Os dados, por outro lado, também mostram que o problema tem solução. Em 2024, municípios do arco do desmatamento registraram até 138 dias consecutivos com concentrações acima do valor-guia anual da OMS para PM2,5. Em 2025, a exposição caiu de forma expressiva, acompanhando a menor extensão e persistência do fogo [3]. Isso demonstra que o cenário não é inevitável: o controle do desmatamento, a prevenção e as condições meteorológicas alteram a qualidade do ar que chega às casas.
Mas a melhora de um ano não é licença para desatenção. A queima de biomassa contribui de forma importante para a formação dos precursores do ozônio no país; durante episódios de poluição, os incêndios podem responder por 23% a 41% do ozônio medido. A floresta incendiada e o automóvel preso no engarrafamento participam, por vias diferentes, da mesma química que irrita os pulmões.
Tratemos o ar pelo que ele é
Precisamos começar por uma mudança de vocabulário. Fumaça não é “névoa”; qualidade do ar não é assunto secundário de meio ambiente; incêndio não termina quando as chamas são apagadas. Cada episódio de poluição extrema deveria acionar uma resposta de saúde, educação, assistência social e defesa civil — e não apenas a contagem de focos de calor.
O Brasil já possui instrumentos úteis. O programa Vigiar cruza dados de poluição e saúde, identifica territórios e populações expostas e oferece estimativas de mortalidade evitável; o Ministério da Saúde divulga informes sobre fogo, PM2,5 e grupos potencialmente afetados. Essas ferramentas precisam orientar a atenção básica, garantir medicamentos disponíveis, informar escolas e proteger trabalhadores expostos. Em dias críticos, a população deve acompanhar alertas, evitar esforço físico ao ar livre e usar máscaras PFF2 ou N95 bem ajustadas, quando for indispensável sair — especialmente os grupos mais vulneráveis.
Mas nenhuma máscara substitui o ar limpo. A verdadeira prevenção começa antes da fumaça: proteger florestas, conter o desmatamento e a queima ilegal, manejar o fogo com inteligência, ampliar o monitoramento atmosférico e substituir combustíveis fósseis. Clima e qualidade do ar são uma só agenda porque ambos dizem respeito a uma necessidade elementar. Não há política ambiental mais pertinente para cada um de nós do que garantir que cada respiração não seja também uma dose de veneno.
Nota
A base para essa coluna foi uma colaboração do autor para o jornal Correio Braziliense, em matéria da repórter Isabella Almeida, que você pode acessar aqui.