
É urgente que me detenha em colocar em tela nossa história recente e os desafios que nos batem à porta quando se avizinha uma nova eleição democrática, sobretudo a utilização do slogan Deus, Pátria, Família, que congrega temas fundamentais de nossa cultura. Este é um momento de escolhas fundamentais para o presente e o futuro do Brasil.
Tal propósito me conduz a recapitular rapidamente o movimento dos anos 30 com a emergência da ideologia dos “camisas verdes” na defesa de um Estado Integral com regime de partido único e poder centralizado. O movimento organizou-se formalmente na Ação Integralista Brasileira, sob a liderança de Plínio Salgado, que, no dia 7 de outubro de 1932, lançou seu famoso Manifesto, do qual divulgo o introito: “Deus dirige os destinos dos povos. […] O homem vale pelo trabalho, pelo sacrifício em favor da família, da Pátria e da Sociedade. […] toda superioridade provém de uma só superioridade que existe acima dos homens: a sua comum e sobrenatural finalidade. Esse é um pensamento profundamente brasileiro, que procede das raízes cristãs da nossa história e está no íntimo de todos os corações”. (Manifesto de 7 de outubro de 1932 – Trindade, 1979). O integralismo foi um movimento político de extrema-direita inspirado no fascismo europeu (Trindade, 1979), compartilhando com ele e com o nazismo o ultranacionalismo, o anticomunismo e o autoritarismo. Seu lema: Deus, Pátria, Família.
Março de 1964, mais precisamente dia 19, segundo as gazetas de então, cerca de 500 mil pessoas se aglutinaram em São Paulo, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. (Presot, 2004). Uma resposta direta ao comício realizado pelo presidente João Goulart, no qual anunciou as almejadas Reformas de Base. Consta que o acontecimento foi organizado por grupos conservadores, associações femininas, setores da Igreja Católica e contou com apoio de políticos como o governador paulista Adhemar de Barros. Protestando contra o “comunismo ateu” do mandatário brasileiro, os manifestantes clamavam por intervenção militar. Eles esbravejavam contra o perigo da ameaça comunista, segundo as elites e classe média que passaram a mobilizar todo o país. Sendo a marcha do Rio de Janeiro, em 31 de março daquele ano, uma comemoração pelo êxito do clamor golpista, consolidado pelo general Olímpio Mourão Filho (CPDOC/FGV), que, em nome de Deus, da Família e da Liberdade, se adiantou à conspiração contra Goulart e, ao som dos sinos da Candelária, colocou tanques de guerra nas ruas e depôs o governante (D’Araújo, 1994). O que restou do enredo, bem o sabemos: 21 anos de cruenta ditadura militar.
O capitão reformado, hoje presidiário, Jair Bolsonaro, esteve presidente do Brasil de 2019 a 2023. Período marcado pela ocupação de milhares de militares em cargos públicos e pela defesa ostensiva da ditadura militar de 1964. Momento em que o governante utilizou seu lema de campanha “Deus, Pátria, Família” para justificar atos e políticas conservadoras (Souza, 2023).
Em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito democraticamente 39º Presidente do País. Desolados, conservadores brasileiros promoveram uma estrondosa tentativa de golpe, quando, ensandecidos, vilipendiaram o patrimônio nacional erguido na Praça dos Três Poderes. Os atos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília relacionam-se ao lema “Deus, Pátria e Família” por meio da retórica ultraconservadora e da mobilização ideológica de apoiadores do bolsonarismo. Esse mote serviu de base para discursos de polarização e questionamento institucional.
Não se deve celebrar a independência deixando de lado a memória de nossa recente história. Recordo Miracapillo na mensagem proferida ao povo de Ribeirão/PE, durante a passagem de 7 de setembro de 1980: “A independência somos todos nós, quando crescemos como povo em liberdade de participação. Quando temos os direitos respeitados. Quando lutamos contra a marginalização, que é a negação do bem comum. “Quando podemos escolher com liberdade os nossos governantes.” Chamado de “nocivo” e “indesejável”, o padre foi expulso em plena ditadura. Outra referência é Dom Hélder, na ocasião em que, no muro diante da sacristia da Igreja das Fronteiras, onde morava, defensores da ditadura rabiscaram em letras garrafais: “ame-o ou deixe-o”. O prelado, com a serenidade de sempre, respondeu: “Eu amo tanto que jamais o deixarei”.
Posta essa breve e necessária digressão histórica. Detenho-me sobre o mantra da direita: “Deus, Pátria e Família”, visto que permanece nos interrogando quando somos instados a defender nossa soberania e assegurar eleições transparentes e éticas. As duas são sinalizadoras de nossa independência. Sobre a primeira, já me detive em artigo de julho passado deste mesmo ano. Me ocuparei, no momento, em demonstrar que, para além de um viés puramente conservador e colonialista, precisamos pensar bem sobre as coisas que dizemos e defendemos.
O sufrágio outorgado aos políticos nas próximas eleições de outubro é um direito e uma obrigação de todo o eleitorado. Todos temos liberdade de decisão e ação segundo nossa consciência. Entretanto, um critério razoavelmente salutar seria escolher candidatos comprometidos, no mínimo, com políticas públicas que visem ao bem da nossa população e ao respeito de seus indeclináveis direitos.
Uma coisa a insistir é que não podemos renunciar aos símbolos de nossa pátria, pois eles pertencem a todos nós. O verde, o amarelo, o azul e o branco simbolizam as paragens que nos dão colo. A bandeira, o brasão, o Hino Nacional são patrimônio de nossa gente. Não simbolizam essa ou aquela ideologia, não são posse de partido, grupo ou facção. Não é possível aceitar passivamente o sequestro dos signos que nos representam. O mais grave: a violência simbólica perpetrada contra o cidadão no uso recorrente e abusivo do slogan “Deus, Pátria, Família”.
A prece que todos aprendemos em tenra infância reza que Deus é Pai nosso. Nosso! Não tenho notícia de que o nazareno tenha sugerido dizer “Pai meu”. O Pai é nosso! De todos nós, com nossas peculiaridades e limitações. Somente a Ele compete nos julgar. Não há melhor, nem pior. Todos somos iguais diante d’Ele, que é Deus dos vivos e dos mortos (Mt 22:23), Deus, que escolheu revelar seu carinho aos pequeninos (Lc 10:21). Esse que trouxe a todos à existência e os ama de maneira incondicional; por todos, deixou-se assassinar por dominadores e conservadores de sua época. Tal divindade jamais compactuaria com a militarização de uma nação, com um negacionismo genocida ou com a propagação de fobias contra raças e religiões.
Marcel (1945) postula que somente pela via do amor se caminha para Deus. Leão XIV apresenta Deus como um Pai generoso e um aliado que convoca toda a humanidade à amizade. Propôs o Dalai Lama (1994) que Deus é “uma das ideias mais poderosas para o desenvolvimento do altruísmo e da compaixão.” Em Medellín (1968), declaram os bispos: “o mesmo Deus que a todos cria, sustenta e ama, é aquele que, na história, defende os direitos dos fracos e dos pobres e derruba os poderosos de seus tronos”. Para Gutiérrez (1971), teólogo peruano, “o Deus da Bíblia é um Deus que toma partido pelos pobres. Não porque eles sejam necessariamente bons, mas porque são pobres e vivem uma situação de injustiça que é contrária à vontade divina.” Logo, não há como usar o nome de Deus para a discriminação, para a defesa de uma postura de prévio julgamento das pessoas, de justificação de um conservadorismo excludente. Não há um melhor que o outro. Não há religiões, nem gêneros, nem nacionalidades, nem igrejas, que sejam maiores que Deus ou que tenham a prerrogativa de se colocar acima de todas as demais.
Devo, contudo, respeitando a delicadeza do tema, dizer ao amigo/a que esta concepção acima declinada é absolutamente minha, sem o intento de buscar convencer ou doutrinar ninguém. É evidente para mim que o fenômeno religioso pode ser interpretado por diferentes tradições e de maneiras distintas.
A Pátria é nosso chão. Nela realizamos o sentimento de pertencimento a um povo, desenvolvemos laços de bem-querer, recebemos o legado de uma cultura que iremos preservar e reconstruir no cotidiano de nossas vidas. Bilac admoestou as juventudes, conclamando-as a amarem, “com fé e orgulho”. Disse o grande Cícero — que viveu em 45 a.C. — que a pátria é o lugar onde encontramos a paz, a virtude e o bem-estar. Replicando Marco Pacúvio, declamou “Ubi bene, ibi patria“, — “Onde está o bem, aí está a pátria”. Uma pátria traduzida no pluralismo de sua gente, de suas línguas, de suas culturas, de um povo intenso e potente que bane para distante o nacionalismo que, quando transformado em ideologia, pode converter esse pertencimento em exaltação da nação, estabelecendo fronteiras entre “nós” e “os outros” e, eventualmente, justificando a exclusão.
Gelner (1983), como os demais defensores da ideia de que pátria é uma construção social, discorreu que “os seres humanos pertencem a uma nação assim como pertencem a uma espécie biológica. […] Ter uma nação não é um atributo inerente da humanidade, mas aparece, agora, como tal. Um homem deve ter uma nacionalidade, assim como precisa ter um nariz e duas orelhas”. Se a ideia de estarmos irmanados cultural, política e territorialmente no tempo-espaço que denominamos Brasil está correta, não será errado compreendê-lo como nosso. Com seus símbolos e riquezas. É inadmissível manipular o sentimento patriótico para atender a interesses escusos. A audácia maior foi sua colocação à disposição, denotando uma falsa posse.
Família é vínculo, é terra de crescimento amoroso, relacional. Família não depende de nossa definição sexual ou do gênero que habitamos. Família aconchega-se em afeto, em referência. Na certeza de olhar adiante e saber que estamos sendo cuidados por pessoas que não colocam condições prévias nem exigências estapafúrdias. Martha Nussbaum (2013) enxerga na família uma instituição política que “deve ser moldada por princípios de justiça que garantam o desenvolvimento pleno de todos os seus membros e o cuidado com a vulnerabilidade humana.”
Ocorre que a visão conservadora da família, alegada como argumento de defesa dos valores morais e da religião, tem assumido a aura de um dogma inatacável. Muitas vezes ficamos entre o deboche e a idolatria. Vigora uma perspectiva heteronormativa de organização social, em que o arranjo familiar biparental heterossexual figura acima de qualquer outra possibilidade de composição familiar. Este molde tradicional ignora que os verdadeiros pilares da família estão para além da rigidez da consanguinidade ou da determinação sexual dos pares.
A concepção de família vincula-se ao mundo social e ao mundo das relações humanas. Há um redimensionamento histórico dos modelos convencionais, apesar das configurações assumidas em diferentes contextos sociais, que tornou mais plurais e dinâmicos os modelos familiares. Hoje, a família está compreendida com uma rede de convivência baseada no afeto, no cuidado mútuo e na convivência.
Faz-se necessária uma nota em torno dos usuários do slogan até aqui discutido para não descuidar do equívoco conceitual profundo cometido repetidamente pela grande mídia, por parcela da intelectualidade e até mesmo por analistas políticos no Brasil: batizar um fenômeno reacionário global com o nome de um indivíduo. O chamado “bolsonarismo” não deveria ser nomeado como se fosse uma teoria política estruturada ou uma corrente doutrinária autônoma. Ele não criou um corpo teórico, não produziu um pensamento original e não representa um projeto inédito de nação. Trata-se, na verdade, de mais uma das metamorfoses e máscaras do neofascismo contemporâneo, uma amálgama de ignorância institucionalizada, populismo demagógico e distopia social que tenta se mobilizar em nome de símbolos consagrados pela cultura e pela tradição.
A propósito, vale a referência de Said (2013) quando alerta: “Quando a consciência nacional se torna um fim em si mesma, quando uma particularidade étnica ou racial ou a essência nacional, em grande medida inventada, vira a meta de uma civilização, cultura ou partido político, você sabe que esse é o fim da comunidade humana e que estamos diante de outra coisa”. Como recomenda, Bobbio (2005) nós devemos “avaliar todos os argumentos antes de tomar uma decisão, verificar todos os testemunhos antes de decidir, e nunca falar ou decidir como um oráculo do qual depende irrevogavelmente uma escolha peremptória e definitiva”.
Quis dialogar com amigos e amigas, ressaltando que não podemos afirmar slogans que têm gerado confusões terríveis e que utilizam de propósito símbolos, temas e crenças muito além do que realmente representam. Urge recuperarmos e ressignificarmos democraticamente símbolos que são nossos por direito. Delegar nossa confiança cidadã e os destinos de nossa nação a este ou aquele político é um direito democrático. Todavia, não deveríamos fazê-lo sem o exame das postulações em debate. Mantenhamo-nos atentos para não sermos inocentes úteis, porque seremos jogados à cova dos leões na primeira oportunidade que os interesses maiores do capitalismo assim clamarem.