
O copiar e colar sempre existiu no mundo das tecnologias e da cultura. O que está acontecendo com a Inteligência Artificial, que não é inteligência, é uma aceleração nos modos de reproduzir os fazeres e saberes.
Walter Benjamin, em “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”, trouxe os conceitos de copiar, reproduzir e autenticidade das obras. Para ele, a obra de arte sempre foi reprodutível e os homens imitam os outros.
Com o desenvolvimento das tecnologias – e técnica é o domínio da natureza -, ele lembra a xilogravura, quando o desenho se torna pela primeira vez duplicável. A reprodução do som e da imagem perde a sua autenticidade, pois, para ele, a obra de arte precisava do aqui e do agora. De uma existência única, a Aura.
Com a Inteligência Artificial, vivemos uma hiper-reprodutibilidade técnica, são hiperacelerações, em que se perde o autêntico e se busca em bancos de dados modos diferentes de repetições. A criatividade é humana, por isso o conceito de criação do “espírito” está ligado à autenticidade e à criação orgânica, feita pelo homem para tentar buscar uma abertura estética que jamais imita.
Ao mesmo tempo, não podemos nem ser apocalípticos nem integrados, como bem retrata a obra de Umberto Eco. A IA é uma saída às necessidades sociais de um mundo acelerado que precisa de soluções rápidas.
O lado positivo são os exames médicos, como ressonância magnética, tomografia e raio-x. A IA consegue entender imagens em segundos, que posteriormente, exigem atenção de médicos especialistas. Há um diálogo, ainda, de conclusões entre o humano e a máquina.
Da mesma forma, a IA acabou deixando muitos artistas – músicos, designers e revisores – fora do mercado de trabalho. Esse é o lado mais perverso, apocalíptico. Com apenas um clique, seu texto já foi traduzido e revisado. Mas não é confiável, pois corrigir é voltar ao texto várias vezes e, só o humano consegue fazer esse movimento na pesquisa gramatical.
Vejamos o caso dos livros didáticos comprados pela prefeitura de Cuiabá, feitos por IA, há muitos erros de concordância verbal e de ortografia. Também no design de cartazes de rock há excessos de cores, caveiras, guitarras, raios, estrelas, brilhos. Tudo muito padronizado com estéticas clichês. Nada de novo no front.
Não adianta fazer tudo por meio da IA, pois o conhecimento é pessoal e único. Lembro quando dava aulas em faculdades e alunos vinham com textos colados da internet. Não havia IA, ainda. Não é sobre apresentar um produto, é sobre aprender conteúdos, ter referências e desenvolver repertório.
A liberdade criativa na IA é relativa e repetitiva. Adaptada e integrada a padrões estabelecidos. Mas a luta continua entre o conformismo e a criação do “espírito”, dizia Edgar Morin, que nos deixou nesse último mês de maio aos 104 anos. Já estava tudo escrito, apenas o mundo super acelerou.
Ana Paola de Oliveira é jornalista, produtora musical, mestre em comunicação e especialista em direito autoral. Produtora executiva, assessora de imprensa e curadora. Produz fonogramas e licenciamento de músicas para audiovisuais. Foi professora da ESPM nos cursos de jornalismo e publicidade e propaganda. Repórter e crítica musical do Correio do Povo. Trabalhou como diretora de produção e assessora de imprensa na Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Prefeitura Municipal de Porto Alegre na Usina do Gasômetro.
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