
No segundo capítulo de Ter ou Ser?, Erich Fromm desloca a distinção entre as categorias existenciais do ter e do ser para o âmbito da experiência cotidiana, demonstrando que ambas não constituem apenas formas de relação com objetos, mas modos fundamentais de existir e de relacionar-se consigo mesmo, com os outros e com o mundo. A preocupação central de Fromm consiste em evidenciar como a lógica do ter, característica da sociedade moderna, ultrapassa a esfera econômica e passa a colonizar a própria subjetividade, convertendo a comunicação, os vínculos interpessoais e a identidade em objetos de posse e de consumo simbólico. Entre as experiências analisadas pelo autor, interessa-nos particularmente a categoria do discurso, por oferecer uma importante chave hermenêutica para compreender aquilo que denominamos, em texto recente, de fé performática.
Ao tratar da preparação para encontros socialmente relevantes, Fromm observa que o indivíduo tende a construir uma apresentação estrategicamente planejada de si mesmo:
“Quem é que nunca passou pela experiência de encontrar uma pessoa famosa, proeminente, ou alguém de quem se pretende obter qualquer coisa: um bom emprego, ser amado, admirado? Em todas estas situações, grande parte das pessoas tem tendência a ficar um pouco ansiosa e, muitas vezes, a preparar-se para o importante encontro. Pensam em assuntos que interessam ao outro […] algumas até esquematizam toda a conversa na parte que lhes toca. Ou então, reforçam-se pensando em tudo o que têm: os seus sucessos passados, a sua personalidade, a sua posição social, relacionamentos, aparência, vestuário. Em suma, pesam mentalmente o seu próprio valor e, com base nesta avaliação, exibem a mercadoria ao longo da conversa.”
O exemplo evidencia que, sob a predominância da modalidade do ter, o discurso deixa de constituir uma expressão espontânea da subjetividade para transformar-se em um recurso de valorização pessoal. O sujeito organiza sua fala a partir daquilo que possui — êxitos, relações, status e reconhecimento social — convertendo a própria identidade em uma mercadoria simbolicamente ofertada ao outro. A comunicação perde, assim, seu caráter dialógico e assume uma racionalidade instrumental: o interlocutor deixa de ser alguém com quem se estabelece um encontro autêntico para tornar-se um meio de obtenção de reconhecimento, influência ou vantagem social. O discurso converte-se, desse modo, em um mecanismo de administração da própria imagem.
A análise de Fromm permite compreender como a lógica do ter pode igualmente estruturar a vivência da fé. É precisamente nessa direção que se situa o conceito de fé performática aqui proposto. Quando a racionalidade possessiva invade o campo religioso, a autoridade espiritual deixa de representar apenas uma referência de orientação e cuidado pastoral para converter-se em um importante marcador de prestígio simbólico. A proximidade com pastores, padres, bispos, apóstolos e demais lideranças passa a funcionar como capital religioso passível de acumulação, exibição e mobilização para legitimar a posição ocupada pelo indivíduo no interior da comunidade.
Essa dinâmica manifesta-se de maneira particularmente intensa nas redes sociais, cuja lógica privilegia a visibilidade, a exposição contínua e a construção permanente da imagem pública. Fotografias ao lado de líderes religiosos, registros de encontros privados, publicações que evidenciam relações de proximidade institucional e narrativas que destacam privilégios de acesso deixam de constituir simples recordações pessoais para desempenhar uma função simbólica específica: comunicar pertencimento, reconhecimento e relevância dentro do grupo religioso. Em outras palavras, não basta participar da comunidade; torna-se necessário demonstrar publicamente que se ocupa uma posição diferenciada em sua hierarquia simbólica.
Sob essa perspectiva, a própria autoridade religiosa converte-se em objeto de consumo simbólico. Sua imagem é incorporada ao processo de construção identitária do fiel, que passa a derivar parte de sua legitimidade da associação pública com figuras socialmente reconhecidas. Quanto maior a proximidade exibida, maior tende a ser a percepção de autoridade, influência ou espiritualidade atribuída ao indivíduo. A experiência religiosa passa, assim, a reproduzir a lógica da acumulação: acumulam-se contatos, fotografias, convites, participações em eventos e sinais públicos de reconhecimento, como se tais elementos constituíssem evidências objetivas de maturidade espiritual.
Tal dinâmica evidencia uma profunda inversão dos valores centrais da tradição cristã. Virtudes como humildade, discrição, serviço e esvaziamento de si cedem lugar ao imperativo da visibilidade permanente. O reconhecimento conferido pela comunidade passa a ocupar o espaço que, do ponto de vista teológico, pertence exclusivamente à relação do sujeito com Deus. A espiritualidade deixa de ser compreendida como um processo de transformação interior para converter-se em recurso de legitimação social.
Nesse contexto, a narrativa religiosa assume a forma de performance. O testemunho já não comunica prioritariamente a ação da graça, mas a relevância daquele que testemunha. A experiência espiritual é cuidadosamente editada, selecionada e apresentada segundo critérios de impacto, aceitação e engajamento, produzindo uma crescente dissociação entre a realidade vivida e a imagem projetada. Forma-se, assim, uma identidade religiosa cuja estabilidade depende cada vez mais do olhar e da validação dos outros.
A leitura de Fromm permite compreender que esse fenômeno não deve ser reduzido a uma simples deficiência moral ou a desvios individuais de conduta. Trata-se da manifestação de uma racionalidade histórica mais ampla, na qual a categoria do ter subordina progressivamente a categoria do ser, estendendo a lógica mercantil às dimensões mais íntimas da existência. Pessoas, relações, experiências e símbolos espirituais passam a ser tratados como bens suscetíveis de aquisição, acumulação e exibição pública. A fé deixa, então, de ser compreendida como um modo de existência orientado pela transformação do sujeito para converter-se em um recurso simbólico de distinção social.
A fé performática constitui, portanto, uma expressão contemporânea da colonização da experiência religiosa pela racionalidade do mercado. Nela, vemos também que, a busca por reconhecimento substitui gradativamente a busca pela comunhão; a visibilidade ocupa o lugar da autenticidade; e a construção da imagem sobrepõe-se ao cultivo da interioridade. A distinção estabelecida por Fromm entre ter e ser mostra-se, assim, particularmente fecunda para interpretar a espiritualidade contemporânea, ao revelar que sua crise não consiste apenas na perda da fé, mas na transformação da própria fé em objeto de posse, de exibição e de consumo simbólico. Essa constatação prepara o caminho para compreender como as dinâmicas da visibilidade digital reconfiguram não apenas as formas de expressão da religião, mas também a própria constituição da subjetividade religiosa na contemporaneidade.
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Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo, psicoterapeuta e docente no ensino superior. Participou do Programa de Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar. Sua produção intelectual e interesses de pesquisa concentram-se no campo da Psicanálise, com ênfase nas contribuições de Melanie Klein e Wilfred Bion, do Marxismo, da Teoria Crítica e da tradição da Escola de Frankfurt.