
Neste dia de estreia da Copa do Mundo, eu não poderia ter sentimentos mais ambíguos com o torneio e com as hipocrisias de edição atual. Um Mundial do qual a Rússia está banida devido à Guerra da Ucrânia, mas sediada nos Estados Unidos, governado por um déspota infantil neste momento, ameaçando guerras físicas e fiscais com meio mundo – e que também apoia incondicionalmente o genocídio da população palestina que vem sendo praticado por Israel. Um país em que uma das seleções mais meia-bombas que eu já vi nos meus 52 anos vai jogar com uma camiseta que foi apropriada pela caquistocracia da extrema-direita nacional a ponto de seu próprio criador, o saudoso Aldyr Garcia Schlee, renegá-la.
Então decidi falar de livros e escritores. Elenquei um comentário breve sobre um autor de cada país em disputa no torneio. Fui amplo e democrático. Tem contos, quadrinhos, romances – com a ressalva de que só me dediquei a comentar autores que já havia lido e que tenham edição de sua obra no Brasil. Tentei também fugir dos nomes mais óbvios, mas, como a lista é pautada por meu gosto, nem sempre me comprometi com isso. Nos casos em que não encontrei ninguém, admiti e mandei para vocês um nome do Google que eu também não conheço. Talvez descubramos juntos.
Grupo A
México – Carlos Fuentes
Um dos mais relevantes narradores da literatura hispânica, Fuentes foi um dos pilares do chamado “boom” das letras latino-americanas dos anos 1960 e 1970. Como relata na coletânea de ensaios Eu e os outros, viveu a experiência essencial do que era ser mexicano quando morou, na infância, por alguns anos nos Estados Unidos. Ali moldou a consciência do que era ser um nativo do terceiro mundo na vizinhança da maior potência ocidental, e se dedicou a buscar em sua literatura as raízes desse sentimento, em livros magistrais como A morte de Artêmio Cruz.
África do Sul – J.M. Coetzee
O autor modelo para quem defende que, em literatura, menos é mais. A prosa de Coetzee é um exame desapiedado, quase clínico, das mesquinharias e pequenezas de seus personagens – mesmo quando esse personagem é ele próprio, recurso do qual o autor lançou mão em livros como a trilogia autobiográfica Infância, Juventude e Verão ou o magistral Diário de um ano ruim. Tanto nelas como em uma de suas melhores obras, Desonra, Coetzee discute o próprio papel do artista, da arte e do pensamento em uma África do Sul que engendrou a infâmia do Apartheid.
Coreia do Sul – Han Kang
Se você fizesse este texto na Copa de 2002, quando a Coreia sediou o Mundial, teria dificuldade de encontrar muitos autores sul-coreanos em tradução no Brasil. Duas décadas depois, impulsionada pela maré cultural do país em ascensão, Han Kang, ganhadora do Nobel de Literatura em 2024, é apenas a conhecida personalidade dentre muitos autores presentes nas nossas estantes. Seu romance de maior impacto é o desconcertante A vegetariana, sobre uma mulher que, por meio de uma opção radical pelo veganismo, desafia as rígidas regras sociais da sociedade coreana.
Tchéquia – Milan Kundera
Acho que hoje Milan Kundera anda meio fora de moda – com a queda do comunismo, meio que se esqueceram também os autores que poderiam ser usados para criticá-lo, além do que Kundera tinha uma visão macha da realidade que hoje é facilmente cancelável, mas seus livros – em especial, para mim, A brincadeira e Risíveis amores – são ainda fascinantes pela investigação sobre a vida sob o totalitarismo e como um retrato algo esmaecido das inquietações sexuais de uma outra época.
Grupo B
Canadá – Guy Delisle
Guy Deslile é um quadrinista que construiu uma interessante obra que mescla jornalismo e relatos de viagem. A obra que colocou seu nome no mapa foi Pyongyang, uma narrativa que documenta o tempo em que passou na Coreia do Norte como funcionário de um estúdio de animação responsável por supervisionar os trabalhadores coreanos contratados a baixo custo para uma animação de TV francesa. Seu traço é fino, suas composições são expressivas e seu olhar é sincero e agudo, complementando impressões com uma sólida pesquisa.
Bósnia e Herzegovina – Saša Stanišić
Saša Stanišić é um jovem nascido na Bósnia cuja família migrou para a Alemanha no início de sua adolescência para escapar das atrocidades da Guerra dos Bálcãs. É em alemão, portanto, que ele escreve Como o soldado conserta o gramofone, romance cuja desagregação formal reflete a destruição social e nacional provocada pela guerra entre as integrantes da antiga Iugoslávia. De início, um romance documentando em primeira pessoa a vida na cidade de Višegrad, o livro se fragmenta em novos pontos narrativos e formatos quando os sérvios entram na cidade, a guerra se inicia, e a família do narrador migra.
Catar
Eu nunca li um escritor do Catar. O Google me diz que o grande nome comercial atualmente numa literatura pouco difundida no Brasil é Abdulaziz Al-Mahmoud. Mas, sem ter lido, não posso falar nada. Vai que é o Paulo Coelho deles.
Suíça – Friedrich Dürrenmatt
Mais conhecido internacionalmente como dramaturgo – em certa medida, um Brecht sem a ideologia marxista –, Dürrenmatt foi também um cultor do romance policial sem apego às fórmulas por demais marcadas do gênero, como se pode ver em seu O juiz e seu carrasco (que belo título, hein?). Em uma cidadezinha no interior, um policial é encontrado morto, e a investigação fica a cargo de Bärlach, um comissário já velho e doente, mas que insiste no tabaco e nos bons vinhos. Ao mesmo tempo em que lida com a iminência de sua morte e tenta desvendar a do policial, Bärlach deslinda não apenas o crime, mas a própria sociedade do lugar.
Grupo C
Brasil
Da última vez que eu fiz uma experiência parecida com essa aqui de escrever um texto sobre um autor para cada país da Copa, para um blogue literário que eu mantinha na ZH, a escolha brasileira foi alvo de perplexidade por vários escritores com quem eu falava constantemente por ser o setorista de literatura, inclusive gente que nem era do RS. Embora hoje eu possa apostar que nenhum deles se lembra desse episódio em sua gloriosa banalidade, eu me lembro. E estou velho para gastar energia com treta irrelevante em ano de eleição. Então, bem, Brasil é a “nossa” seleção, vocês aí que se virem, é só entrar numa livraria.
Marrocos – Leila Slimani
Leila Slimani cria sua Mary Poppins do mal em Canção de ninar. No livro, um jovem casal francês decide contratar uma babá depois que a mulher, advogada, recebe uma proposta de emprego. Após algumas entrevistas, eles topam com a eficiente Louise, que é também excelente cozinheira e logo está cuidando da casa como uma empregada doméstica. Quanto mais Louise se torna indispensável à comodidade de seus patrões, menos eles percebem que uma fissura profunda na psique e na vida da babá levará à tragédia.
Haiti – Dany Laferrière
Laferrière é outro autor desta lista que viveu o trauma do exílio, tendo partido para o Canadá nos anos 1970, fugindo da ditadura do psicopata Baby Doc. Seu romance de estreia, Como fazer amor com um negro sem se cansar, é uma história calcada justamente na experiência do exílio. Dois jovens, Man e Bouban, desempregados e de visões opostas, dividem um apartamento em Quebec e discutem a vida, a religião, a filosofia, o jazz, a sociedade, as perspectivas diversas da própria negritude e a própria visão estereotipada do Ocidente enquanto frequentam a vibrante cena noturna de um tórrido verão canadense.
Escócia – Irvine Welsh
Welsh é um dos maiores provocadores punks produzidos pela literatura recente. Seu livro mais famoso é Trainspotting, que retrata com humor ácido e linguagem um punhado de personagens desajustados vivendo à margem na vizinhança portuária do Leith, numa Edimburgo estagnada durante o Thatcherismo. Sobram a essas figuras perdidas a marginalidade, o escapismo desiludido nas drogas, especialmente a heroína. Welsh, depois disso, tornou-se ordenhador da própria obra, lançando outros livros no mesmo universo, como Pornô e Skagboys, mas dou vivas a seu humor absurdo e à solidez de seu trabalho na criação da linguagem coloquial empregada por seus personagens.
Grupo D
Estados Unidos – Cormac McCarthy
Já que os EUA vêm, sob o comando de seu psicopata laranja, dispensando o verniz “civilizado” com que sempre impuseram seus interesses, foi inevitável pensar no autor do clássico Meridiano de sangue, jornada pelos desvãos não só do território desértico das grandes planícies americanas, mas do comportamento humano. Um jovem fugitivo chamado apenas “Garoto” engaja-se em expedições pelo Oeste americano – e se vê em uma trupe de bandoleiros que viaja em direção ao Pacífico, deixando um rastro de destruição, mortes e estupros. Uma saga contada em uma prosa de tom mítico e perturbador.
Paraguai – Augusto Roa Bastos
Um dos exemplares mais bem acabados do “romance de ditador” que chegou a ser popular durante o boom latino-americano foi Eu, o supremo (1974), do grande Augusto Roa Bastos. Narrado em uma prosa esquiva e experimental, o romance é um retrato ficcional impiedoso dos delírios de grandeza de um ditador de inspirações iluministas e comportamento trevoso – o romance é um gigantesco último monólogo interior à beira da morte empreendido pelo ditador, uma caricatura ficcional de José Gaspar Rodríguez de Francia, caudilho enciclopedista que governou o Paraguai com terror e mão de ferro de 1812 a 1840.
Austrália – Richard Flanagan
Lá por 2003, este autor teve publicado no Brasil o romance histórico O livro dos peixes de William Gould, ótima narrativa que misturava absurdo e humor para recontar a história da tumultuada povoação da Oceania. Por uma ofensa a seu oficial superior, um navegador britânico é enviado para o desterro na Terra de Van Diemen, a atual Tasmânia, e de lá narra sua história com os materiais à disposição (de acordo com a tinta fabricada para cada capítulo, a tipografia muda de cor: preta quando tinta de fato, vermelha quando o protagonista precisou diluí-la em sangue e marrom quando até as fezes do aprisionado precisaram servir de tinta).
Turquia – Orhan Pamuk
Ganhador do Nobel em 2006 e principal nome da literatura turca contemporânea no Brasil, é autor de narrativas que, assim como seu tema central, o das marcas produzidas pelo contato entre o Oriente e o Ocidente, unem com equilíbrio o melhor das tradições literárias europeias e árabes. Um exemplo disso é o romance monumental Meu Nome é Vermelho, obra na qual somos convidados, numa multiplicidade de duas dezenas de narradores, a acompanhar o que levou à morte de um miniaturista do século XVI, encarregado pelo Sultão de um projeto inspirado pela arte italiana do Renascimento e que pode ser considerado sacrílego.
Grupo E
Alemanha – Ingo Schulze
Uma das vozes mais relevantes da atual literatura alemã, Schulze, natural da antiga Alemanha Oriental, é o autor de um romance monumental sobre a reunificação da Alemanha, Vidas Novas, um apanhado vigoroso do que Schulze define como a “anexação” da Alemanha socialista pela capitalista. Vidas Novas narra, por meio de uma coleção de cartas minuciosas de seu protagonista para três personagens distintos, a mefistofélica sedução do personagem principal pelo capitalismo ocidental, ainda novidade na Alemanha comunista em frangalhos.
Curaçao
Eu bebi curaçao uma vez e achei um drink horrível, com cor radioativa e gosto de remédio para tosse. Quanto à literatura, nunca li ninguém de Curaçao. O Google me indica Frank Martinus Arion e Tip Marugg. Nunca ouvi falar deles, o que não é um comentário sobre seus trabalhos, só uma admissão da minha ignorância.
Costa do Marfim – Ahmadou Kourouma
Kourouma tem apenas um livro editado no Brasil: Alá e as Crianças Soldados (Estação Liberdade). Uma ficção que trabalha com a experiência brutal da guerra no continente. Alá e as Crianças Soldados se passa nos anos 1990, durante os conflitos ocorridos na Libéria e em Serra Leoa, e é centrado na figura de Birahima, um garoto que é envolvido pela violência tribal enquanto viaja pelo continente em busca de uma parente – uma esperança fugidia de pertencimento e segurança em uma África que mergulha em sangue.
Equador – Maria Fernanda Ampuero:
Maria Fernanda Ampuero é representante de um fenômeno latino-americano sobre o qual eu já discuti com vocês aqui da Sler, bem antes de ser notado pela grande imprensa (neste texto): a existência de uma leva de ótimas autoras que se apropriam do horror e do policial como formatos para denúncia da violência contra a mulher no continente. Seu ótimo Rinha de Galos reúne contos desconcertantes numa linguagem crua e direta. Falei com mais detalhes no texto do link. Ah, sim, e o Equador também tem Mónica Ojeda na mesma leva.
Grupo F
Holanda – Cees Noteboom
Romancista, poeta e escritor de livros de viagem Teve lançado por aqui Dia de Finados, romance passado em Berlim, sobre um homem obcecado pela ausência da mulher amada. Noteboom não é dos autores estrangeiros mais conhecidos do pedaço aqui no Brasil – mas quantos são? –, embora seja um daqueles nomes cotados volta e meia para o Nobel. Seus livros são escritos em uma prosa precisa, sem pressa, e são belos e generosos.
Japão – Inio Asano
Não sou velho o bastante para falar só do Yasunari Kawabata ou do Junichiro Tanizaki como se não houvesse surgido mais ninguém nos últimos 50 anos. Não sou pop o bastante para me contentar com o onipresente Murakami. E não sou jovem o bastante para gostar de nada do que li da Banana Yashimoto, a Sally Rooney do Japão. Então vamos para as terras férteis do mangá. Inio Asano (ou Asano Inio, no sentido japonês original) é autor de uma das séries mais impactantes dos quadrinhos japoneses, o destruidor Boa Noite Punpun, um estudo devastador sobre inadequação, depressão e tragédia. Comparada a outros marcos do mangá, também é uma série relativamente curta.
Suécia – Henning Mankell
Mankell é um dos nomes mais importantes da literatura policial contemporânea, talvez um dos principais responsáveis pela popularização do que hoje se conhece como “noir nórdico” contemporâneo. Seus romances, protagonizados pelo melancólico policial Kurt Wallander, equilibram narrativas de crime com densidade social e psicológica. Boa parte da série foi publicada no Brasil. Mankell escreve com ritmo elegante, construindo atmosferas frias e inquietantes e, ao mesmo tempo, apresentando um certo mal-estar onipresente na mentalidade sueca com as mudanças sociais, políticas e demográficas/raciais que o país testemunha em uma Europa em transformação. Exemplares nesse sentido são, por exemplo, “Assassinos sem rosto e Cães de Riga.
Tunísia
Nunca li ninguém. Vi há uns anos edições espanholas de Habib Selmi numa das bancas da área internacional da Feira do Livro, mas não comprei.
Grupo G
Bélgica – Georges Simenon
Dizia-se que Simenon escrevia muito rápido para seu próprio bem, e é verdade, aparentemente ele conseguia terminar um romance em uma semana – quando queria descansar e ir devagar, acabava em um mês. Curiosamente, se essa pressa às vezes deixa marcas nas suas narrativas mais “sérias”, nunca percebi na sua principal criação, o investigador Maigret, protagonista de 75 romances e umas três dezenas de contos. Maigret é o investigador alto e pesadão que, para além do trabalho duro, deixa o caso fermentar dentro de sua intuição até chegar a soluções imprevistas. Como eu disse, são 75 romances, a maioria deles publicada ainda. Escolha um.
Egito – Nagib Mahfouz
Prêmio Nobel de 1988, Mahfuz teve uma longa série de romances lançada no Brasil, mas, se eu fosse recomendar algum para quem está iniciando sua aproximação do autor, talvez indicasse o thriller atmosférico O ladrão e os cães. Em meio às agitações do movimento republicano egípcio dos anos 1950, um ladrão chamado Said, personagem de lendas que o transformam numa espécie de “Robin Hood do Cairo”, é libertado da prisão e tem dois caminhos à frente: recomeçar a vida e reconquistar o afeto e respeito de sua filha, ou buscar vingança dos antigos cúmplices que o traíram.
Irã – Marjane Satrapi
Talvez, inadvertidamente, eu tivesse escolhido para este texto outro autor se não houvesse ficado abalado com a notícia, semana passada, da morte de Marjane Satrapi, grande quadrinista, autora de Persépolis, narrativa em quatro capítulos de sua infância e juventude sob o regime dos aiatolás. Numa época de alinhamentos automáticos por conveniência, não foram poucas as manifestações que vi desdenhando a força de sua obra por ela não ser “aliada” suficiente das causas certas, mas seu traço expressivo e simples e a dinâmica da sua narrativa são fantásticos e permanecem.
Nova Zelândia – Katherine Mansfield
Mansfield viveu uma vida muito semelhante à figura idealizada do artista boêmio, interrompida muito cedo, aos 35 anos. Mas, nesse breve período, deixou uma das mais sólidas obras do conto em língua inglesa, 88 exemplares de prosa luminosa que não desenredam um enredo prolongado, e sim um retrato de sensações e de momentos. Mansfield foi uma autora historicamente pouco traduzida no Brasil – a última coisa dela lançada por aqui de que me lembro foi uma coletânea editada pela Cosac Naify – editora que nem existe mais.
Grupo H
Espanha – Enrique Vila-Matas
Tornado conhecido no Brasil como Bartleby & companhia, romance sobre escritores que desistiram do ofício da escrita, Vila-Matas é um autor que vira do avesso os bastidores da literatura, escrevendo livros sobre autores e sobre a escrita como processo e a arte como ofício. Além de Bartleby, outros grandes exemplos são Dr. Pasavento, um livro sobre desaparição que insiste na inutilidade da publicação de literatura, recheado de citações de terceiros, boa parte inventadas, ou História portátil da Literatura, a narrativa fictícia de um movimento de vanguarda protagonizado por artistas reais do século XX.
Cabo Verde – Germano Almeida
Germano Almeida segue sendo marco na literatura moderna do país, e sou particularmente afeiçoado a dois de seus livros. Há, claro, o mais conhecido, O testamento do Sr. Napomuceno da Silva Araújo (aqui lançado só como O testamento do Sr. Napomuceno), misto de romance e sátira centrado no testamento de um excêntrico comerciante do Mindelo e na vida dupla que levou até construir sua fortuna e reputação. Mas meu preferido talvez seja O meu poeta, sátira feroz do nacionalismo pós-colonial. Ao dispersar uma manifestação estudantil com um discurso, o “poeta” do título alça-se na burocracia cultural ao cair nas graças do então regime de partido único vigente na sequência da independência do país.
Arábia Saudita
Nunca li autor da Arábia Saudita. Li resenhas já de Girls of Ryad, de Rajaa Alsanea, e fiquei interessado, mas fica para o futuro.
Uruguai – Mario Benedetti
Tem quem não goste de Benedetti, tem quem o ache ingênuo em sua lírica melancolia, mas continuo voltando periodicamente, com gosto e descoberta, a obras-primas como A trégua e Gracias por el fuego. Representante singular do existencialismo nas letras latino-americanas, Benedetti flagrou as agruras do homem perdido na modernidade. Seus livros são permeados por uma sensação de vazio e desamparo advinda da condição de um solitário abandonado com suas escolhas, mas o autor, nem assim, cede ao pessimismo irrevogável que é a tônica de seu compatriota Juan Carlos Onetti.
Grupo I
França – Marie Ndaye
Aqui se poderia escolher qualquer um dentre uma longa lista (incluindo Annie Ernaux e Édouard Louis), mas escolhi Marie Ndaye por dois motivos. O primeiro é o simbolismo arbitrário de ser uma francesa de nascimento, filha de pai senegalês e mãe francesa, representando assim a presença forte da África na Europa de hoje. O segundo é que seu livro Coração apertado, é uma pérola do horror contemporâneo – sem precisar de seres sobrenaturais. Um casal de professores de uma cidade interiorana passa, sem motivo aparente, a ser agredido e ameaçado por todos que cruzam seu caminho. Um terror para a era dos cancelamentos.
Senegal
Nunca li ninguém do Senegal, acho. Vou pôr na lista como tema de casa. Vi que a Fósforo lançou um romance de Mohamed Mbougar Sarr chamado A mais recôndita memória dos homens. Vou atrás.
Iraque
Sou como a Glória Pires, não me sinto capaz de opinar. Sei que um autor como Ahmed Saadawi já foi traduzido em Portugal, mas aqui não, ao que eu saiba.
Noruega – Karl Ove Knausgård
O Proust norueguês, que, em sua monumental série de romances Minha Luta, meio que nos provou que a Noruega é como um imenso Rio Grande do Sul: um lugar frio, meio atrasado e em que todo mundo se conhece um pouco e ninguém se gosta muito. Embora eu seja um admirador de seu ciclo memorialístico, quando finalmente o terminei, não tive mais paciência para nada do que veio depois, e ele já publicou um par de coisas.
Grupo J
Argentina – Martin Kohan
Outro caso em que não faltariam nomes a indicar, a começar pelos clássicos contemporâneos Borges e Cortázar, mas achei melhor optar por um autor menos pop – e com uma obra que guarda afinidade com o tema Copa. Escritor e professor de literatura, Martín Kohan teve lançado no Brasil o romance Duas vezes junho, que usa o intervalo entre duas Copas do Mundo, a de 1978 e a de 1982, para pensar a ditadura militar argentina. Vale ler também Segundos fora, romance que mistura boxe e música clássica e resulta muito, mas muito melhor do que você poderia pensar por essa sinopse.
Argélia – Albert Camus
Aqui eu poderia usar o critério que já havia aplicado antes, de preferir autores contemporâneos aos mais clássicos, mas não resisti. O principal de sua obra está atualmente ainda em catálogo, incluindo O estrangeiro, perturbador retrato de um homem perdido em um mal-estar permanente que o isola dos demais, estrangeiro no próprio mundo, homem para quem tanto faz o contato humano e o diálogo – O estrangeiro é um prodígio por ser um romance, portanto com uma voz literária e narrativa, no qual se consegue sentir a presença do esmagador silêncio do protagonista Mersault. É preciso ser um mestre em seu ofício para conseguir retratar o silêncio com palavras.
Áustria – Stefan Zweig
Um Nobel recente, Peter Handke, é austríaco e um autor de quem admiro os livros. Mas Handke é, basicamente, um filhodaputa de extrema-direita, apoiador do genocida sérvio Milosevic, então não entra como meu titular. Prefiro resgatar Zweig, que, além de ter sido em certo momento um dos autores mais lidos do século XX, tem uma conexão especial com o Brasil, onde se matou, aliás. É ele o criador da expressão Brasil, um País do Futuro, em um ensaio que publicou quando morava aqui, homenagem que se tornou dúbia com o tempo e o futuro que teima em não acontecer. Sua Autobiografia: o mundo de ontem, é exemplar ao analisar a transição do mundo europeu no qual Zweig cresceu e as transformações pelas quais passou no período entreguerras. Soa cada vez mais apropriado.
Jordânia – Ibrahim Nasrallah
Não li o livro mais famoso de Nasrallah, Tempo de cavalos brancos, e sim Biografia de um olho, seu romance histórico baseado na vida de uma personagem real, a primeira fotógrafa do mundo árabe, a palestina Karima Abbud. É uma leitura interessante por retratar Karima contra o pano de fundo das transformações que se sucedem entre os últimos anos do Império Otomano e o Mandato Britânico, que preparou a partição do território em 1948. Baseado nessa única leitura, me pareceu um escritor de linguagem segura e que equilibra de modo satisfatório o histórico e o romanesco.
Grupo K
Portugal – Mário de Carvalho.
Ex-militante comunista português, Carvalho tem uma obra que transita entre gêneros com desenvoltura: da ficção autorreferente com narrador sarcástico ao estilo machadiano de Era Bom que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto ao tom solene apropriado para uma recriação magistral do Império Romano no período de ascensão do Cristianismo em Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde. E sim, fiz a escolha para fugir um pouco dos óbvios Saramago e Lobo Antunes, que a esta altura eu acreditaria que o pessoal aí já conheceria.
República Democrática do Congo
Aqui eu estava pronto para falar de Alain Mabanckou, autor de Moisés Negro, grande livro e espécie de Oliver Twist africano para o qual escrevi um ensaio para a edição da TAG, há uns dois anos. Mas aí fui olhar com mais cuidado e descobri que Mabanckou não é da República Democrática do Congo, e sim da vizinha República do Congo/Brazzaville. Fica a recomendação com a admissão de que nunca li mesmo ninguém da RDC.
Uzbequistão
Como vocês já podem adivinhar, não conheço nenhum. Desculpa aí. Falam bem de um Abdulla Qahhar, da primeira metade do século XX. Nunca li.
Colômbia – Juan Gabriel Vásquez
Também aqui busquei ir além do óbvio e magistral García-Márquez, um dos meus autores preferidos, mas neste texto quis abrir espaço para Juan Gabriel Vásquez, autor de uma gema de aparente pouca repercussão: História secreta de Costaguana. Costaguana, vocês aí, meus leitores qualificados, vão lembrar que é a república fictícia retratada por Joseph Conrad em Nostromo. No livro, narrado por um colombiano de nome José Altamirano, Conrad, que de fato teve uma carreira como marinheiro antes de ser escritor, ouviu a história da Colômbia contada por Altamirano e a transformou no livro. No romance de Vásquez, Altamirano quer contar sua própria versão dos fatos.
Grupo L
Inglaterra – Julian Barnes
Barnes é o autor de Arthur & George, romance que aproveita um episódio da vida real de Arthur Conan Doyle para falar sobre as relações complexas entre os britânicos e os descendentes de emigrantes das ex-colônias. Talvez seja meu escritor favorito dentre seus pares da gigantesca geração que também trouxe a público Ian McEwan e Martin Amis. Falei com mais detalhes do livro nesta coluna recente.
Croácia
Embora tenha lido notícias da possível publicação para breve no Brasil de um livro de Tatjana Gromača, nunca a li, acho que também não li ninguém que se possa classificar no sentido moderno como croata. Se ainda fosse sérvia, eu sacaria um Danilo Kis.
Gana – Yaa Gyasi
Outra nação que há vinte anos representava um desafio complicado num texto como este, mas que hoje tem muitas traduções no Brasil. O que li de mais representativo é Yaa Gyasi e sua saga familiar histórica O caminho de casa, na qual a autora analisa diferentes aspectos do colonialismo escravista nas figuras das irmãs Effia e Esi, irmãs criadas em tribos separadas no século XVIII e que têm trajetórias opostas. Effia casa-se com um colonizador inglês e dá origem a uma família com condições materiais confortáveis, enquanto a irmã é vendida para trabalhar nas plantações dos Estados Unidos. É uma obra magistral por mostrar, ao longo de sete gerações, as consequências dessa bifurcação trágica de origem.
Panamá – Carlos Fuentes
Nunca li um autor do Panamá, do Panamá valendo. Mas, veja só, embora fosse mexicano, Carlos Fuentes nasceu na Cidade do Panamá. Então encerro este texto com o mesmo nome com o qual o abri, o que considero um fecho harmônico e elegante. Boa copa e boas leituras.
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